Depois da tempestade ou “eu já tô pensando no futuro”!, por Ana Laura Prates

Agora, ainda um pouco antes de depois da tempestade, eu já tô pensando no futuro! Afinal, os novíssimos baianos, paulistanos e cariocas já estão vacinados, como se diz, quanto a qualquer saída que não inclua um pouco de alegria, mesmo que em lá menor.

Depois da tempestade ou “eu já tô pensando no futuro”!

por Ana Laura Prates

                Dia 10/06 Marisa Monte lançou nas plataformas digitais a canção Calma, composição dela e de Chico Brown que faz parte do álbum Portas, o primeiro de inéditas em 10 anos, e que está prometido para o dia 01/07, dia de seu aniversário de 54 anos. Ouvi a canção e gostei; mais do que isso, ela me comoveu. Mas, alguns dias depois, li uma postagem de um amigo cuja opinião eu respeito, ironizando o refrão “calma tchu tchu tchu”. É claro que gosto não se discute, caso contrário, como diz o ditado, “o que seria do amarelo?” – e assim talvez não existisse o maravilhoso e imprescindível álbum do Emicida no qual ele afirma nada mais nada menos que o amor é… amar-elo. O que me deixou intrigada no comentário do meu amigo, entretanto, não foi nossa divergência de apreciação estética, mas a insinuação de que a música seria – a palavra é minha – frívola. Reconheci ali o antigo debate da MPB entre os engajados e os alienados e me lembrei de minha mãe dizendo que a censura da ditadura civil/militar do Brasil (1964-1984) sabia que a Tropicália era tão ou mais perigosa para os propósitos autoritários do que as chamadas canções de protesto, tese que, segundo ela, teria sido confirmada pela prisão e exílio de Gil e Caetano.

                Nossa geração, por sua vez, é aquela cantada por Renato Russo como composta por “burgueses sem religião” – o que podemos testemunhar pelo refrão do hit dos Tribalistas (Arnaldo, Carlinhos e Zé): “pé em deus e fé na taba!”. O aparecimento de Marisa no cenário musical brasileiro foi um marco. Como não lembrar aquele show dirigido e produzido por Nelson Mota no final dos anos 80, no auditório do Masp, ainda antes da gravação do primeiro LP. Ela cantava “bem que se quis depois de tudo ainda ser feliz” e trazia uma estética vintage (avant la lettre) cantando jazz em um microfone igual ao das cantoras de rádio. Ao final, ouvi alguém sentado na fileira da frente comentar: Ela é a Bethânia pós Carcará! Não entendi muito bem, mas achei que era verdade. Daí pra frente todo mundo conhece a história: a Marisa virou um merecido sucesso de crítica e público.  Mas além da carreira artística – na qual atua como cantora, compositora, arranjadora e instrumentista – é preciso destacar que ela é uma das poucas cantoras que detém os direitos de sua própria obra. Ela tem seu próprio selo e também é produtora de outros artistas e projetos como, por exemplo, aquele que mostrou ao mundo a Velha Guarda da Portela. Essa decisão permite que a possa também ser dona de sua trajetória, sem ficar refém das pressões do mercado, apesar de sua enorme popularidade – tanto assim que estava há 10 anos sem gravar um álbum de inéditas. Não faz publicidade, é discreta quanto à vida privada, e pouco frequenta as redes sociais, o que não a impede de ser uma maga na manipulação da própria imagem.

                Em termos estéticos, Marisa fez uma clara opção pelo pop, flertando muito mais com o samba de raiz, a Tropicália, a Jovem Guarda e, principalmente, os Novos Baianos do que com a Bossa Nova (por sinal, minha referência musical mais importante) – o que não a impediu de ter a bem vinda petulância de regravar Águas de Março em inglês na ilustre companhia de David Byrne. Mais recentemente, gravou também Estrada do sol com a adorável cantora portuguesa Carminho. Mas talvez seja a inclinação pop o que pode ter dado a impressão de frivolidade da canção Calma, comentada por meu amigo. Outro amigo – cuja opinião musical me é muito cara – já havia, no início do século, debochado dos Tribalistas. Segundo ele, o trio – formado por artistas individualmente respeitáveis – produziria uma síntese menor, superficial, pouco importante, brega e chata. Entendo que o sucesso mercadológico do primeiro álbum de 2002 pode ter gerado um efeito de desgaste por exaustão, mas quando o escutamos com c’alma, mais além das ondas do rádio, encontramos ali um requinte que fica escamoteado pelo jargão hipnótico: “eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também”. Lá ouvimos as belíssimas canções Velha Infância, É você, Lá de longe passando pela fofa Mary Cristo, pela incrível letra de Carnavália, a difícil O amor é feio, até a deliciosa e lúdica Passa em casa. A proximidade com os novíssimos baianos David Moraes, Pedro Baby e Dadi não é aleatória em absoluto. Talvez os Tribalistas representassem a síntese do Brasil escrito no futuro do pretérito.

