Covid-19, o vírus que emparedou o sistema, por Francisco Celso Calmon

Pandemia recoloca na ordem do dia a contradição que rege o mundo desde o surgimento do capitalismo: o bem-estar da vida ou bem-estar do mercado, a busca da maximização do lucro ou a dignidade da vida, a saúde ou a bolsa de valores.

de Bruno Marcos

Covid-19, o vírus que emparedou o sistema

por Francisco Celso Calmon

A segunda guerra mundial é considerada o marco da desumanidade, da barbárie, da fealdade a que chegou a relação entre os seres humanos. Essa guerra durou de 1939 a setembro de 1945, quando o Japão se rendeu oficialmente. Saindo do poço de monstruosidades, que foi essa guerra, surgiu um mês depois a Organização das Nações Unidas – ONU, outubro de 1945, com o propósito de instituir a diplomacia do diálogo em lugar da belicosidade.

Entretanto, em 1947, teve início a guerra fria, após o presidente dos EUA, Harry Trumam, ter instituído a sua doutrina de combate ao comunismo, como um demônio a ser caçado e destruído, cujo alvo era a União Soviética, mas cujo propósito real era ter a Europa sob domínio e dividir o mundo em dois polos.

A guerra fria entre os EUA e a URSS não gerou conflitos bélicos entre eles, mas ao redor do mundo, sim. O mundo nunca viveu em paz, sempre houve uma situação permanente de guerra, desde quando a sociedade se dividiu em classes.

Ainda inspirado num esforço de redenção da humanidade, ou mais especificamente das suas lideranças, foi publicada, em dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, marco teórico da beleza da humanidade. Nesse breve resumo fica exposto o paradoxo da história universal em menos de um século.

A pandemia do novo coronavírus, Covid-19, recoloca na ordem do dia a contradição que rege o mundo desde o surgimento do capitalismo: o bem-estar da vida ou bem-estar do mercado, a busca da maximização do lucro ou a dignidade da vida, a saúde ou a bolsa de valores.

O sistema econômico vigente não é estruturado para preservar e dignificar a vida, é voltado para gerar e maximizar o lucro, sendo o lucro produto da mais-valia, uma minoria estará bem e uma maioria com dificuldades continuadas. O trabalhador pode labutar a vida toda e nunca terá nada além de uma sofrida sobrevivência. O sistema é tão cruel que necessita de contingente de desempregados para servir de mão de obra sobressalente e de pressão para não aumentar os salários além de um teto, margem de lucro, imposto pelos capitalistas, por isso também não se importa com a vida do trabalhador, pois existe mão de obra substituta.

Segundo Karl Marx, a relação entre capital, trabalho e alienação, promove a reificação ou coisificação do mundo. Por reificação compreende-se o processo de coisificação. As ações humanas e suas relações passam a ser reduzidas a coisas e como tais substituíveis. Até o direito passa a ser mercadoria de consumo. Tudo se torna mercadoria, medida pela quantidade que o indivíduo possui: da qualificação da mão de obra ao carro último modelo, do celular na versão tecnológica top às roupas de marcas, das escolas de pedigree até os pós-doutorados, et caterva.

É o fetichismo da mercadoria, a aparência mascarando a essência, dissimulando as relações sociais de exploração, opressão e discriminação. Quem produz, em sua maioria, não tem acesso àquela mercadoria produzida, é a alienação entre o sujeito trabalhador e o objeto produzido. Sujeito e objetos são reduzidos a coisas, cujo valor o mercado estabelece pela relação entre oferta e procura.

O estímulo ao consumismo e o planejamento da obsolescência das mercadorias constituem o binômio para injetar o movimento contínuo pela maximização do lucro. Vetor e norte que levam ao afastamento perene da qualidade de vida, tornando a própria existência secundária.

Na crise econômica de 2008, houve um fenômeno digno de registro pelos principais jornais do mundo, que foi o aumento em 300%, na Alemanha, na aquisição das obras de Marx. Os interessados foram empresários e executivos de bancos. O desconhecimento da lógica do sistema é ecumênico e abundante, consequência da bem sucedida campanha anticomunista, a ponto de ter levado à ignorância total da própria história universal. O correspondente da BBC David Bamford afirmou, à época, que muitos viam a crise como um fracasso do capitalismo e que a obra de Marx poderia ajudar a entender o que deu errado.

