Donald Bolsonaro, o comando “substituir palavra” do Word e a estrutura do discurso do medo, por Letícia Sallorenzo

O discurso do republicano é tão simples que um mero comando do Word desnuda sua estratégia

Donald Bolsonaro, o comando “substituir palavra” do Word e a estrutura do discurso do medo

por Letícia Sallorenzo

Fiz um teste aparentemente bobo. Peguei no site do New York Times a transcrição do discurso que Donald Trump proferiu semana passada durante a convenção republicana, ao ser confirmado como candidato do partido à reeleição, joguei o texto no Google tradutor, copiei e colei no Word. A seguir, efetuei as seguintes substituições de palavras:

Donald – Jair

Trump – Bolsonaro

Joe Biden / Biden – Fernando Haddad / Haddad

Partido Democrata – PT

Democratas – Petistas

China – Venezuela

América – Brasil

Americanos – brasileiros

Eu deixei o texto bem bagunçado, pra ficar claro que se trata de um Frankenstein. Então, o texto menciona o “povo da Brasil”, assim, com erro de concordância. Também não tive a menor preocupação em revisar a tradução (não fez diferença). Mas o resultado foi bem interessante. Observe alguns trechos desse Frankenstein:

Esta eleição decidirá se vamos defender o estilo de vida brasileiro ou permitir que um movimento radical o desmonte e destrua completamente. Isso não vai acontecer. Na Convenção Nacional Petista, Fernando Haddad e seu partido atacaram repetidamente a Brasil como uma terra de injustiça racial, econômica e social, então esta noite, eu faço uma pergunta simples: como o PT pode pedir para liderar nosso país quando gastou tanto hora de destruir nosso país?

(…)

Do ponto de vista da esquerda, eles não veem a Brasil como a nação mais livre, justa e excepcional da Terra. Em vez disso, eles veem uma nação ímpia que deve ser punida por seus pecados. Nossos oponentes dizem que a redenção para você só pode vir de dar poder a eles.

(…)

Fernando Haddad não é um salvador da alma da Brasil. Ele é o destruidor dos empregos da Brasil e, se tiver oportunidade, será o destruidor da grandeza da Brasil. Por 47 anos, Fernando Haddad recebeu as doações de operários, deu-lhes abraços e até beijos e disse-lhes que sentia sua dor, e então voou de volta para Washington e votou para enviar nossos empregos para a Venezuela e muitos outros lugares distantes terras.

Fernando Haddad passou toda a sua carreira terceirizando seus sonhos e os sonhos dos trabalhadores brasileiros, deslocando seus empregos, abrindo suas fronteiras e enviando seus filhos e filhas para lutar em guerras internacionais sem fim, guerras que nunca terminaram.

(…)

Eles estão com raiva de mim porque, em vez de colocá-los em primeiro lugar, eu simplesmente disse: “Brasil em primeiro lugar”.

Fato é que o Frankenstein daí mostra que a estrutura discursiva de Trump e de Bolsonaro é a mesmíssima – até o slogan. O texto acima poderia, sem problema nenhum, ter sido proferido por Jair Bolsonaro em 2018 contra Fernando Haddad.

Nessa estrutura discursiva, não há (nem precisa haver) muita diferença entre a “terrível ameaça” do “incompetente” Joe Biden aliado dos “chineses” em 2020 e a “terrível ameaça” do “incompetente” Fernando Haddad aliado dos “venezuelanos” em 2018.

Esse Frankenstein discursivo ajuda a evidenciar a, com o perdão da expressão, estrutura argumentativa da extrema direita. Esse discurso (e aqui não me refiro especificamente ao discurso de Trump da semana passada, mas ao macrodiscurso da direita) não se pretende uma argumentação para um confronto de ideias, tampouco está aberto ao diálogo. Ele dissemina a certeza do medo. E depende sempre da existência do outro para fazer sentido. Sem Biden ou os democratas, Trump perde a razão de ser ou de agir – assim como, em 2018, sem o antipetismo, Bolsonaro não existiria.

O discurso de Donald Trump na semana passada não foi um discurso pró-Trump, mas um discurso anti-Biden. Assim como, em 2016, o discurso de Trump foi anti-Hillary (e, em 2018, o de Bolsonaro foi anti-PT).

E mesmo depois de demonstrado que esse discurso é vergonhosamente simplório, milhões de americanos vão comprá-lo em novembro. E, se a gente não reagir e pensar em como reunir os cacos e tudo o que sobrou da esquerda bem rapidinho, outros milhões de brasileiros vão comprar esse discursinho chinfrim. De novo.

Observe a data de publicação deste texto, querida esquerda brasileira. Por favor, não me obrigue a desfraldar a bandeira da motoneta de Carangos e Motocas em 2022.

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