10 de junho de 2026

PLP 152/2025: corpo de autônomo, alma de empregado, por Lorena V. Porto

A OIT buscará adotar, em 2026, uma convenção, complementada por uma recomendação, sobre o trabalho decente na economia de plataformas.

A OIT planeja em 2026 convenção sobre trabalho decente em plataformas digitais, tema em debate global.
No Brasil, PLP 152/2025 cria categoria inferior para trabalhadores de apps, vedando reconhecimento da relação de emprego.
Exemplos da Itália e Espanha mostram proteção integral para entregadores quando reconhecida relação empregatícia.

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PLP 152/2025: corpo de autônomo, alma de empregado

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por Lorena Vasconcelos Porto

O trabalho em plataformas digitais está na ordem do dia em diversos países do mundo. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) buscará adotar, em 2026, uma convenção, complementada por uma recomendação, sobre o trabalho decente na economia de plataformas[1].

No Brasil, houve a apresentação, em dezembro de 2025, do relatório do Projeto de Lei Complementar (PLP) 152/2025 e o seu substitutivo na Comissão Especial sobre Regulamentação dos Trabalhadores por App da Câmara dos Deputados. Veda-se o reconhecimento da relação de emprego, mesmo quando presentes elementos de controle do trabalho, e se preveem alguns direitos em patamares manifestamente inferiores à legislação trabalhista, criando-se, assim, uma categoria inferior de trabalhadores no ordenamento jurídico[2]. Aparentemente autônomos, mas, na essência, subordinados. Parafraseando Calamandrei: corpo de autônomo, alma de empregado.

Isso nos remete ao trabalhador parassubordinado na Itália e a figuras análogas em outros países europeus. Trata-se de trabalhadores que, embora tidos como autônomos, são hipossuficientes, pois dependem economicamente do tomador dos seus serviços. Em razão disso, fazem jus a alguns dos direitos previstos pelas legislações trabalhista e previdenciária.

Na realidade, a parassubordinação gerou resultados diametralmente opostos àqueles sustentados por seus defensores. Estes afirmavam que ela seria uma forma de estender parte da proteção laboral a trabalhadores autônomos, que dela são excluídos. Mas, na verdade, ela ocasionou a restrição do conceito de subordinação. Disso resultou que trabalhadores tradicionalmente – e pacificamente – enquadrados como empregados passaram a ser considerados parassubordinados, sendo, assim, privados de direitos e garantias trabalhistas[3].

Foram estendidas pouquíssimas tutelas aos parassubordinados e, mesmo assim, em entidade bastante inferior às correspondentes aplicáveis aos empregados. O resultado é que o custo de um trabalhador parassubordinado é muito inferior àquele de um empregado, o que torna a figura uma via preferencial de fuga ao Direito do Trabalho. Assim, sob a aparência de ampliativa e protetora, a figura é, na essência, restritiva e desregulamentadora[4].

Posteriormente, foi prevista no Direito italiano a figura do parassubordinado “hetero-organizado” (art. 2°, parágrafo 1, do Decreto Legislativo n. 81/2015), inclusive mediante plataformas digitais, ao qual se aplicam todos os direitos trabalhistas. Na decisão n. 1.663, de 24.01.2020, a Corte de Cassação italiana declarou que entregadores de uma plataforma digital (Foodora) se enquadravam nessa figura, tendo, portanto, direito à proteção laboral integral.

Na Espanha, não obstante haja a figura do trabalhador autônomo economicamente dependente (Lei n. 20 de 2007), análogo ao parassubordinado, o Tribunal Supremo decidiu, em 23.09.2020, que um entregador da plataforma Glovo é empregado. Foi editado o Real Decreto-ley n. 9/2021(“Ley Rider”), que estabeleceu uma presunção relativa da existência da relação de emprego dos entregadores com as respectivas plataformas. Após a aplicação de multas milionárias pela Inspeção do Trabalho e da ameaça de sanções penais a seus dirigentes, as empresas recalcitrantes (Glovo e Uber Eats) passaram a cumprir a legislação[5].

No âmbito europeu, foi aprovada a Diretiva 2024/2831, de 23.10.2024, relativa à melhoria das condições de trabalho em plataformas digitais, a qual prevê novas regras para combater o falso trabalho autônomo[6]. Os países da União Europeia têm prazo até 02.12.2026 para incorporá-la em suas ordens jurídicas.

Desse modo, a instituição de figura semelhante à parassubordinação no Brasil, como pretende o PLP 152/2025, afrontaria a Constituição Federal de 1988. Esta, ao valorizar o trabalho como meio essencial à realização da dignidade da pessoa humana e à busca de maior justiça social (art. 1º, III e IV, art. 3º, I, III e IV, arts. 6º e 7º, art. 170, caput e incisos VII e VIII, art. 193), veda terminantemente o retrocesso nas condições laborativas no País (art. 3º, II, e art. 7º, caput), o que seria provocado pela introdução da parassubordinação, como nos mostra claramente o exemplo italiano.