Naquela crise, foi suscitado que a magnitude era tal que levaria a mudanças estruturais, para alguns era a crise final do capitalismo. Quem pagou a conta foi o contribuinte através do Estado, que foi socorrer os bancos. A irracionalidade do sistema e a ganância desenfreada pelo lucro ocasionaram créditos a quem não tinha condições de pagar, e quando começou a inadimplência o efeito foi de dominó, foi sistêmico. Mesmo assim, o capitalismo se refez e mostrou que tem resiliência e fôlego de gato. Resta saber se tem sete vidas e quantas já gastou?

E como fica a observância à Declaração Universal dos Direitos Humanos pelos países signatários?

Os direitos humanos são fundados sob o respeito pela dignidade e valor de cada pessoa, sem qualquer discriminação, portanto o direito à vida é o direito dos direitos. Ocorre que no capitalismo a vida é reduzida a uma coisa. E a vida sem dignidade não é vida humana.

O capitalismo, para obedecer a esse direito máster, teria que dar um cavalo de pau, o que é impossível no estágio a que chegou o imperialismo e a geopolítica mundial.

A dicotomia entre a vida e a economia, no abstrato, é falsa, porque a economia só existe se houver vida. Entretanto, faz sentido a contradição porque a economia capitalista não tem por objetivo preservar, dar qualidade e dignidade à vida. Isso fica mais explícito quando observamos os adeptos do darwinismo social e da teoria de Malthus. A primeira teoria exorava a sobrevivência dos mais aptos (os da nobreza, os de raça ariana, os mais fortes, os ricos, os jovens). A segunda defendia que o mundo deveria, sim, ter doenças, guerras, epidemias, para equilibrar a produção de alimentos com o crescimento populacional.

O direito à existência torna o Estado o zelador da vida dos indivíduos, garantindo outros direitos como o da saúde, educação, moradia, etc. Ocorre que o Estado está a serviço das classes dominantes, ou seja, a estrutura de poder estatal está prioritariamente comprometida com o sistema.

O capitalismo é camaleônico e escorpiônico. Tem várias aparências ao sabor das circunstâncias e localidades, sem perder, contudo, a sua essência escorpiônica, sempre pica aqueles que o transportam nas costas: os trabalhadores.

A relação do sistema e da sociedade com a natureza é de intervenção predatória, não interage como parte que é, mas como senhor dominador, agredindo, e sem condições de defesa quando a natureza reage. E a natureza é sempre mais forte, mesmo que muitas vezes demore a reagir.

De onde veio o novo coronavírus? Mutações naturais, de ensaios de laboratórios, de experimentação da guerra química? Esse diagnóstico será fundamental para o que fazer pós pandemia.

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O ex-presidente dos EUA, Barack Obama, previu há cinco anos a possibilidade de uma pandemia. Quais informações e lógica o levaram a tal previsão? Nem o presidente que o sucedeu, Trump, e nenhum outro líder mundial tomou providências. E por que não o fizeram?

O sistema e a sociedade são tão predatórios que, em pouco mais de um mês de quarentena, a natureza mostrou sinais de despoluição dos ares, rios e mares, a flora e a fauna restaurando os seus habitats.

Com Trump na gestão do imperialismo norte-americano na pandemia, ressurge às claras a contradição entre o sistema capitalista de desastre, predatório por excelência, e os sistemas diferenciados (social-democratas ou socialistas), como o da China, Cuba, Coreia do Norte, Vietnam, Rússia e o dos países nórdicos.

Enquanto o sistema capitalista se move pela busca incessante do lucro e sua maximização, sem pudor, sentimento, solidariedade, os sistemas alternativos se movem pela busca do bem-estar e satisfação humana de seus cidadãos.

Ainda é cedo para o saldo de cada país nesta guerra contra o coronavírus, todavia, até o presente, nos países onde o Estado é mais social do que empresarial, o resultado em favor da vida tem sido melhor. Mas é tarde para afirmar que a linguagem e a postura da diplomacia internacional, no interior e no exterior da ONU, é a da hipocrisia e do cinismo, anátemas da ética.

