Da desidratação da Extrema Direita, por Ion de Andrade

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Da desidratação da Extrema Direita, por Ion de Andrade

As últimas pesquisas para a Presidência da República do Instituto Ipsos apresentam dois fenômenos aos quais já venho chamando a atenção há algum tempo: o declínio da candidatura da extrema direita e por efeito de arrasto da candidatura Lula o crescimento de Ciro Gomes. Ciro representa, ainda que num espectro de forças mais à direita, a recomposição do Estado pacto, tal como Lula também, embora com mais força e identidade, dada a hegemonia popular.

País difícil que é o Brasil, a recomposição do Estado de direito representaria a derrota cabal do golpe sob o prisma institucional já que o que se pretendeu com ele foi, além do entreguismo, a instauração de um Estado de exceção que mostrou-se inteiramente incapaz de materializar uma proposta estável de hegemonia para o campo conservador.

É previsível que a candidatura Ciro cresça por força inercial desse projeto de Estado pacto que não é opcional e figura como uma necessidade histórica. O Estado de direito é a arena política onde a burguesia e o proletariado se enfrentam em lutas que vão desenhando, como numa guerra, uma geografia política. Essa geografia institucional pode ser percebida nessa ou naquela política por um conteúdo mais influenciado por uma ou pela outra classe fundamental, sempre sustentado por uma lei que terá sido a expressão da força de uma das duas classes fundamentais naquele dado momento em que a luta foi travada e definiu uma fronteira. Não há opção a essa dinâmica de governança, razão porque o golpe cobrará dos golpistas, cedo ou tarde, alto preço

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Essa liturgia “democrática” é incoercível devido ao fato de que a existência de uma Sociedade Civil robusta como a que temos impõe que o governo se dê pelo consenso, em vez de pela força, razão porque a necessidade histórica favorece as candidaturas Lula e Ciro Gomes, mais do primeiro do que do segundo, aliás, exatamente pela identidade mais clara que tem quanto a esse projeto.

Ciro ocupa um espectro político que na Europa está estavelmente ocupado por partidos que vão da Democracia Cristã à Socialdemocracia tradicional e que foi (incrivelmente) abandonado pelo PSDB desde Fernando Henrique e com maior empenho suicida por Alckmin e Aécio.

Lula ocupa um polo emergente do historicamente novo na política mundial, movimento que viu o dia primeiro na América Latina mas que hoje encontra assemelhados em partidos como o Podemos espanhol, dentre outros, que buscam um redesenho da vida partidária mais alinhada aos movimentos sociais.

Essa reengenharia da política, que atravessa o Ocidente como um todo na crise de hegemonia que estamos atravessando, vem produzindo uma escumalha às vezes volumosa que é a Extrema direita. Um rejeito que será expelido a seu tempo devolvendo ao processo mais definitivo, o Estado pacto e sua dinâmica de governança, a possibilidade de que reemerja de forma mais robusta quando do equacionamento da crise orgânica.

Por essa ordem de ideias, seria presumível que o governo Trump com o seu cortejo de abominações pudesse vir a ser o prenúncio, tardio, do Estado social nos Estados Unidos, como o fascismo o foi na Europa. A ver. Portanto, conforme vejo, apesar de sua aparência poderosa, a extrema direita quanto mais mostre o seu rosto e o seu projeto mais será desidratada pela luz do dia. Essas forças noturnas, como na lenda do Drácula, não aguentam o sol.

As assimetrias sociais do Brasil tornam fascistização muito difícil. É tarefa inimaginável vetorizar a sociedade brasileira como um todo como Hitler conseguiu na Alemanha, Mussolini na Itália, Franco na Espanha ou Khomeini no Irã. A imaturidade do processo de nossa formação como nação, um legado das nossas elites coronelistas, impede fisicamente a formação de uma nova totalidade (totalitária) com qualquer ambição “arbitral” ou bonapartista.

