21 de maio de 2026

Cuba sob asfixia e a pergunta de Primo Levi: “É isto um homem?”, por Gustavo Tapioca

Quando o cerco econômico deixa de ser diplomacia e passa a operar como punição coletiva em escala continental 
Cuba - Apagão - Reprodução Flickr

O embargo dos EUA a Cuba, vigente há 60 anos, intensificou-se e causa falta de energia, transporte e alimentos na ilha.
O bloqueio energético impede que países terceiros forneçam petróleo a Cuba, criando pressão econômica e diplomática global.
A pergunta de Primo Levi, “É isto um homem?”, ressurge para questionar o impacto humano e político do embargo prolongado a Cuba.

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Cuba sob asfixia e a pergunta de Primo Levi: “É isto um homem?”

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por Gustavo Tapioca

A pergunta que atravessa o tempo 

Em É isto um homem?, — título do livro referência global sobre o Holocausto —, o escritor italiano Primo Levi vai além de um depoimento sobre horrores já conhecidos.  

Sobrevivente de Auschwitz, Levi formulou uma pergunta que atravessaria gerações: é isto um homem? Não era apenas uma pergunta sobre os carrascos. Era sobre o sistema que permite que a desumanização se torne política de Estado. 

Décadas depois, essa interrogação ressurge em outro cenário. Não nos campos de extermínio da Europa, mas no Caribe. Não com câmaras de gás, mas com sanções, bloqueios e estrangulamento econômico. 

Diante do recrudescimento do embargo de mais de 60 anos contra Cuba — intensificado por medidas recentes do governo dos Estados Unidos — a pergunta retorna com força incômoda: 

Quando uma potência global decide asfixiar economicamente um país inteiro, atingindo energia, transporte, saúde e alimentação, que tipo de humanidade sustenta essa política? 
Que tipo de política exige esse custo humano? 
É isto um homem? 

Ou estamos diante de uma forma prolongada de punição coletiva contra um povo inteiro? 

O embargo na vida real: energia, comida e sobrevivência 

O embargo a Cuba não é um conceito diplomático abstrato. Ele se manifesta no cotidiano. 

Falta combustível → falta transporte. 
Falta transporte → falta alimento. 
Falta energia → hospitais entram em crise. 

Falta o essencial à vida. 

A crise energética recente marca um ponto de inflexão. A interrupção do petróleo que historicamente vinha da Venezuela — agravada por pressões externas para impedir novos fornecedores — lançou a ilha em uma fase aguda de escassez. 

Sem combustível suficiente: 

  • apagões se multiplicam; 
  • voos são cancelados; 
  • a distribuição de alimentos se torna irregular; 
  • serviços públicos entram em regime de emergência; 
  • hospitais operam sob tensão permanente. 

Não é apenas economia. É infraestrutura civil básica. Energia é o sistema nervoso de qualquer sociedade. Quando ela falha, a vida civil entra em colapso. 

A população cubana vive há décadas sob restrições financeiras e comerciais que encarecem importações e dificultam acesso a crédito e tecnologia médica. O recrudescimento recente transformou esse quadro em crise aberta. 

E o ponto central é este: o embargo não atinge apenas um governo. 
Atinge a vida cotidiana de milhões de homens, mulheres, idosos e crianças. 

O bloqueio ao petróleo e a nova fase do cerco 

A fase atual do cerco não é apenas financeira ou comercial. Ela é energética. Após a interrupção do envio de petróleo venezuelano e o endurecimento das sanções norte-americanas, Washington deixou claro que pretende impedir que outros países abasteçam Cuba. 

Na prática, criou-se um bloqueio indireto global. Qualquer país que forneça petróleo à ilha pode sofrer sanções, tarifas ou retaliações financeiras. Não é preciso proibir formalmente. Basta tornar arriscado demais ajudar. O resultado é um sistema de dissuasão que vai além da relação bilateral EUA-Cuba. 

É um cerco que tenta impedir terceiros de aliviar a crise. 

Quem ajuda — e quem não ajuda 

Venezuela — Foi, por décadas, a principal fornecedora de petróleo para Cuba. Com a interrupção do envio, a base energética da ilha colapsou.  

Rússia — Anunciou disposição para enviar combustível e aliviar a escassez. A ajuda existe, mas é cercada por cautela diplomática e pressão externa. 

China — Mantém cooperação econômica e crédito. Ajuda a amortecer impactos, mas atua com cautela diante do risco de sanções secundárias.                                       

Espanha e México também estão na lista dos principais países que fornecem algum tipo de ajuda humanitária ao povo cubano. 