O bolsonarismo coloca no centro da pauta a contradição capital x trabalho e expõe a natureza perversa do sistema, o qual necessita do arbítrio, da violência, para se manter. Como não pode usar a violência para enfrentar um inimigo invisível, o presidente do Brasil se coloca como um quinta coluna e se alia ao inimigo Covid-19.

Como Trump que, no meio de uma crise humanitária mundial sem precedentes, aproveita para implementar o imperialismo belicista e expansionista para lucrar, o ministro da fazenda do governo bolsonarista, Paulo Guedes, também se aproveita para tirar vantagens e saciar o apetite insaturável de lucros do capitalismo de desastre. À guisa de salvar a economia, sob o sofisma de garantir empregos no futuro, salvar vidas ficou secundário, de forma que os recursos federias estão sendo destinados algo em torno de dois terços para as empresas e o restante para o sistema de saúde e auxílio aos mais vulneráveis. É a necropolítica de Guedes.

A pandemia tornou mais precária a vida dos trabalhadores no mundo e sobremaneira nos países, como o Brasil, onde a pobreza e a miséria são uma realidade trágica desde 2015.

A democracia do Brasil tem dois inimigos históricos: as Forças Armadas e a concentração de renda.

O primeiro tem uma trajetória antidemocrática e enamorada do nazifascismo. Sua biografia não é digna nem de admiração e nem de respeito, a guerra do Paraguai e a presença no Haiti são exemplos deprimentes da participação das Forças Armadas no exterior. As FAs protagonizaram nove golpes no país e mais algumas tentativas mal sucedidas. Estiveram 21 anos governando com plenos poderes e foi uma catástrofe política, social e um fiasco econômico. Nem fechando o Congresso, censurando a imprensa, torturando e matando opositores, nem arrochando o salário dos trabalhadores e favorecendo a concentração de renda e a desigualdade social, conseguiram levar o país à realização dos seus imensos potenciais.

Em um ano e quatro meses desse governo militarizado, o rastro de insucesso na gestão pública só aumenta. Em 2019, teve um crescimento diminuto do PIB de 1,1 %, apesar de todas as reformas que enviou ao Congresso terem sido aprovadas. Em 2020, deve ficar em torno de – 7.5 %, isto é: PIB reduzido, provocando a ampliação do número de desempregados e da população em situação de miséria. E aí reside o desespero do Bolsonaro, a quem qualifico de sociopata do Planalto, focado obsessivamente em sua reeleição, no seu mandonismo e na sua egolatria.

A segunda causa é a concentração de renda, uma das maiores do mundo. Uma concentração que leva 80% da riqueza a ficar na mão de 10% e de 30% da riqueza ficar com 1% da população, é vergonhoso, impiedoso, revoltante. Enquanto 70% da população viver de razoável padrão de consumo à miséria absoluta, o país fica insustentável, gerador de tensões internas e desapreço dos países socialmente civilizados.

A concentração de renda antepara a coexistência pacífica entre as classes, colocando uns poucos na estratosfera da fortuna e a maioria na base da pirâmide da riqueza nacional. A elevadíssima desigualdade social é fator de instabilidade para o desenvolvimento do país e do não aproveitamento das potencialidades do povo brasileiro.

A fortuna somente dos 10 maiores bilionários brasileiros totaliza aproximadamente 500 bilhões, que poderia ser taxada em 30%, e os que detêm patrimônio acima de 10 milhões serem taxados a partir de 1% até os 30%. Contribuição provisória enquanto durar a pandemia, pelo menos.

Numa guerra convencional, ou não-convencional como esta, e num quadro de recessão econômica, o governo pode emitir papel-moeda, sem risco de inflação, e após o seu final acertar a economia, em muitos casos até alavancando-a, como ocorreu com os EUA após a segunda guerra mundial. A passo de cágado para implementar as migalhas no enfretamento à guerra contra a Covid-19, o governo torna-se aliado preferencial do coronavírus.

Bolsonaro é um ideólogo da morte e um genocida seletivo. Não de agora, mas desde a caserna, quando fez planos para explodir gasodutos, e no Congresso quando pregava exterminar trinta mil esquerdistas e enaltecia o torturador e assassino Brilhante Ustra.