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Além disso, em toda parte, o fascismo e seus congêneres, têm sempre sido um fenômeno eminentemente masculino. O nazismo na Alemanha, o fascismo na Itália, o franquismo na Espanha, o salazarismo em Portugal, o khomeinismo no Irã, as ditaduras no Chile, na Argentina ou no Brasil, são exemplos de ordens sociais assentadas também na subordinação das mulheres reduzidas à condição de objetos de cama e mesa.

Ora, nesse cenário, o que é que o fascismo faz com as favelas? O que faz com os negros? O que faz com as mulheres alçadas a uma condição de cidadania que as faz aspirar por igualdade de condições com os homens? O que faz com os pobres? Vai aumentar a renda e permitir que se integrem plenamente ao mercado e perder o apoio dessa aristocracia branca e colonial que vemos na Rússia nos envergonhar a todos? O vai dizer que a solução é a bala e a sova e se desidratar?

Me parece, portanto que entre a fascistização da sociedade brasileira ou a desidratação dos fascistas essa segunda opção parece mais provável. Já hoje os negros, os pobres e as mulheres entenderam o que o fascismo reserva para eles e parece que não estão gostando.

Essa é a razão pela qual a candidatura da Extrema direita já começou a desidratar.

O declínio da Extrema direita no Brasil é, já hoje, o resultado da militância capilar dos setores politicamente mais conscientes desses segmentos intrinsecamente antifascistas (pobres, negros e mulheres) como resulta também da tendência inercial de retorno ao Estado pacto que figura como uma necessidade histórica incoercível.

A perda de votos nunca é fenômeno passivo. Depende da ação cotidiana de muita gente. Os movimentos sociais que atuam nesses segmentos, atentos a isso, devem ampliar essa capacidade de atuação, já espontaneamente eficiente, para que essa vontade política se torne consciente, robusta e ainda mais eficiente.

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7 comentários

  1. Tomara que o que V.Sa.
    Tomara que o que V.Sa. apresentou, se concretize.

    Porém, o crescimento da extrema-direita se deveu ao crescimento da violência (“bandido bom é bandido morto”), do endividamento e da corrupção de longa data. Acrescente-se aí, a histeria anti-política, anti-“tudo o que está aí”, promovida pela mídia golpista.

    Aí, ficou fácil pegarem um Bollsonaro da vida (que, até então, era um pária), e apresentá-lo como um “lobo solitário” (ah, tá), como o “homem do cavalo branco” que “há de derrotar o Mal com sua espada” (kkkkkkk).

    Mas esse, ainda é o menos difícil de desmascarar. A questão é expôr a público os aliados do Fantoche (mais sujos do que pau de galinheiro). Uma vez que o povo tome consciência de que Bollsonaro é “mais do mesmo”, a desidratação dar-se-á de forma natural. Acredito que isso já tenha começado a acontecer.

    Porém, a vossa comparação com o Irã, apresenta um componente tenebroso: a bancada evangélica. Atualmente, a contagem de deputados vai de 93 (somente pastores) até 199 (SIC! 40% da Câmara!), se forem considerados os simpatizantes.

    https://jornalggn.com.br/noticia/qual-e-o-projeto-de-poder-politico-da-bancada-da-biblia

    https://jornalggn.com.br/noticia/bolsonaro-o-candidato-sabonete-por-eduardo-borges#comment-1231772

    Infelizmente, o povo trata a eleição legislativa com negligência, e os pastores têm uma estratégia para se aproveitar disso (basicamente, espalhar seus candidatos entre vários partidos, e também, geograficamente).

    Mesmo que o Fantoche seja derrotado na eleição presidencial, não é difícil supor que a bancada dos (falsos) pastores cresça, com o risco de, inclusive, tornar-se majoritária. Neste caso, o Brasil estará caminhando, a passos largos, para uma clerigocracia no estilo iraniano.

