Educação, ciência e desenvolvimento tecnológico para romper o círculo vicioso da pobreza, por Oscar Hipólito

A experiência mundial tem mostrado que o investimento continuado em educação, ciência e tecnologia tem alavancado o crescimento e desenvolvimento econômico e social, gerando empregos e riqueza para a população.

Arte de Cícero Dias

Educação, ciência e desenvolvimento tecnológico para romper o círculo vicioso da pobreza

por Oscar Hipólito

Uma extensa reportagem sobre consumo intitulada “Só falta a grana”, assinada por Amália Safatle e Paula Pacheco, publicada em 3 de abril de 2002 pela Carta Capital mostrou à época a dificuldade que o brasileiro tinha em consumir e que a maioria da população evitava produtos que não fossem realmente essenciais. De lá para cá, passados 17 anos, apesar de alguns avanços, aquela situação parece persistir e ser muito atual.

No fechamento daquela matéria um box com uma entrevista que concedi ao jornalista Flávio Lobo dava uma indicação de como o desenvolvimento científico e tecnológico poderia impulsionar o crescimento e consequentemente reduzir o nível de pobreza da população, incrementando assim o consumo.

A questão central colocada e que ainda hoje continua pertinente foi a seguinte: por que as empresas brasileiras investem pouco em pesquisa? A resposta apresentada de forma simples e didática foi baseada no círculo vicioso da pobreza, que pouco ou quase nada se alterou nos dias de hoje.

Refraseando a entrevista o foco do problema está no fato de sermos um País onde o povo é pobre e, portanto, sem poder de consumo. Por outro lado, as empresas não investem ou pouco investem em pesquisa em ciência e tecnologia porque não tem necessidade disso para manter suas posições nesse mercado. Somente um mercado mais competitivo, com consumidores de maior poder aquisitivo, com maior nível de educação e, portanto, mais exigentes, obrigariam as empresas a fazer os investimentos de risco que o desenvolvimento científico e tecnológico exige. Dessa forma, por causa da pobreza da população, o País não cria tecnologias novas. E, não se desenvolvendo tecnologicamente continuará sendo um País pobre.

A única forma de sair desse círculo vicioso, é investir maciçamente em educação, como já fizeram no passado inúmeros outros países, como Coréia do Sul, Irlanda, entre outros. Nesse movimento, a educação tem papel central, por seu impacto na produtividade. No Brasil, além da falta de recursos, as pessoas não acompanham o avanço da tecnologia que chega cada vez mais rápido ao mercado: fibras ópticas, códigos de barra, realidade virtual, inteligência artificial, automação, games, robótica, internet das coisas, etc. Então para que se esforçar em investimentos para criar produtos tecnologicamente sofisticados, se a maioria das pessoas além de não ter dinheiro para adquirir, tão pouco saberá usar? É absolutamente claro que se não tivermos cidadãos minimamente educados, dificilmente teremos um mercado forte, produtivo e competitivo. E só um povo que recebe boa formação desde a escola fundamental é capaz de gerar o desenvolvimento científico e tecnológico de que o País precisa para resolver seus problemas econômicos e sociais.

Claro que políticas governamentais que injetem mais recursos na pesquisa ou que incentivem as empresas a investir poderiam ajudar a resolver esse problema. Mas, sozinhas, essas políticas não passariam de paliativos temporários, como vimos acontecer ao longo dos anos.  Há, na realidade, um problema educacional muito mais sério e que requer não apenas recursos, mas, e principalmente, um planejamento estratégico global, com definições de objetivos e metas aliados às competências já existentes ou a serem adquiridas. No Brasil, bons programas não têm tido resultados satisfatórios por falta de continuidade nos investimentos. Veja, por exemplo, o programa de semicondutores, fundamental para o desenvolvimento tecnológico de qualquer país. Proposto na década de 80, apresentou poucos resultados concretos.

A experiência mundial tem mostrado que o investimento continuado em educação, ciência e tecnologia tem alavancado o crescimento e desenvolvimento econômico e social, gerando empregos e riqueza para a população. É também sabido que cabe ao governo romper esse círculo vicioso da pobreza com planejamento estratégico, estabelecimento de focos (por exemplo, agronegócio, energia e os temas da tecnologia de informação: inteligência artificial, data Science, desenvolvimento de softwares, etc.)  e investimentos continuados. Como as empresas pouco ou nada investem em pesquisa e desenvolvimento tecnológico, tem cabido quase que exclusivamente às universidades especialmente às universidades públicas essa tarefa. Dessa forma, seria oportuno identificar com bastante rigor quais dentre essas universidades se caracterizam como instituições de pesquisa e nelas investir para melhorar o desempenho e a produtividade. Certamente o modelo vigente de governança precise ser alterado para dar a agilidade que a pesquisa científica e o desenvolvimento tecnológico necessitam.

O momento atual de um governo que ainda se inicia é bastante oportuno para tais mudanças e ajustes, para que não tenhamos que esperar mais 17 anos para chegarmos à mesma conclusão que sem educação, ciência e desenvolvimento tecnológico não conseguiremos romper o círculo vicioso da pobreza em nosso País. Além do mais, a geração de conhecimento exige cidadãos bem formados desde a base.

Oscar Hipólito, professor titular da USP, ex-reitor da Universidade Anhembi Morumbi, foi Vice-presidente acadêmico da Laureate Education, Brasil

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