Decidível, por Wilson Ramos Filho

Muitos de nós se perguntam como reagir frente ao que estamos vivenciando. Estaríamos diante de um problema indecidível? A própria formulação desta indagação talvez seja uma das possíveis manifestações desse tipo de problema.

Decidível

por Wilson Ramos Filho (Xixo)

Não conheço nenhuma pessoa que tenha deixado de apoiar Bolsonaro por conta da ideologia de seu governo. Mesmo depois de todos os disparates dos filhos, dos ministros e do próprio presidente a maioria das pessoas que escolheram votar em Bolsonaro seguem apoiando sua proposta de maneira de existir em sociedade.

Certamente deve haver um ou outro que se diga decepcionado, mas não a ponto de fazer autocrítica ou de mudar de lado. Vejo alguns que até, moderadamente, o criticam por não cumprir integralmente com o que dele esperavam, mas seguem lhe emprestando apoio. Muitos projetam aprofundar a partir de 2022, com Moro, Huck ou Amoedo, “o que tem que ser feito”. Não vejo, entre os eleitores do jaguara, quem critique seu obscurantismo ou o autoritarismo que lhe é constitutivo a ponto de se arrepender do voto em 2018.

Ninguém deixou de apoiar o bolsonarismo por causa da nomeação ou do conteúdo nazista do programa para Cultura lançado por Alvim, recém demitido. Para se ter a real dimensão do problema, nem na comunidade judaica ou nos grupos que congregam homoafetivos, vítimas preferenciais do nazismo, vislumbra-se debandada no apoio à maneira bolsonara de existir. Criticam o subordinado poupando quem o nomeou e se calam quanto aos horrores relativos à compreensão bolsonara a respeito do que seja cultura.

Nos setores populares que sustentam o bolsonarismo a precarização das políticas públicas para pobres não erodiu o apoio ao governo. No empresariado, que perdeu lucratividade e consumidores de seus produtos e serviços pela diminuição da renda de sua distinta clientela, também não se vislumbram defecções significativas. Curiosamente, nem sentindo no bolso as consequências de sua escolha eleitoral os bolsonaristas, sejam trabalhadores, sejam empresários, abandonam o apoio ao governo. No máximo se fazem de desentendidos, como se não tivessem responsabilidade pela destruição do país.

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A teoria matemática dos problemas criou uma categoria para nela incluir os que não podem ser resolvidos com algoritmos: seriam os indecidíveis.

Muitos de nós se perguntam como reagir frente ao que estamos vivenciando. Estaríamos diante de um problema indecidível? A própria formulação desta indagação talvez seja uma das possíveis manifestações desse tipo de problema.

Não tenho a resposta, mas intuo que dentro dos marcos da institucionalidade bolsonara, aquela criada pelo Golpe de 2016, a solução não será encontrada. Metaforicamente, os algoritmos da sociabilidade que experimentamos (com uma irascível Direita Concursada, um cristianismo reacionário que se retroalimenta nas penumbras da “tolerância religiosa”, um fascismo social punitivista normalizado, com valores capitalistas introjetados socialmente etc) não permitem a resolução do problema. Para resolvê-lo se faz necessário escapar da ética capitalista condicionante.

Arriscaria supor que, como há um século, quando ainda não existia o Estado Social de Direito, a solução seja escapar da racionalidade totalizadora da resignação diante da iniquidade e da injustiça inerente ao modo de produção que nos garroteia, começando pelo esforço diário no exercício da legítima defesa, com violência equivalente e proporcional à agressão, para pouco a pouco coletivamente se construir uma plataforma anticapitalista que possa ser oposta à maneira bolsonara de existir. Não é fácil, mas a história já provou ser possível. A proposta de sociabilidade autoritária dialoga, mais do gostaríamos de admitir, com certas defesas de pautas identitárias ensejando maldades e desinteligências . Pior, exerce perversa sedução nos setores mais sensíveis ao individualismo e à tribalização aglutinadora de afinidades identitárias. Dentro dos cânones desta racionalidade conformista os problemas são indecidíveis, embora a mesma açoite os mais sensíveis como inevitabilidade, ou remeta os menos rústicos ao aparente conforto dos esoterismos. Fora dela, como utopia, como dimensão onírica, talvez. Nas atuais circunstâncias um mero talvez já serve de alento a quem não suporta a desigualdade e, acometido de meiaoitismo irrecuperável, ousa ser razoável e demandar o impossível.

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Wilson Ramos Filho (Xixo), doutor em direito, preside o Instituto Defesa da Classe Trabalhadora.

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2 comentários

  1. Beleza de visão…
    estamos passando por algo impossível de ser resolvido ponto a ponto

    sempre acontece quando o senso comum é criado com diferentes graduações, com uns acreditando que foram favorecidos, e muitos foram mesmo, e outros acreditando que serão favorecidos mais adiante, mas com tudo isso coincidindo com o declínio econômico, apesar das mudanças que conseguiram aprovar distribuindo dinheiro adoidado para os salafrário de sempre, entre deputados e senadores

    ou para tudo ou ninguém sai do lugar

  2. Caro Wilson.
    Talvez tenhamos que criar um algoritmo com dupla entrada, primeiro o efeito vergonha que aqueles que caem em si sentem e escondem a sua vergonha simplesmente mentindo, ou dizendo que votaram em outro candidato, ou dizendo que votaram em branco, ou simplesmente dizendo que o voto é secreto, porém na cidade de Porto Alegre, que deu uma boa votação a Bolsonaro fica extremamente difícil encontrar um ex-eleitor de Bolsonaro declarado.
    Por outro lado há a segunda mentira, a das pesquisas de opinião que vão lentamente escorregando na direção de um desastre de opinião pública que é o atual governo, uma forma das empresas esconderem a sua própria vergonha e a conveniência de manter a política neo-liberal de venda do patrimônio público, na tal venda as empresas acham que terão beneficio para si e para seus negócios, logo manipulam as formas de pergunta ou mesmo manipulam as totalizações, mostrando um resultado totalmente com viés.
    Ou seja, não há tantos indescritíveis, há como sempre mentira e manipulação.

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