Economia Brasileira em Sete Pecados Capitais: Preguiça, por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Não pretendo ser acusado de fazer tautologia de qualquer tipo porque foi uma convergência de fatos que levaram nossa classe empresarial a uma preguiça quase letárgica

Economia Brasileira em Sete Pecados Capitais: Preguiça

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Tautologia tem muitas definições, em linguística, é sinônimo de pleonasmo; em filosofia, é o argumento que leva de volta a si mesmo, fechando um ciclo que não explica nada; em História, é a crença de que as coisas fatalmente seriam como foram ou como são, enquanto os economistas teimam em profetizar o passado. Não pretendo ser acusado de fazer tautologia de qualquer tipo porque foi uma convergência de fatos que levaram nossa classe empresarial a uma preguiça quase letárgica, de que depende o exacerbado conservadorismo que a caracteriza.

Em 1976, necessitando áreas para cana, as usinas, atendendo o Proálcool, mais que eliminar trabalhadores, afastaram fazendeiros, via arrendamento. No mesmo ano, a lei 6404 reformulou as S. A. e expulsou os capitalistas brasileiros da participação em multinacionais, que se tornaram sociedades limitadas. Durante os anos 80, toda a indústria automobilística deixou de ser S. A., num movimento que nunca mais parou, a ponto de as empresas nacionais, ao internacionalizarem-se , tomarem o mesmo caminho. Enquanto isso, os capitães de indústria, que mudaram a face da nação nos anos 60 e 70, começaram a aposentar-se e seus filhos nãos necessariamente herdaram o espírito empreendedor, hora levando a empresa à falência, hora repassando-as a investidores externos, arrendando-lhes os galpões.

Collor roeu a corda da guilhotina. Abriu o mercado sem preparo algum. Antes, seria preciso eliminar a CEI (Comissão Especial de Informática), criada pela lei 7232/1984 que impedia a modernização tecnológica e fomentava o contrabando. Vínhamos de três reformas monetárias consecutivas. Com tecnologia anacrônica e sem contar com a moeda como reserva de valor, nossa indústria estava frágil demais para que nosso mercado, mais que aberto, fosse arrombado. Fabricantes viraram importadores, mais que isso, locadores de imóveis, aniquilando-se a vontade de investir, de assumir riscos.

Quando a estabilidade monetária chegou, os empresários remanescentes simplesmente pararam de calcular custos e a importação passou a ser a regra, enquanto a fabricação tornou-se a exceção. Foi então que quem tinha virado a própria mesa, bem como o presidente da Fiesp tornaram-se sócios de algumas das maiores imobiliárias do mundo. Estas últimas apoiaram-se nos fundos imobiliários que aglutinam imóveis de antigos investidores produtivos, criando um contingente de ex-epreendedores que passaram a viver de juros.

Ser arrendatário aumenta a taxa interna de retorno porque a saída inicial de caixa é toda destinada à produção, não imobilizando qualquer valor. Isso se aplica ao meio rural e ao urbano de mesma forma. No agronegócio, empresas como a SLC, Maggi, Grupo Vanguarda, entre outros arrendam centenas de milhares de hectares, promovendo uma inversão na hierarquia fundiária. No meio urbano, não é diferente. São arrendatários detentores de muito mais capital do que os proprietários, é o tubarão arrendando da sardinha que, quando em cardume, constituem um fundo. Criou-se um grupo que, se não ocioso, já não é produtivo.

Propagar justificativas para o ócio de nossos empresários tem sido o grande papel da mídia, quando divulga que a falta de investimentos produtivos se deve ao excesso de impostos, à burocracia e outras mazelas, provavelmente, imaginárias. O fato é que, para nossos nobres, cujos ancestrais pretenderam ser capitalistas, avida assim está boa, não há por que mudar e, como diria a cantoria popular, “e deu saudade”.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

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1 comentário

  1. Luiz acompanhava sua coluna no Best Cars Web site e continuarei acompanhando aqui o que você publica no GGN. Sempre escrevendo de maneira que as pessoas claramente entendam as forças existentes no campo econômico nacional e mundial. Vejo você, assim fazendo na prática, o que Pierre Bourdieu pede aos acadêmicos :

    “Corro o risco de chocar aqueles que, tendo
    optado pelo virtuosismo acolhedor do confi-
    namento em suas torres de marfim, vêem as
    intervenções fora da esfera acadêmica como
    perigosas rupturas com o famoso axioma
    da neutralidade, erroneamente identificado
    com objetividade científica. […] Estou con-
    vencido de que é preciso trazer as conquistas
    da ciência e do saber para o debate público,
    do qual têm estado tragicamente ausentes.”

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