Diário da rotina contra a COVID, por Suzy Groeger Lapa

A rotina de uma profissional da saúde nestes tempos de pandemia, um dia de cada vez, um plantão de cada vez, sobreviver sempre.

Diário da rotina contra a COVID

por Suzy Groeger Lapa

Tudo arrumado, coloco plástico filme no celular, pego a chave do carro. Saio de casa, rego a horta no caminho da saída, me despeço dos cachorros com um carinho e vou em direção ao carro. Entro no carro, tiro os chinelos e já com as meias calço o tênis. Ele foi escolhido não por acaso para ser o meu único sapato durante a pandemia.

Sim, eu só uso o mesmo sapato para ir trabalhar. Também são só 2 calças jeans e 4 blusinhas que se revezam. O sapato é fechado porque já pensando no inverno que se aproxima teria que ser algo que pudesse usar com meias. É Rio de janeiro e desatento você poderia pensar que isso não é algo com que deveria me preocupar, mas moro na serra a 70km de distância do trabalho e por isso saio muito cedo e chego a pegar 9 graus de manhã.

Voltando ao assunto, são 5 da manhã eu engato a chave na ignição, ligo o rádio e dirijo por pelo menos uma hora. Enquanto estou na serra, ouço música pelo celular porque o sinal do rádio é ruim. Acabando a serra coloco numa rádio para ouvir as últimas notícias. Estas, sempre trágicas, se dividem entre coronavírus e as asneiras do presidente da república e seus comparsas. É muito cedo, mas já acordo com fome e tenho costume de sempre levar um suco e um biscoito pra ir comendo pelo caminho, mas agora é diferente. Abro o pacote de biscoito, e quando vou pegar o primeiro imediatamente penso que tudo que toquei no carro pode estar contaminado da última vez que voltei do plantão.

Estou com fome, ainda tenho 40 minutos de estrada, devo resistir e não comer? Lembro que tenho lenço de papel no carro e uso ele para segurar o biscoito. Nunca em toda minha vida pensei em comer um biscoito com um papel, como se come uma pizza! Pronto, estou quase chegando e lembro de já colocar a minha máscara de tecido que deixei estrategicamente no banco do carona porque ao chegar no estacionamento do hospital serei abordada por um segurança que faz a leitura do código de barras da minha identificação.

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Nessa hora, educadamente ele me dá um bom dia. Ele usa máscara e mesmo assim eu fico pensando que preferia que ele não falasse nada. Estaciono o carro, pego a minha mochila (também a única bolsa que uso para sair de casa), tranco o carro e guardo a chave. Pego o frasco de álcool gel que levo na bolsa e passo nas mãos. Aperto o botão do elevador com o cotovelo. Pego o pijama do hospital na rouparia. Subo até o oitavo andar torcendo para que não entrem muitas pessoas. O elevador é grande e agora o piso está demarcado para que as pessoas fiquem afastadas. Podem entrar somente 4 pessoas. O andar destinado aos pacientes de covid19 agora tem uma fita vermelha em cima e não pode ser acionado por aquele elevador.

No início levo um susto, mas logo entendo que é pra diminuir o fluxo de pessoas por lá. Entro no meu setor e vou direto lavar a mão. Tiro a máscara de tecido e já coloco a minha máscara N95 que é o tipo que tem a proteção máxima. Em teoria não precisaria usá-la. Mas recebi no outro hospital, tem validade de 30 dias e me sinto mais segura assim. Visto antes de encontrar qualquer colega porque carrego comigo a ideia de que o risco de pegar a doença é muito maior entre colegas, porque com pacientes todos têm o maior cuidado sempre. Entro no quarto, pego o pijama pra trocar. Antes retiro a máscara para não contaminar o pijama. Coloco a touca, recoloco a N95 e por cima, coloco mais uma máscara cirúrgica. Troco o sapato. Inicio o plantão e lá se vão 24 horas.

Já é dia seguinte, o rosto marcado, mente e corpo exaustos. Se sair de casa é diferente nos tempos atuais, voltar pra casa é desesperador, porque posso estar saindo do hospital trazendo o vírus comigo. Entro no carro, coloco o cinto, ligo a ignição, retiro a máscara e passo álcool gel nas mãos. De novo estou com fome. São 7:30 e ainda demoro quase 1 hora e meia para chegar em casa. Como alguma coisa no caminho ou não? Deixo o biscoito ali preparado. Tento resistir, mas o sono na serra sempre foi aliviado mastigando alguma coisa. Chego em casa e os cachorros já se aproximam do carro fazendo festa por fora do vidro. Desligo o carro, tiro o sapato e coloco o chinelo.

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Bolsa e todo o resto ficam lá intactos até pelo menos o dia seguinte. Saio do carro e tentando manter distância dos cachorros que fazem festa corro pra um quartinho que tem do lado de fora da casa e que deixei arrumado pra quando chegasse dos plantões. Lá já tem uma muda de roupa que deixei no dia anterior ao plantão. Tiro o plástico filme do celular e sem tocar nele deixo cair na cama. Álcool gel e papel toalha já separados. Limpo o celular com o álcool. Limpo a chave do carro também. Tiro a roupa e coloco num saco plástico, planejando deixar pelo menos por dois dias lá. Imagino que depois qualquer risco de contaminação não existirá mais.

Entro no banho, começo lavando os óculos, depois o prendedor de cabelo. Lavo as mãos. Lavo o rosto. Lavo os cabelos colocando a cabeça pra trás para que a água contaminada dos cabelos não caia no meu rosto. Passei a fazer isso há pouco tempo quando recebi um post de uma amiga especializada em cuidados de saúde explicando as etapas do banho. Parece loucura. Escovo os dentes. Coloca a roupa limpa e vou pra casa. Agora sim posso cumprimentar meus cachorros. Antes de entrar passo pela horta para ver se a abóbora já está nascendo. A pequena poesia da terra e a vida que sempre brota. Entro em casa, como alguma coisa e durmo. Este é um dia perdido.

Este é um dia vencido. O cansaço físico é amenizado com algumas horas de sono, mas o cansaço emocional perdura e sei que estará lá quando acordar. Um dia de cada vez. Fiquemos concentrados, fiquemos juntos mesmo que separados, aguardando todos os abraços que virão. Passará. Cansados, mas inteiros. Seguimos.

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