                O Brasil que teria sido, se não tivesse acontecido tudo o que aconteceu depois de 2013. Um país que de fato talvez estivesse se transformando em um conjunto, em síntese, estética e eticamente menor do que a soma de suas partes – no caso, representadas em resumo por Nordeste, São Paulo e Rio (a parte mulher que descompleta e desestabiliza a ambição tola e pretenciosa de totalidade). Um país que até poderia ter se tornado frívolo, às vezes chato, certamente brega, mas também lírico, mais equilibrado, divertido e complexo. Nunca pouco importante! Não deixa de ser interessante a ênfase dada à estrutura ternária dos Tribalistas (tríade, trinômio, trindade, três). Carlinhos Brown é o elo de estilo disperso, quase esquizofrênico, com sua relação metonímica com a linguagem, expressa em neologismos grávidos de sentidos infinitos. Arnaldo Antunes é o elo de estilo minimalista, quase melancólico, com sua relação econômica e concreta com a linguagem, forçando o limite da metáfora. Marisa, a terceira, seria só mais um “cara” na brincadeira entre “chapas” – a “Zé” – mas “o cara” canta e encanta como uma sereia. Metódica e obcecada por acordes, arranjos e notas perfeitas e afinadas, mas não sem o toque exato de sedução refinada, mostrando apenas o necessário para causar o desejo do público e dos fãs. Eis a promessa da Taba Brasil que ali se delineava para o século recém-parido, como eles mesmos assumiam se autoproclamando “saudosistas do futuro”. A promessa modernista e autofágica de carnavalizar, usufruindo nossa velha infância e beijando de língua não se cumpriu. Talvez não por acaso o reencontro, a posteriori, em 2017, tenha gerado canções tão contraditórias quanto Diáspora – que renova o estilo metonímico da dispersão absoluta, porém agora revestida de tom melancólico, expresso na figura dos refugiados – e Um só – que decanta o limite da metáfora na aposta de união pela maré das irredutíveis diferenças entre comunistas e capitalistas, tendo como efeito tão somente a ênfase na esquize. Nessa segunda volta é Marisa quem faz da voz a Aliança com a aposta no futuro: “se um dia eu te encontrar, do jeito que sonhei, quem sabe ser seu par perfeito”.

                Marisa Monte, bem como sua ampla e sofisticada carreira não se resumem aos Tribalistas. Chamou-me a atenção, entretanto, que a primeira canção, do primeiro álbum lançado após 10 anos, bem durante a Pandemia – a tal que se chama Calma e que ganhou o comentário irônico do meu amigo – tenha sido uma parceria com Chico Brown, filho do tribalista Carlinhos e neto de Chico Buarque, de quem herdou o nome. Encontramos novamente aqui aquela síntese melancólica e esquizoide entre norte e sul, axé e bossa nova, passado e futuro. Encontramos novamente aqui o futuro do pretérito e o tema da esperança ativa sobre o qual tenho pensado muito durante a Pandemia. Essa foi uma das razões pelas quais a canção me comoveu, mas há outras. Na primeira parte, o eu lírico faz um apelo aparentemente otimista, quase negacionista. Ele pede “calma!”, alegando que “não é tudo isso é quase nada, tempestade em copo d’água” – sem esclarecer do que “isso” se trata.  Há, entretanto, duas dimensões que desmentem essa aparente tranquilidade, denunciando seu equilíbrio frágil e, até mesmo, revelando sua falsidade.

                 A primeira está na própria estrutura temporal presente na letra da canção. O pedido de calma é antecedido de uma declaração de pressa que desestabiliza a linearidade cronológica: “calma que eu JÁ tô pensando no futuro, que eu JÁ tô driblando a madrugada”. Trata-se, portanto, de uma estrofe que programa a angústia, pois o sujeito poético, evidentemente insone – como qualquer um que tenha coração está –, talvez dirigindo à noite na estrada, declara-se adiantado, prometendo ultrapassar a madrugada rumo à alvorada, quando na verdade está atrasado, caso contrário não precisaria pedir para que o interlocutor tivesse calma! É como quando alguém nos cobra algo que deveria estar pronto e que a gente responde: “Calma, já tô fazendo”. A mesma estratégia de quebra de linearidade comparece na canção Quem sabe isso quer dizer amor (e Marcio Borges e Lô Borges) na qual o eu lírico afirma “cheguei a tempo de te ver acordar, eu vim correndo à frente do sol” com a diferença de que aqui a promessa de ultrapassagem foi cumprida. Em Calma trata-se de uma travessia da madrugada que, na primeira parte da canção, não sabemos se ocorrerá ou não, há um indecidível em jogo. Outra diferença significativa é que, enquanto o primeiro sujeito se antecipa, sustentando a hesitação no plano do sentido enquanto aposta (Quem sabe isso quer dizer amor?) o outro sujeito pede calma, já calculando que está atrasado, e procura agarrar-se à falsa certeza cósmica da chegada da claridade: “eu não tenho medo do escuro, sei que logo vem a alvorada, deixa a luz do sol bater na estrada, ilumina o asfalto negro”. 