Restariam afrontados, ainda, tratados internacionais de direitos humanos ratificados pelo Brasil. A Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH), na Opinião Consultiva n. OC-27/21, de 05 de maio de 2021, afirmou que “a regulação do trabalho no contexto das novas tecnologias deve ser realizada de acordo com os critérios de universalidade e irrenunciabilidade dos direitos trabalhistas, garantindo o trabalho digno e decente”, inclusive no âmbito das plataformas digitais. Afirmou o princípio da primazia da realidade e que os Estados devem adotar medidas que visem ao “reconhecimento dos trabalhadores e das trabalhadoras na legislação como empregados e empregadas, se na realidade o são, pois assim devem ter acesso aos direitos trabalhistas que lhes correspondem de acordo com a legislação nacional[7]. Trata-se de princípio de vigência universal, segundo a OIT, devendo-se dar maior importância aos fatos do que à forma[8].

Assim, caso estejam presentes os requisitos da relação de emprego no trabalho em plataformas digitais, esta deve ser reconhecida e garantidos todos os direitos trabalhistas e previdenciários correspondentes. A necessidade de observância dos tratados internacionais e da jurisprudência da Corte IDH foi reafirmada em Recomendações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ)[9] e do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP)[10].

Portanto, com fundamento nas normas constitucionais e nos parâmetros interamericanos, de observância obrigatória pelo Estado brasileiro, devem ser rejeitadas propostas, como a contida no PLP 152/2025, que preveem a criação de uma categoria inferior de proteção laboral para os trabalhares das plataformas digitais.

Este artigo não representa, necessariamente, a opinião do Coletivo Transforma MP.


Lorena Vasconcelos Porto é Procuradora do Trabalho. Membro do Coletivo Transforma MP. Doutora em Autonomia Individual e Autonomia Coletiva pela Universidade de Roma “Tor Vergata”. Mestre em Direito do Trabalho pela PUC-MG. Especialista em Direito do Trabalho e Previdência Social pela Universidade de Roma “Tor Vergata”. Professora Convidada da Universidade de Lyon 2 (França), do Mestrado em Direito do Trabalho da Universidad Externado de Colombia (Bogotá) e de cursos de pós-graduação “lato sensu” no Brasil.

[1] OIT. Comisión Normativa sobre el Trabajo Decente en la Economía de Plataformas. Disponível em: <https://www.ilo.org/sites/default/files/2025-06/ILC113-CNP-D3-SP.pdf>. Acesso em 26 jan. 2026.

[2] KALIL, Renan Bernardi. A hibridez precária: notas sobre o substitutivo do PLP 152/25. Disponível em: <https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/a-hibridez-precaria-notas-sobre-o-substitutivo-do-plp-152-25>. Acesso em 26 jan. 2026.

[3] PORTO, Lorena Vasconcelos. A subordinação no contrato de emprego: desconstrução, reconstrução e universalização do conceito jurídico. Disponível em: <https://bib.pucminas.br/teses/Direito_PortoLV_1.pdf>. Acesso em 26 jan. 2026.

[4] PORTO, Lorena Vasconcelos. A parassubordinação como forma de discriminação. Revista Direito das Relações Sociais e Trabalhistas, v. 3, n. 1, Brasília, Centro Universitário do Distrito Federal – UDF, p. 138-154, jan.-jun./2017. Disponível em: <https://publicacoes.udf.edu.br/index.php/relacoes-sociais-trabalhista/article/view/105/43>. Acesso em 26 jan. 2026.

[5] EL PAÍS. Uber Eats renuncia a sus repartidores autónomos para evitar la amenaza penal contra sus dirigentes. Disponível em: <https://elpais.com/economia/2026-01-15/uber-eats-renuncia-a-sus-repartidores-autonomos-para-evitar-la-amenaza-penal-contra-sus-dirigentes.html>. Acesso em 26 jan. 2026.

[6] União Europeia. Diretiva (UE) 2024/2831 do Parlamento Europeu e do Conselho. Disponível em: <https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=OJ:L_202402831>. Acesso em 26 jan. 2026.

[7] CORTE IDH. Opinión Consultiva OC-27/21 de 5 de mayo de 2021 solicitada por la Comisión Interamericana de Derechos Humanos. Derechos a la Libertad Sindical, Negociación Colectiva y Huelga, y su relación con otros Derechos, con perspectiva de Género. Disponível em: <https://www.corteidh.or.cr/docs/opiniones/seriea_27_esp1.pdf >. Acesso em 26 jan. 2026. Parágrafo 209.

[8] OIT. La relación de Trabajo – Conferencia Internacional del Trabajo. 95ª Reunião. Genebra: OIT, 2006. p. 24. OIT. R198 – Recomendación sobre la relación de trabajo, 2006 (núm. 198). Disponível em: <https://normlex.ilo.org/dyn/nrmlx_es/f?p=NORMLEXPUB:12100:0::NO::P12100_INSTRUMENT_ID:312535>. Acesso em 26 jan. 2026.

[9] CNJ. Recomendação n. 123, de 7 de janeiro de 2022. Disponível em: <https://atos.cnj.jus.br/files/original1519352022011161dda007f35ef.pdf>. Acesso em 26 jan. 2026.

[10] CNMP. Recomendação n. 96, de 28 de fevereiro de 2023. Disponível em: <https://www.cnmp.mp.br/portal/images/Recomendacoes/Recomendao-n-96—2023.pdf>. Acesso em 26 jan. 2026.

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