A pandemia tornou o deus-mercado transparente e sua essência está exposta, sem máscara, sem túnica, sem toga, sem verborragia, e aponta axiomática e inexoravelmente para o caminho da transformação do sistema. Sem alvíssara por enquanto.

A democracia está em crise de identidade ou faz parte da contradição capitalismo versus democracia?

Democracia a serviço do capitalismo entrará em crises periódicas, a cada marolinha ou tsunami da economia. Enquanto o capitalismo é excludente, a democracia é includente; enquanto o capitalismo é concentrador de renda, a democracia é pela distribuição da renda. Enquanto a democracia prega a dialógica como método de convivência entre os diferentes, o capitalismo emprega a violência para manter a opressão e exploração de uma classe sobre outras, de um país sobre outros.

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Por tudo, a radicalização ou aprofundamento da democracia chegará em algum estágio a colocar a ruptura como necessária para continuar vigendo, e, para isso, é essencial o empoderamento crescente de consciência e a organização do povo, sem os quais novos golpes ocorrerão sem resistência.

Pela Carta Magna do Brasil, o país deveria ser uma democracia social:

Art. 1o., Parágrafo único: Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.

Art. 3º: Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade livre, justa e solidária; II – garantir o desenvolvimento nacional; III – erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV – promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

Para possibilitar a concretização desses objetivos, asseverou pela função social da propriedade, artigo 5º, inciso XXIII.

A democracia ou é de todos ou não é democracia. A democracia da fome, do desemprego, do acesso restrito às riquezas produzidas pelo país, é um simulacro de democracia. Enquanto a sociedade não conhecer a verdadeira história universal e sobretudo a do país, não haverá consciência de rejeição, de indignação e espírito de luta, sem os quais não haverá a revolução social que o Papa Francisco, com seu amor ao próximo e a sua coragem, vem pregando: a revolução anticapitalista e anti-imperialista.

Carlos Marighela, considerado pela ditadura militar como seu inimigo número Um, afirmava, como um mantra, o dever do revolucionário é fazer a revolução. Fomentar a necessidade da revolução não significa estar às portas da revolução e nem significa explicitamente indicar o caminho da violência para realizá-la e sim evidenciar como um processo imperativo.

“A experiência histórica não vale para os pequenos burgueses, que não conhecem história. A ilusão é o alimento mais tenaz da consciência coletiva. A história ensina, mas não tem alunos” (Gramsci).

O desmonte da União Soviética não significou a excomunhão do socialismo como um sistema alternativo ao capitalismo. Nenhuma teoria ao ser aplicada na prática é materializada cem por cento como descrita. Ademais, enquanto a correlação de forças, principalmente econômicas, pender para os EUA e seus aliados estratégicos, haverá enormes dificuldades de implementação de um sistema fora de sua órbita capitalista, pois, além de golpes, violência, guerras híbridas, há o uso do embargo econômico, que é uma asfixia de médio e longo prazo a um país. Contudo, a China se transformando na maior economia, a Rússia, sendo potência militar, continuando a superar seus problemas e a América do Sul resistindo a não se transformar em quintal dos EUA, abre-se uma avenida para a um novo norte para a humanidade.

A disputa ideológica não é nefasta, devemos encarar e fazê-la. A luta pela hegemonia ideológica só se alcança travando o embate. Por isso, é um enorme equívoco político demonizar a classe média. Ela é o pêndulo na correlação de forças entre as classes dominantes e as subalternas. O bem-estar permanente e crescente que ela almeja não é alcançável no capitalismo, trabalhar para que ela se conscientize e se engaje num projeto de nação, que também a contemple, deve ser a postura política das forças de esquerda.

Um sistema que precisa da violência para se manter estará historicamente fadado a um dia desaparecer. Contudo, não é inexorável, é mister pregar e fazer a revolução social. As lutas identitárias prosseguirão, algumas desconectadas da luta maior, outras já estão sob o foco estrutural da luta de classes. Quando desconectadas fazem o jogo do sistema, porque pugnar pela ascensão social de qualquer segmento (negros, mulheres) na pirâmide do sistema, não leva a questionar as estruturas que produzem as discriminações e nem leva às transformações estruturais necessárias.