                A outra dimensão que contradiz o que o eu lírico está aparentemente afirmando é a própria estrutura harmônica da canção, composta em tom menor. Como disse uma vez Carminho, o samba é a tristeza em tom maior e o fado é a alegria em tom menor. Calma, portanto, é uma canção pop que contrabandeia a tristeza do fado, provocando uma dissonância entre o que é declarado em termos de sentido e o que é sentido no corpo ao escutar a música. A melodia é tristíssima e o arranjo dramático com a presença dos sopros – com destaque para o trompete – a enfatiza. Com efeito, a segunda parte da canção esclarece a indefinição e a tensão inicial explicitando, finalmente, o apelo desesperado que até então era negado: “não faz assim, não diga que não gosta de mim, não diga que não vai me notar (…) não venha me dizer que não deu, não diga que não vai me esquecer, não diga que não sabe explicar, eu juro que não dá pra entender”. Agora, ficamos sabendo que desde o início já estamos no “depois” e que o desespero está justamente na constatação de que a alvorada não poderá calar o que já foi dito, e que podemos deduzir, pelo apelo para que o que está dado seja desmentido. Podemos imaginar o que foi dito: “Eu tentei, mas não deu. Eu não amo mais você, não sei explicar o que aconteceu. É difícil demais, mas não quero tentar te mudar” E a terrível frase clichê de consolo: “Mas, olha, nunca vou te esquecer”. Eis a verdade revelada que precisará ser encarada quando o sol iluminar o asfalto negro. Os diversos modos como Marisa entoa a palavra calma – sobretudo no final – vão da tristeza ao desespero, mas a canção termina com um imperativo paradoxal que eleva a hesitação – nem procrastinação nem antecipação – à dignidade do ato: Calma!

                A canção Calma provavelmente se tornará um novo hit por seu refrão fácil e aparentemente óbvio. Imagino a aglomeração pós Pandemia (espero estar lá!) cantando junto com Marisa: “Calma, tchu tchu tchu”. A canção Calma também poderá representar para alguns a trilha sonora do descompasso provocado por um abandono amoroso. Mas, já sabemos desde que Elis interpretou a belíssima canção de Tunay que “as aparências enganam aos que gelam e aos que inflamam”.  A canção Calma é uma aporia desse momento distópico em que, embora o estrago já tenha sido feito, não podemos simplesmente aceitá-lo de braços cruzados. De fato, o sonho da síntese, seja na concentração, na passagem pela avenida ou na dispersão, acabou. Como poderemos carnavalizar daqui pra frente a partir dessa triste constatação? Não poderemos simplesmente aceitar a diáspora dos covardes que, no momento em que deveriam driblar a madrugada, fogem com medo do escuro dizendo que “é difícil demais” e que “não deu”, quando havíamos prometido que “ninguém soltaria a mão de ninguém”.  Tampouco se sustenta por mais de uma estrofe a tentativa de negar a gravidade, bem como o caráter irreversível de “tudo isso”. Precisaremos ter calma, certamente, mas também precisamos com urgência nos apressar para driblar a madrugada se quisermos estar à altura do futuro que queremos construir. Já é hora de driblar a madrugada rumo ao tempo da alvorada que virá após a tempestade – seja nos nossos copos d’água particulares pousados em nossas mesas de cabeceira nas intermináveis noites insones, seja nos oceanos coletivos que teremos de atravessar enquanto refugiados de um tempo que passou.

                Agora, ainda um pouco antes de depois da tempestade, eu já tô pensando no futuro! Afinal, os novíssimos baianos, paulistanos e cariocas já estão vacinados, como se diz, quanto a qualquer saída que não inclua um pouco de alegria, mesmo que em lá menor.

Ana Laura Prates – Possui graduação em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1989), mestrado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (1996), doutorado em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (2006) e Pós-doutorado em Psicanálise pela UERJ (2012).

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1 comentário

  1. Exelente comentário….bela postagem…..me fez lembrar minhas andanças pela cidade profundo pelos companheiros….aí percebo que estou só todos se foram..não há mais Paribar….
    Redondo..Teatro de Arena….que fazer estou só…continuar lutando….sempre…

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