Desculpas, de quem e para quem?, por Francisco Celso Calmon

Sem a justiça de transição não haverá a reconciliação da história e a impunidade continuará como marca desta “democracia”.

Desculpas, de quem e para quem?

por Francisco Celso Calmon

Se Gilmar Mendes precisa pedir desculpas será a Dilma e ao Lula, pois com sua liminar açodada, apoiada em vazamentos ilegais do lavajatismo para a mídia, impediu Lula de assumir a chefia da casa Civil e mudou a história.

Essa responsabilidade carregará para sempre e a história também o julgará quando a democracia for recomposta e uma nova Comissão da Verdade for criada.

Se militares ficaram raivosos com as colocações do Gilmar Mendes, deve ser por ter dito a verdade. Só isso justifica as respostas agressivas e o peso na consciência que nublou não terem compreendido que o ministro do STF estava alertando por zelo à instituição militar, evitando sua associação com o genocídio que está me curso.  A reação corporativa dos fardados evidenciou o quanto estão envolvidos com a política.

Os que detêm o uso oficial das armas não devem e não podem fazer política!

Quem deve desculpas à nação brasileira e a todos os atingidos pela ditadura militar, que vigeu de 1964 a 1985, são as Forças Armadas. Enquanto não pedirem perdão pelos crimes que cometeram, não têm moral de exigir desculpas de ninguém.

Desde o primeiro dia do golpe, primeiro de abril de 1964, pessoas foram presas, torturadas e mortas: 50 mil só de abril a agosto, 500 mil sob suspeição, 200 mil investigadas, 11 mil acusadas e 5 mil condenadas, inclusive à pena de morte, mais de 11 mil torturadas, 10 mil exiladas, 9540, incluindo camponeses e indígenas, mortas pela repressão; 243 ainda desaparecidas, 7500 militares perseguidos, expulsos de suas corporações e alguns torturados pelos seus próprios colegas, segundo pesquisadores; já a CNV aponta as perseguições por instituição militar: 3340 da Aeronáutica;  2214 da Marinha;  800 do Exército; 237 das polícias.

Violaram correspondências de toda ordem, sigilos bancários e grampos telefônicos, pregaram o ódio e a delação até entre familiares.

A nação foi estuprada, vilipendiada e colocada no pau de arara.

Os militares nacionalistas e democratas foram expurgados das Forças, por isso, muitos ficam incrédulos perguntando onde eles estão que não reagem ao bolsonarismo entreguista do patrimônio e da soberania nacional. Não existem mais! Foi um trabalho que a linha dura fez durante os 21 anos da cruel ditadura.

O Relatório da CNV revela verdades que chocam: 95 crianças/adolescentes presas, além dessas, 19 crianças foram sequestradas e adotadas ilegalmente por militares; fetos abortados, bebês e crianças usadas como torturas aos pais, adolescentes torturadas com cumplicidade de magistrados, sevicias sexuais perversas. Cabeças cortadas e penduradas, à semelhança dos cangaceiros, de guerrilheiros no Araguaia, corpos serrados, napalm jogado em área de camponeses e indígenas.

Onde enterraram os nossos mortos!?

As FAs estiveram 21 anos no comando da nação e com poderes ilimitados, pois era uma ditadura, e entregaram o país com inflação altíssima, 178%, desemprego elevado, o poder de compra do salário mínimo caíra 50%, a dívida externa nos valores atuais de 1,5 trilhão, e muito mal vista no exterior, por conta das graves violações aos direitos humanos – um rastro de barbárie e incompetência. A ditadura foi corrupta e promíscua com a contravenção e com o “esquadrão da morte”.

A título de combater a corrupção, o golpe produziu uma ditadura de falcatruas, as quais trouxeram prejuízos insonháveis e ainda incalculáveis ao Estado brasileiro.

Foi esse o quadro econômico final da ditadura, sem apoio popular interno, nem mesmo das forças políticas de direita, só contava com o desespero da extrema direita, militar e civil, e entre os seus adeptos lá estavam, à época, os tenentes Bolsonaro e Hamilton Mourão e o capitão Augusto Heleno, ajudante de ordens do linha dura Silvio Frota ministro do Exército.

Ao não extirpar por completo as raízes daquela ditadura, voltamos a um Estado de exceção com o golpe de 2016. A partir de 2019 o Brasil está sendo governado por militares e punitivistas: ex-capitão, ex-juiz até há alguns meses, ex-policiais, militares aposentados e muitos corruptos, de 22 ministros, 9 estão envolvidos com a justiça, segundo noticiado pela mídia.

Sem a justiça de transição não haverá a reconciliação da história e a impunidade continuará como marca desta “democracia”.

O atual governo bolsonarista, com aproximadamente três mil militares, é um governo militarizado e só assim se explica que o Ministério da Saúde, diante de uma pandemia jamais vista, está repleto de militares sem um titular e sem experiência de saúde pública.

É um ministério precário como a vida do povo é considerada precária e de pouco valor pelo Bolsonaro – Eu não sou coveiro, tá?… E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?

Renuncie já, poupe a nação antes de ser impichado!

Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, membro do grupo Resistência Carbonária, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; ex-coordenador nacional da RBMVJ; autor dos livros  Sequestro Moral e o PT  tenham com isso? e Combates pela Democracia (2012), autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017).

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