O Brasil não enviou petróleo a Cuba até o momento. Não por incapacidade técnica, mas porque o novo cerco energético tornou qualquer envio potencial alvo de retaliação. Há pressões políticas internas. Há debate sobre cooperação humanitária. Mas o custo de desafiar o cerco é alto.   

A Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), representando a força de trabalho que move a Petrobras, convocou a classe trabalhadora para erguer uma campanha no sentido de pedir ao governo brasileiro que desenvolva ação de solidariedade concreta: “o fornecimento imediato de petróleo e combustíveis à Cuba.” 

Mais médicos: quem ajudou quem 

Há um contraste raramente enfatizado. Mesmo sob embargo, Cuba construiu uma das maiores redes de cooperação médica do mundo. Médicos cubanos atuaram em dezenas de países pobres. 

No Brasil, o programa Mais Médicos levou profissionais a regiões aonde o Estado não chegava. A cooperação foi interrompida no governo Bolsonaro e retomada em 2023. Ou seja: um país sob sanções continuou exportando serviços de saúde para o mundo mais vulnerável. 

Agora, esse mesmo país enfrenta escassez de combustível e insumos básicos. E clama por ajuda. A ironia geopolítica é brutal. 

A dimensão continental: disciplina geopolítica 

A política externa norte-americana volta-se com intensidade renovada para o Caribe. O alvo imediato é Cuba. O sinal é regional. Não se trata de ameaça militar. 
Trata-se de controle geopolítico. Cuba simboliza autonomia no hemisfério. 
E símbolos importam. O endurecimento do cerco envia mensagem clara: 
quem desafia a ordem econômica dominante pode enfrentar estrangulamento prolongado. Sanções tornam-se instrumento de disciplina continental. 
E a mensagem é inequívoca: autonomia tem custo. 

O jornalista Breno Altman, em entrevista divulgada na terça-feira, 17, alertou: “O troféu que Trump e a direita norte-americana desejam não é Venezuela, não é Colômbia, é Cuba.” E ressalta que Cuba tem um lugar estratégico no avanço das pressões dos Estados Unidos na América Latina 

Ao final da análise, o Breno alerta que, mesmo sem clareza sobre os próximos passos de Washington, Cuba entrou definitivamente no centro da disputa geopolítica atual. “Eu não tenho dúvida que Cuba passa a ser a bola da vez”, concluiu, ao apontar que a ilha enfrenta um cenário de crescente pressão no contexto da política externa dos Estados Unidos. 

Genocídio ou não? 

Nenhum tribunal internacional declarou que o embargo a Cuba constitui genocídio. A definição jurídica exige intenção específica de destruir um grupo nacional. Mas o debate não se encerra aí. 

Sanções que atingem energia, alimentos e medicamentos levantam a questão da punição coletiva. Relatores internacionais já criticaram medidas que impactam diretamente populações civis. 

Quando políticas estatais produzem sofrimento massivo previsível e persistente — e ainda assim são mantidas ou intensificadas — surge a discussão sobre responsabilidade internacional. Chamar o cerco de genocídio é juridicamente controverso. Mas a pergunta é legítima: 

Pode uma política de asfixia econômica prolongada produzir efeitos que se aproximam de destruição social indireta? 
Que nome dar a isso quando a política de pressão passa a produzir destruição social prolongada? 

Nesse ambiente de estrangulamento energético e pressão diplomática, até a chegada de combustível se transforma em campo de disputa narrativa: anúncios de ajuda externa, negociações discretas e correntes virais revelam como o cerco a Cuba se dá não apenas no plano econômico, mas também no terreno da informação. 

A corrente das “100 mil toneladas” e a disputa pela verdade 

Nos últimos dias, voltou a circular em redes uma mensagem afirmando que “100 mil toneladas de combustível da Rússia já chegaram a Cuba” como ajuda humanitária. O enredo é mobilizador — e mistura fato com extrapolação. 

Há base jornalística para a informação central: fontes diplomáticas em Havana indicaram que Moscou prevê o fornecimento de petróleo e derivados a Cuba em caráter de ajuda. O Kremlin confirmou contatos com o governo cubano para discutir alternativas de apoio, evitando divulgar detalhes públicos e afirmando não desejar escalada com Washington. 

O número viralizado, porém, refere-se ao último grande envio russo registrado anteriormente. Ou seja: o que está confirmado é a negociação e a previsão de ajuda; não necessariamente a entrega imediata nos termos difundidos nas correntes. 

Esse detalhe revela o terreno político em disputa: a guerra do cerco também é guerra de narrativa. E ela se intensifica num contexto em que Moscou e Havana apontam ameaças de retaliação dos EUA contra países que tentem vender petróleo à ilha. 

