Crise cambial, o novo (e falso) fantasma fabricado pela equipe do superministro, por Lauro Veiga Filho

A mudança de sinais no saldo das transações correntes, um resumo de todas as receitas e despesas do País no exterior, ocorre precisamente durante a pandemia, o que não é coincidência.

Foto Agência Brasil

Crise cambial, o novo (e falso) fantasma fabricado pela equipe do superministro

por Lauro Veiga Filho

A equipe econômica tem se especializado em fabricar ameaças para empurrar goela abaixo da sociedade o desmonte do setor público. Tirado da cartola, assim como o risco de uma crise fiscal avassaladora, o mais novo fantasma – e tão falso quanto uma nota de três reais – ganhou a forma de uma crise cambial, não faltando advertências em relação ao tenebroso caminho à frente de todos na hipótese ainda mais temível de não se verem aprovadas as tais reformas defendidas pela turma do superministro, tão ao gosto dos mercados.

Mas quais as bases concretas para previsões desse tipo? Nenhuma, a não ser o terrorismo recorrente dos novos bárbaros. Os dados das contas externas não só desaconselham conclusões assim, como as desmentem sem dó nem piedade. Nada como um pouco de realidade e fatos concretos para afugentar fantasmas. As estatísticas do Banco Central (BC) mostram, pelo contrário, até alguma melhoria nas contas externas do País nesses meses de pandemia, ainda que o preço para o ajuste observado neste ano tenha sido muito pesado.

A forte retração da atividade econômica doméstica explica em grande parte a queda no rombo na conta de transações correntes, que inclui exportações e importações de bens e mercadorias, despesas com serviços em geral, a exemplo de gastos com viagens internacionais, fretes, pagamento de royalties por uso de tecnologias importadas, aluguel de equipamentos, e ainda remessas de lucros e dividendos, entre outros itens.

A retração do mercado interno está por trás, por exemplo, da queda nos lucros das empresas e, portanto, da redução drástica nas remessas de dividendos para fora do País. Explica ainda a queda nas importações de mercadorias, o que ajudou a compensar parcialmente o tombo observado nas exportações, impedindo uma redução mais forte do saldo entre vendas e compras externas de bens. Da mesma forma, as despesas com fretes, viagens internacionais e aluguel de equipamentos foram achatadas, como resultado da combinação entre a perda de receitas e de renda aqui dentro e a alta do dólar, o que tornou mais caros todos aqueles itens, quando convertidos em reais.

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Recordes na crise

Em junho, as receitas incluídas na conta de transações correntes superaram as despesas em dólares realizadas pelo País no exterior por uma diferença de US$ 2,235 bilhões, no melhor resultado para o mês em toda a série histórica de dados do BC, iniciada em 1995. No mesmo mês de 2019, a conta tinha ficado negativa em US$ 2,659 bilhões. No segundo trimestre deste ano, o saldo foi positivo em todos os meses, acumulando um superávit de US$ 6,438 bilhões (também o mais elevado para o período na série estatística oficial). Para comparação, o País havia anotado um rombo de US$ 5,955 bilhões nos mesmos três meses de 2019. Como se pode perceber, a mudança de sinais no saldo das transações correntes, um resumo de todas as receitas e despesas do País no exterior, ocorre precisamente durante a pandemia, o que não é coincidência.

No primeiro semestre, as transações correntes apresentaram déficit de US$ 9,734 bilhões, o que significa dizer que o Brasil gastou mais dólares do que recebeu no período. Ainda assim, o rombo encolheu 53,6% em relação ao mesmo período do ano passado, quando a conta tinha ficado negativa em US$ 20,998 bilhões.

A maior contribuição para a queda veio da redução de quase 48,8% nas remessas de dividendos (que representam uma parcela do lucro registrado por uma empresa e distribuído aos acionistas, donos de ações dessa mesma empresa). Essas remessas desabaram de US$ 15,505 bilhões nos seis meses iniciais de 2019 para US$ 7,935 bilhões em igual período deste ano, ou seja, uma diferença para menos de US$ 7,570 bilhões.

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Na conta dos serviços contratados lá fora pelo País, as despesas líquidas com transportes (descontadas as receitas, já que navios e aviões brasileiros também recebem em dólares pelo frete ao transportar cargas daqui para outros países) foram reduzidas em quase um terço, saindo de US$ 2,848 bilhões para US$ 1,936 bilhão (32,0% a menos). A retração no gasto com fretes reflete também a conjuntura internacional pouco favorável ao comércio entre os países, como indicam as baixas sofridas tanto por exportações quanto pelas importações realizadas pelo País.

Os gastos líquidos com viagens internacionais (novamente, descontando-se os dólares que turistas e executivos estrangeiros gastaram no Brasil no mesmo período) desabaram praticamente 70% no primeiro semestre, saindo de US$ 5,730 bilhões para US$ 1,735 bilhão (US$ 3,996 bilhões a menos). O aluguel de equipamentos fabricados no exterior recuou quase 6,0%, de US$ 7,211 bilhões para US$ 6,781 bilhões. Tudo somado e subtraído, a conta de serviços encolheu 36,6% no primeiro semestre, baixando de US$ 17,653 bilhões para US$ 11,187 bilhões.

Reservas avançam

A balança comercial (exportações menos importações) acumulou superávit de US$ 19,327 bilhões no primeiro semestre deste ano, em baixa de 13,8% frente a igual intervalo de 2019 (US$ 22,412 bilhões). O impacto maior veio da redução de 6,8% nas exportações de mercadorias (de US$ 109,590 bilhões para US$ 102,184 bilhões), parcialmente compensado pela redução de 5,0% nas importações (que recuaram de US$ 87,177 bilhões para US$ 82,858 bilhões). Pesaram, no prato das compras externas, a menor demanda por bens importados por parte das empresas brasileiras, reflexo do encolhimento do mercado doméstico, e, no lado das exportações, a retração do comércio global de bens e mercadorias, sobretudo manufaturados, por conta da pandemia.

Apesar da fuga de US$ 31,252 bilhões dos mercados de ações e de títulos de dívida emitidos por empresas e pelo Tesouro no primeiro semestre, as reservas internacionais voltaram a subir, passando de US$ 339,317 bilhões em maio para US$ 345,706 bilhões em junho e, daí, para US$ 354,383 bilhões no dia 30 de julho, acima da dívida externa bruta, muito próxima de US$ 309,0 bilhões. Quem antecipa uma crise cambial num país que tem reservas suficientes para pagar de uma só tacada toda sua dívida externa, com sobras, não deve ter sido movido por propósitos muito honestos.

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