  2. Lula não é mais o novo. Esse erro de criticar Ciro Gomes etc etc

    E, se foi, leia-se o recém lançado André SInger que há tempos se debruça sobre o lulismo. Sendo filiiado ao PT, e talvez o Inteledtual do PT, demonstra surprreendente independência e onestiade intelectual – isso, sim, é o que ajuda não o PT, mas as esquerdas  O eleitorado é conservador, as camadas de classes médias e mesmo do proletariado e do subproletariado não são politizados,são agradecidos, mas quando viram(aí,é secundário prova ou não provas) um pouquinho das negociações… pendem pra um lado ou pra outro.Gostaria de ver um PT que não cultivasse indivíduos eternamente, mas como já disse Zé Dirceu, há o risco de, sem a cola de Lula,o PT se dividir nalgumas das muitas faccões internas. Há uma luta interna. 

  3. A Extrema Direita, Como Válvula De Escape

    … Não está tão desidratada assim. Boa noite.
    Na verdade, ela se traveste e sempre terá o seu séquito “obs, sequioso” por soluções mágicas, imediatas. A violência, em todas as suas nuanças, cai como uma luva. Estamos vivendo o período mais obscurantista que a humanidade já experimentou (tragicomicamente, capitaneado por Ordens cujo nome contêm a luz (Ilumina A Ti)…).
    O Estado Totalitário dos Iluminados precisa das trevas, como no aforismo de André Gide, e sem repressão, eles não imporão a Nova (?) Ordem. Daí que a nossa luta é por luz, de fato, e por Justiça, a com Jota Capital. Menino Bolsa, neste turbilhão, não passa de um pecador nocivo. Logo as pessoas desistem do mito, mas por falta de suco. Mito murcho; de tudo.

  4. POR UMA FRENTE AMPLA DE ESQUERDA

    Na minha humilde opinião, o definhamento da candidatura de Jair Bolssonaro é tão previsível quanto inevitável, em face de seu ranço facista e eugenista.

    Além disso, a visão de economia do referido é tão elitista e entreguista quanto as posturas de outras pré-candidaturas já queimadas de saída, como as de Marina Silva, Geraldo Alkimin, Henrique Meirelles, e demais neoliberais.

    Portanto, fato é que a direita está mal das pernas. Todavia, urge perceber que a esquerda também carece ainda de uma candidatura presidencial mais promissora.

    Ciro Gomes já perdeu suas credenciais em razão do posicionamento de centro-direita, tanto pela vinculação com o agro-negócio, quanto pelo anúncio da ‘trinca de ferro’, encabeçada pelo hermético anglófono Mangabeira Unger.

    Assim, vale destacar que a postura mais lúcida até o momento foi aquela adotada pela pré-candidata Manuela D´Ávila, ao manifestar sua disposição para renunciar à candidatura em prol da formação de um frente ampla de esquerda.

    Neste sentido, há ainda a esperança de que o PT seja capaz de perceber a necessidade de somar forças com o PC do B e com outros partidos de esquerda desde o primeiro turno, e vale destacar que existe a possibilidade do próprio Lula indicar o nome de Fernando Haddad para substituí-lo na disputa eleitoral.

    Creio que esta alternativa de união da esquerda desde o primeiro turno é, sem dúvida, a melhor opção para garantir uma vitória segura e uma expressiva maioria parlamentar.

    Todaiva a hora para viabilizar este caminho do consenso é agora, pois o tempo urge.

    Pois a forma adequada para enfrentar todos os descalabros atuais, inclusive no que tange à escalada da barbárie policial, é promover o uso dos meios democráticos para construir uma plataforma política que embase o surgimento de uma frente ampla de esquerda, para disputar as eleições com base no compromisso firme com o resgate da legalidade constitucional, com o respeito à dignidade humana, com a reversão dos retrocessos e com a proteção e ampliação dos direitos sociais.

  5. Olha, o Brasil acabou como

    Olha, o Brasil acabou como projeto de país soberano e democracia moderna. Entre Bolsonaro, uma câmara de evangélicos, um crime organizado sem limites e um judiciário dominado… Estamos todos ferrados.

    Esse país acabou de vez. O brasileiro médio só vai entender isso quando for tarde demais (se entender!). Toda discussão sobre esse assunto já está ficando sem sentido… Está acontecendo e ninguém mais para, infelizmente.

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