De que derrota falamos nas eleições municipais?, por Ion de Andrade

Os prefeitos e vereadores eleitos do campo da esquerda não podem esquecer de que o Brasil é o oitavo país mais desigual do mundo, ultrapassado apenas por alguns países africanos.

De que derrota falamos nas eleições municipais?

por Ion de Andrade

A derrota

Muitas análises dos resultados das eleições deram conta de que a esquerda saiu derrotada do certame.

É verdade que ao longo dos anos algumas centenas de prefeituras foram perdidas para partidos de centro e de direita.

Essa matemática é verdadeira, mas é preciso enxergar essa realidade de maneira “tridimensional”, ou seja, não se trata de uma grandeza que pode ser expressa num gráfico com os eixos de x e y porque a lógica que está por trás a explicar o fenômeno é política.

Isso significa que a esquerda que foi derrotada não foi uma espécie de esquerda atemporal, a esquerda que foi derrotada é a que saiu das eleições municipais de 2016.

Se não acrescentarmos essa temporalidade ao gráfico cartesiano, só veremos quantidades e conceitos excessivamente genéricos.

Agregada essa temporalidade, poderíamos perguntar: que esquerda afinal perdeu as eleições de 2020 alicerçada sobretudo em gestões municipais que foram essas sim derrotadas? Que filosofia conduziu a esquerda em geral nessas gestões que, com raras exceções, não conseguiu produzir nenhum fenômeno comparável em entusiasmo e alcance ao que foi, por exemplo, o orçamento participativo da Porto Alegre de Olívio Dutra?

O que fez afinal a esquerda que tenha sido capaz entre 2017 a 2020 de se diferenciar efetivamente da direita nas gestões municipais, sobretudo sob o enfoque das camadas que, por dever de ofício, deveria representar, ou seja, os mais pobres? Se falamos de esquerda, que projeto estruturante comum levou adiante de forma orgânica no conjunto de municípios que governou?

A dúvida na resposta, e imagino que todos nós tivemos, começa a descortinar as razões da derrota. Não fomos derrotados em 2020, fomos derrotados enquanto proposta política construída entre 2016 e 2020, um fenômeno que mostrou o nariz nas últimas eleições do corrente ano.

A questão central hoje é o que fazer para não continuar pavimentando uma derrota que só descobriremos em 2024. Contrariamente ao que intuímos as eleições não falam de uma proposta presente da esquerda, falam desse passado gestor, de um passivo, por isso temos que entender o fenômeno de forma temporal. A esquerda não foi derrotada, mas uma esquerda foi derrotada.

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O que fazer

O exercício do Poder da esquerda nos municípios deve iniciar, de maneira comum e universal um processo de radicalização da democracia política. Essa deveria ser a resposta guia imediata à pergunta formulada acima sobre o que teria identificado o projeto estruturante das gestões de esquerda nos municípios entre 2017 e 2020. A resposta, na verdade, deveria ter brotado em cada um de nós, com clareza cristalina, indiscutível e óbvia.

Portanto, à pergunta “- O que fez a esquerda entre 2016 e 2020?” Deveríamos poder enunciar de forma um tanto irritada pelo óbvio: “- Por favor, a esquerda produziu a radicalização da democracia nos municípios que governou, fez chegar aos mais pobres os orçamentos públicos, transformou a vida das periferias e zonas rurais guiada por suas comunidades, até as pedras sabem!” Mas não respondemos assim e a resposta não nos veio com clareza.

Seria bom que tudo isso tivesse sido verdade, como de fato o foi em alguns municípios que funcionaram como uma espécie de “reserva” do projeto de sociedade que há de vingar um dia. Aos prefeitos e prefeitas desses municípios quero aproveitar aqui para, na pessoa da prefeita Márcia Lucena, do Conde na Paraíba, como representante dessa vertente, saudá-los como guerreiros e guerreiras.

Mas o que significa radicalizar a democracia? Significa ter entendido que a produção do espaço urbano deve ser feita de forma participativa, com foco na Inclusão Social e no Direito à Cidade. Significa atribuir ao povo abandonado à sua própria sorte nas periferias e zonas rurais, o privilégio de poder ter orçamentos suficientes (e não um cala boca) para, num processo democrático e participativo, definir o que deve ser feito em cada uma de suas comunidades, por meio de um Projeto de Desenvolvimento Territorial Participativo, que terá sido construído conjuntamente, pelo Poder Público e por aquela comunidade para que ela possa enfim sair do século XVIII no que toca aos bens materiais e do século XIX no que toca à violência.