Frei Betto e o alerta humanitário 

No  dia 17 da semana passada, o frade dominicano Frei Betto divulgou uma carta pública dedicada à situação cubana. Não foi um ensaio ideológico. Foi um apelo. 

Na sua campanha de Quaresma, Frei Beto classificou a situação da ilha como emergência humanitária e denunciou que, “em nome da liberdade que julgam que seu povo não tem”, o bloqueio penaliza diretamente a população cubana. 

Convocou arrecadação de medicamentos. 
Alertou para a escassez hospitalar. 
E descreveu o embargo como fator estrutural do sofrimento civil. 

O peso dessa intervenção é evidente. 
Quando Frei Beto afirma que nunca viu situação tão grave, não fala por retórica. 
Fala por experiência de quem conhece Cuba desde os tempos de Fidel Castro. 

Cuba fala em primeira pessoa 

Em artigo recente publicado no Brasil 247, o professor e médico cubano Wilkie Delgado Correa afirmou que a atual fase de pressão externa busca impedir que outros países forneçam petróleo e cooperação básica à ilha. 

Segundo ele, a estratégia transforma o bloqueio em mecanismo global de dissuasão e tenta intimidar governos terceiros. Ainda assim, sustenta que Cuba segue defendendo sua soberania e o direito de sobreviver sem tutela externa, apoiando-se na solidariedade internacional e na própria capacidade de resistência. 

A pergunta de Primo Levi que volta do século XX 

É nesse ponto que a pergunta de Primo Levi deixa de ser apenas memória histórica e volta a ser interrogação do presente. O título do seu livro É isto um homem? não é apenas uma pergunta literária. É uma interrogação moral dirigida à própria condição humana quando a desumanização passa a ser administrada como política de Estado. 

Ao formulá-la, Primo Levi falava dos prisioneiros reduzidos à degradação extrema, mas também do sistema que tornava isso possível. Auschwitz não foi apenas um lugar. Foi um método de demolição do humano. Essa pergunta retorna sempre que políticas deliberadas produzem sofrimento massivo previsível e prolongado. 

Não se trata de equiparar contextos históricos distintos. 
Trata-se de reconhecer mecanismos. Quando decisões de Estado empurram populações inteiras para a escassez estrutural de energia, alimentos, medicamentos e mobilidade; quando a infraestrutura civil se torna alvo indireto de pressão geopolítica; quando o cotidiano de milhões passa a depender de decisões tomadas fora de seu território; a pergunta de Levi volta a ecoar. 

E quando colocada diante de decisões que produzem sofrimento previsível e persistente, ela deixa de ser apenas memória histórica e volta a ser julgamento do presente: 

É isto um homem? 

No cenário atual de estrangulamento econômico imposto a Cuba, intensificado pelo bloqueio energético e pela tentativa de impedir que terceiros países abasteçam a ilha, essa pergunta ganharia destinatários políticos concretos. Entre eles, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujo governo determinou o recrudescimento das medidas que atingem, há 60 anos, diretamente a vida de milhares de homens, mulheres, idosos e crianças cubanas. 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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2 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    22 de fevereiro de 2026 1:47 pm

    Não existe um lugar na Terrra em que os americanos sejam bem vindos agora. Logo não existirá um planeta em que eles possam pousar foguetes de Elon Musk, Nasa e Jeff Bezos. O legado de Trump será a transformação dos EUA num presídio com muros nas fronteiras. E vejam os muros já estão sendo construídos.

  2. Antonio Uchoa Neto

    23 de fevereiro de 2026 3:18 pm

    Num espaço de 40 anos, até 1920, o British Rule na Índia matou cerca de 100 milhões de indianos.
    https://www-aljazeera-com.translate.goog/opinions/2022/12/2/how-british-colonial-policy-killed-100-million-indians?_x_tr_sl=en&_x_tr_tl=pt&_x_tr_hl=pt&_x_tr_pto=tc
    Ou seja, a Rainha Vitória (até 1901, se não me engano) e seus sucessores, na verdade, matariam de inveja Stálin, Mao, dentre outros – os “usual suspects”, quando se trata de apontar o dedo para déspotas sanguinários. Categoria na qual, certamente, ninguém incluirá a Rainha.
    Bom, 100.000.000…dá aí umas oito ou nove Cubas.
    Como Donald Trump é aquele que, conforme ele próprio, fez mais do que todos os outros presidentes americanos, até hoje, pode-se imaginar que ninguém estará a salvo, aqui nessas paragens latino-americanas – somos, hoje, algo em torno de 650 milhões de almas; vai servir para ele se colocar como o maior de todos, disparado, e ainda sobra alguma coisa para ele se vangloriar – talvez como aquele que nunca salvou tantos latinos, na História.

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