Dois mitos estão caindo com os cadáveres produzidos pela Covid-19. O primeiro é o do deus-mercado, o segundo é o do Estado mínimo. O mercado é impotente diante de crises econômicas, sociais e humanitárias, e busca o Estado como o seu viagra. O Estado mínimo é débil para enfrentar tragédias de natureza econômica e sanitária, e se agigantar durante a crise é difícil. Enquanto a pandemia se alastra em velocidade exponencial, o Estado se move na velocidade da tartaruga, por ausências de estruturas sanitárias e por letargia política do governo federal.

O projeto bolsonarista é o da destruição da plataforma civilizatória que vinha sendo construída de 1988 até o golpe de 2016. Como não contava com um inimigo invisível e suas armas, AR15, AK47, não o atingem, Bolsonaro tratou de se aliar à Covid-19 e transformou o vírus em sua nova arma, AC19.

Portando a nova arma no interior de seu corpo, como um terrorista virótico, e na propaganda genocida contra o distanciamento social, segue implementando a estratégia de acelerar a morte, cuja lógica é: se tem que morrer, que morram todos os vulneráveis o mais rápido – é a eugenia bolsonarista. Para depois do genocídio tentar soerguer a economia em tempo de ganhar as eleições de 2022. Nesse sentido, trocou um ministro que estava se aproveitando do combate ao novo coronavírus como palanque político e que defendia as recomendações da OMS – Organização Mundial da Saúde, já que ambos procedimentos contrariavam a sua estratégia.   O ministro Mandetta, exonerado consensualmente, tem histórico de direita destrutiva, é corresponsável pelo golpe de 2016, pela dispensa dos médicos cubanos (que falta estão fazendo!) e encolhimento do SUS.

O sociopata do Planalto livrou-se do Mandetta, não pelas questões menores de vaidade, embora para a personalidade do presidente todos sejam inimigos em potencial e não admite ninguém aparecendo mais do que ele, porque isso afeta o seu complexo de inferioridade, mas o exonerou porque necessitava de um Josef Mengele (o médico nazista apelidado de anjo da morte e também de açougueiro) ao seu lado. O seu “Mengele” já declarou que, entre os jovens e os idosos, a sua escolha é pelos jovens, que contribuirão para a economia, e não pelos idosos, que já contribuíram, portanto, descartáveis. Na pandemia, Bolsonaro declarou guerra à vida e implementa o necrocapitalismo. Ele terá que ter responsabilidade na contabilidade de infectados e mortos, relativa entre o Brasil e demais países.

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O Brasil está vivendo três crises: a sanitária, a econômica e a política. A pandemia vai afetar a economia do mundo todo e no Brasil afetará muito mais, pois já vinha de resultados pífios. Desemprego, miséria e mortes aumentarão e o caos poderá advir. O modo de enfrentamento à crise econômica e à sanitária é decorrente da política, que no estágio atual está sob o fio da navalha.

O presidente do Brasil está determinado a produzir o caos e dele erigir um Estado ditatorial. Seu comportamento errático de deboche à imprensa, de provocação ao Congresso, ao STF e à hierarquia das Forças Armadas, tem o objetivo de testá-las, sitiá-las e deixá-las imobilizadas, caso não reajam imediatamente e à altura, ele chegará aonde deseja: ser a própria Constituição.

Surgirá um mundo novo pós pandemia? Trump perderá as eleições nos EUA? Qual será a contabilidade final de infectados e óbitos por bloco político mundial? O poder da propaganda será mais forte do que o resultado da pandemia e irão prevalecer as fakes news? A China sairá como a primeira economia do mundo? Cuba será reconhecida como o país mais humanitário do planeta? As pessoas darão mais valor à vida, amarão mais, serão mais tolerantes e solidárias umas com as outras? O consumismo perderá o seu fetichismo? A natureza será respeitada e preservada? Do poço sairá uma nova civilidade?

São indagações que antecedem às conjecturas. Creio que hábitos de higiene (lavar as mãos, usar álcool gel) e medidas de prevenção (máscara, vacinas) deverão ser incorporados ao dia a dia, bem como a saúde pública deverá figurar no centro das preocupações da sociedade internacional. Aquele abraço será menos uma forma de expressão e mais um gesto físico.

E o Brasil conseguirá se livrar do presidente e haverá um novo pacto, ainda em tempo de mitigar a tragédia anunciada? Se não o fizer, a tragédia será maior.