Não sabemos ainda se essa será uma boa receita para ganhar as eleições de 2024, que julgarão as gestões que ocorrerão entre 2021 a 2024, mas temos absolutamente que construir as alianças com outros segmentos e classes sociais a partir dos consensos políticos e éticos que pudermos estabelecer, na órbita dessa ação política irrenunciável em favor dos mais pobres.

Apesar de ilustrativa do que devemos evitar, pois não se trata de uma obra de prefeitura, mas de um estado, a ponte Salvador-Itaparica, que custará bilhões de reais, obra que não foi antecedida sequer por um referendum e que comprometerá pesadamente o investimento público de um estado governado pela esquerda, se ergue como um mausoléu, num estado em que há necessidades sociais inegáveis, gritantes e cronicamente não atendidas.

Obras faraônicas como essas, que podem até galgar algum consenso, porque afinal vão tirar os caminhões do centro da cidade, contribuem para uma desfiguração da esquerda com o que deveria ser o seu maior propósito político: emancipar e trazer o nosso povo para a contemporaneidade resolvendo com recursos e inteligência os seus problemas mais prioritários de forma participativa e democrática.

Os prefeitos e vereadores eleitos do campo da esquerda não podem esquecer de que o Brasil é o oitavo país mais desigual do mundo, ultrapassado apenas por alguns países africanos. Essa verdade precisa ser repetida para nos vacinar contra a perigosa sensação de normalidade, que nos vem de berço, e que tende, por inércia, a manter o Brasil afinal como ele sempre foi. A indignação contra este estado de coisas, é bom sabermos, não é automática.

Onde investirá afinal a nossa esquerda? Na prioridade dos mais pobres, num arrojado projeto de desenvolvimento das periferias e zonas rurais dos municípios, construído de forma participativa com os seus moradores, num processo contagiante, como foi o do Orçamento Participativo de Olívio Dutra? Terá coragem de enfrentar aquela parcela da sociedade que sempre considera o investimento nos mais pobres como anel em focinho do porco? Terá coragem de construir ciclovias onde o povo mestiço usa bicicletas velhas para ir trabalhar, ou as construirá focado no lazer dos privilegiados que (não) as utilizarão para o lazer dominical? Construirá obras bonitas em bairros pobres ou as reservarão apenas para quem supostamente as merece? Entenderá que pobre não rima somente com creche, mas também com ruas bonitas, bibliotecas, piscinas públicas e centros culturais? Ou achará que levando cestas básicas, uma vez no ano, estará matando a fome de humanidade que é o cerne das nossas desigualdades?

Essas eleições que ocorrem às portas do fascismo, desafiam a esquerda a fazer com coragem o seu dever de casa. Ela ainda não sabe se isso vai dar certo do ponto de vista eleitoral em 2024, mas já sabe que sem um projeto político e orgânico de emancipação do povo e radicalmente democrático, não teve sucesso.

Terá, se quiser cumprir aquilo a que veio, que construir os consensos políticos e éticos na órbita da prioridade absoluta e irrenunciável para com os mais pobres e é para essa agenda que deverá trazer a cidade, ou com dignidade ser derrotada em 2024. E não deverá, mais uma vez, adiar a dívida social em troca de fazer qualquer obra de fachada em bairro de rico, na expectativa do reconhecimento dessa gente tão distinta.

Possam as gestões criar um ambiente de mobilização e entusiasmo nas cidades, construir uma ponte para um futuro com mais cidadania e justiça social e possam ser premiadas por isso nas próximas eleições.

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3 comentários

  1. O que falta é transparencia da imprensa hegemônica quando se trata de casos de sucesso em prefeituras geridas pela esquerda, principalmente quando do PT.
    Por exemplo, o que se fala da vitoria maiuscula de Fabiano Horta, que recebeu 88% dos votos em Maricá ?
    https://www.brasildefato.com.br/2020/11/17/prefeito-de-marica-do-pt-se-reelege-com-88-dos-votos-ancorado-em-politicas-sociais

    E as politicas vao continuar através de um gigantesco complexo turístico bilionário ‘Maraey’, um projeto com investidores privados que preve recolhimento bilionario de impostos e geração de milhares de empregos.
    O que sabemos sobre isso?

  2. O intelectual deveria dizer que o povo escolheu a direita, mesmo ele sabendo que o seu país e o mais desigual do mundo. Sim a esquerda foi derrotada pelo o povo que não a quer.
    Os nomes da esquerda das grandes foram derrotados qdo a direita associou os seus nomes a política identitária e as questões morais.

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