21 de maio de 2026

Dos bares fechados à ascensão da direita, por Luis Felipe Miguel

Estudo na França mostra como fechamento de espaços de sociabilidade popular se correlaciona a crescimento eleitoral da extrema-direita.
Auguste Renoir

Pesquisa do Le Monde mostra que o fechamento de 18 mil bar-tabacs na França entre 2002-2022 correlaciona-se com a ascensão da extrema-direita.
O encontro social nos bar-tabacs é fundamental para a formação da consciência política coletiva, não o consumo de álcool ou tabaco.
Isolamento social, reforçado por teletrabalho e educação à distância, é visto como instrumento de poder que enfraquece a democracia.

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Dos bares fechados à ascensão da direita

por Luis Felipe Miguel

Uma reportagem do Le Monde falou da pesquisa que mostra uma correlação entre o fechamento de bar-tabacs (estabelecimentos que servem refeições leves e bebidas e vendem cigarros) e a votação da extrema-direita na França. Dezoito mil deles foram fechados entre 2002 e 2022. Entre 1960 e 2023, a França perdeu nada menos que 80% dos seus cafés e bistrôs.

Segundo o responsável pela pesquisa, Hugo Subtil, da Universidade de Zurique, a correlação entre o fim dos bar-tabacs e o crescimento da extrema-direita se revela a médio e longo prazos (ao contrário do que ocorre quando fecha uma fábrica, por exemplo).

A piada óbvia que surge, diante da pesquisa, é exaltar os benefícios do consumo de álcool para a consciência política. Mas não é verdade. Tem muito bebum de direita. E o alcoolismo é um problema grave o suficiente para que a gente evite leviandades ao tratar da questão.

O ponto não é a bebida, muito menos o tabaco (ou a loteria, já que os bar-tabacs também vendem os bilhetes da Française des Jeux, a loteria nacional francesa). É o encontro.

A formação de uma consciência política coletiva depende da possibilidade de troca entre as pessoas. E isto exige o encontro.

Um bar-tabac chique no Marais.

A lógica das redes, ao contrário, incentiva o isolamento. Cada um de nós se sente expressando uma voz singular, única; no conjunto, forma-se apenas uma manada. Há muita fala, mas é cacofonia; a troca é reduzida, quase inexistente.

Há mais de um quarto de século, Robert Putnam celebrizou a tese de que a democracia estava sendo debilitada pelo declínio da vida comunitária, em seu famoso livro Bowling alone. A culpada, na época, era a televisão, que insulava as pessoas em formas de lazer individual e minava a vida comunitária – algo não inteiramente convincente, já que assistir tevê é uma ocupação que permite mais interação comunitária do que a leitura, esta sim absolutamente imersiva, mas que é exaltada pelo autor.

Para Putnam, a questão era a erosão do “capital social”, que, na sua versão, se refere às redes de relações sociais que proporcionam a colaboração entre grupos e indivíduos, tendo por base um patamar mínimo de confiança mútua. É uma leitura da sociedade e da política que passa ao largo da questão da dominação; lamenta a erosão dos laços de comunidade e a debilitação da democracia como se, nessa história, não houvesse vencedores nem vencidos.

Acho mais útil ficar com Hannah Arendt, que entende o isolamento dos governados como um instrumento de poder dos dominadores. Um isolamento que agravamos com tantas “comodidades” dos nossos tempos: o teletrabalho, a reunião online em vez de presencial, a “educação à distância”, o streaming, a comida pedida em casa e entregue por um trabalhador superexplorado.

As justificativas são muitas (e plausíveis): a necessidade de cuidar das crianças (em um momento de precarização dos equipamentos públicos de cuidado), os problemas do transporte coletivo, o trânsito, os custos em dinheiro de sair de casa – às vezes, fazer uma graduação EAD numa faculdade privada dessas de fundo de quintal sai mais barato do que pagar o ônibus para estudar numa universidade pública.

E a segurança, claro. Também por isso a segurança pública deveria ser uma prioridade para a esquerda. Precisamos de ruas seguras para que as pessoas possam transitar, se encontrar, construir os laços de solidariedade e a ação coletiva.

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular). Coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

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