As eleições municipais deste ano talvez sejam adiadas, mas não deveriam ultrapassar o ano. O TSE, ouvindo os partidos, deveria em julho anunciar o adiamento para dezembro, e também estabelecer dois dias de votação, para evitar aglomerações. Contudo, se assim o fizer, deveria ser proibida qualquer pesquisa de boca de urna no primeiro dia.

A esquerda brasileira continuará a ser mais cosmética do que revolucionária?

À luz da história a única certeza é a necessidade de mudança, para onde e com qual profundidade, continuará a depender da correlação de forças. Das crises de 1929 e de 2008, não ocorreram mudanças profundas e nem de rotas. A crise humanitária e econômica, consequência desta pandemia, será maior do que as anteriores, mas nenhuma crise em si leva automaticamente a revoluções estruturais e muito menos a corrigir o que fora deixado de lado pela esquerda: o trabalho de formação, organização e protagonização das classes trabalhadoras – observância ao primado da soberania popular. Sem vontade, coragem, consciência e organização do povo não haverá a mudança radical, como é necessária. Colocarão band-aid aqui e ali, mas o sistema permanecerá com mais uma sobrevida. Até quando? Eis um desafio que depende de todas e todos. Nesse sentido, lideranças como Sanders, Lula, Mojica, Obama e intelectuais renomados deveriam sair pelo mundo fomentando a necessidade de mudar o sistema para salvar a humanidade.

Não ficarei intimidado pelo risco que é fazer previsões, pois raciocinar é também raciocinar sob hipóteses, farei algumas: a China emergirá como a maior economia e irá assumir uma liderança política de postura cooperativa; China, Rússia e Cuba terão laços mais estreitos e zelosos pela integridade da América Latina; Trump e os EUA sairão desgastados; a ONU sofrerá mudanças; a globalização refluirá e os mercados internos aumentarão de importância; a produção de alimentos e a saúde passarão a ter mais valor; a ecologia voltará com mais vigor ao debate; o governo bolsonarista continuará implodindo; o “partido lavajatista”, da Globo, CIA e do ex-juiz e ex-ministro Moro e seus asseclas, tornará mais explícito seu projeto de poder; a maioria dos governadores e parte dos prefeitos do Brasil terão reconhecimento de seus cidadãos, mas outros ficarão com o desgaste do saldo da Covid-19; o consórcio de governadores do Nordeste deverá continuar pós-pandemia; as Forças Armadas, pelo seu comprometimento com o bolsonarismo e passividade na luta contra a pandemia, ficará marcada negativamente. Por fim, como previsão e desejo: a esquerda socialista e revolucionária terá mais penetração e influência junto ao povo do que a esquerda da conciliação de classes e cosmética.

O resultado da pandemia será fator de desgaste ou valorização de presidentes, governadores e prefeitos nas eleições deste ano, 2020, e nos dois anos seguintes, onde houver eleição no mundo.

A sobrevivência do capitalismo será sob covas rasas e coletivas das vítimas do coronavírus e da impotente economia de mercado. E quando as mortes baterem nas portas de milhares de brasileiros, quando o parente, o amigo, o vizinho, forem atingidos, quero crer que a tristeza e a revolta também serão exponenciais.

A Covid-19 emparedou o sistema, isso ninguém pode deixar de reconhecer, nos levou ao isolamento social, mas deve também estar levando a pensar alternativas ao modelo socioeconômico vigente, que, tanto em tempo de pandemia sanitária como nas pandemias sociais e econômicas, não cessa de ceifar vidas. O capital continua sendo o coveiro dos trabalhadores e dos mais frágeis.

O mundo tem jeito, o Estado é que precisa ser revolucionado!

26 de abril de 2020

Francisco Celso Calmon é Administrador, Advogado, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; Ex-coordenador nacional da RBMVJ; membro da coordenação da FBP-ES, autor dos livros Sequestro Moral E o PT como isso?(1997) e Combates pela Democracia (2012), e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).

 

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1 comentário

  1. boa analise como sempre calmon preza pelo rigor teorico ,o direito a vida esta em serio risco neste pais espero que o brasil consiga superar seu dilema e superar a crise pandemica economica e politica

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