Educação para a barbárie: a transformação dos indivíduos em mercadoria, por Michel Aires de Souza Dias

Historicamente, a educação sempre foi entendida como instrumento de humanização. Contudo, em nossa época, ela tornou-se um instrumento de reificação. 

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Educação para a barbárie: a transformação dos indivíduos em mercadoria

por Michel Aires de Souza Dias

A educação em nossa atualidade perdeu sua função de produzir indivíduos autônomos, críticos e conscientes, que pudessem refletir sobre as questões urgentes de nossa época. A escola hoje procura acomodar os indivíduos ao mundo existente e não produz mais subjetividades autônomas. Na sociedade globalizada, a educação se tornou um instrumento para produzir mercadorias. Com o advento do neoliberalismo, as novas exigências no mundo do trabalho demandam um trabalhador que invista nele mesmo, que seja polivalente, multifuncional, competente e flexível. Desse ponto de vista, o indivíduo surge para a educação como um ser genérico, anônimo, que só pode ser construído como mercadoria.

Com o fim do Estado de Bem-Estar Social (Walfare State), grosso modo, diminui-se o papel do Estado na economia e reduziram-se os investimentos e alcance das políticas públicas. A partir daí, o trabalhador foi abandonado ao mercado e viu-se inserido em um novo mundo globalizado. Nessas condições, ele teve que encarar sozinho o desemprego, o subemprego, a exigência de muitas qualificações e a grande concorrência do mercado de trabalho. Ele passou a depender de si mesmo para se qualificar, adquirir novas competências e conhecer as novas tecnologias da informação.  Hoje, tornou-se difícil manter-se empregado num ambiente em permanente transformação.  No mundo globalizado, os indivíduos foram abandonados à sua própria sorte.

Historicamente, a educação sempre foi entendida como instrumento de humanização. Contudo, em nossa época, ela tornou-se um instrumento de reificação.  Os conhecimentos e os bens culturais transformaram-se em mercadorias do desejo, transcendem o mundo da educação, ganhando significados de tal forma que não consumimos mais saber, mas consumimos signos de prestígio.  A cultura produzida e disseminada pela educação é uma mercadoria que agrega valor à subjetividade.  A formação educacional torna-se atraente na medida em que cria símbolos de poder, status e pertencimento. Os indivíduos buscam conhecimentos para serem desejados, vendem sua imagem e procuram se tornar atrativos como mercadorias.

Na sociedade do consumo, os conhecimentos aprendidos nos estabelecimentos de ensino tornaram-se bens simbólicos. Buscar novas qualidades e competências, agregar valor à profissão, falar inglês, fazer vários cursos, adquirir novos títulos, conhecer arte e filosofia são o apanágio de um mundo que mercantilizou a subjetividade. Nesta sociedade, os trabalhadores devem obter cursos ou serviços para que se tornem cada vez melhores como mercadorias. Eles devem se equipar com um ou outro produto fornecido pelo mercado se quiserem ter a capacidade de alcançar e manter seu trabalho ou posição social.  Zygmunt Bauman (2008, p. 76) em seu livro, “Vida para o Consumo: a transformação das pessoas em mercadoria”, avaliou que em nossa época o ser humano rejeita sua própria incompletude e procura superar essa solidão de ser invisível num mar de mercadorias. Os membros da sociedade de consumo são eles próprios mercadorias de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que os torna membros autênticos dessa sociedade.

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Para Bauman (2008, p. 20), “na sociedade do consumo, ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria, e ninguém pode manter segura sua subjetividade sem reanimar, ressuscitar e recarregar de maneira perpétua as capacidades esperadas e exigidas de uma mercadoria vendável.”   Cada um deve buscar no mercado os produtos que melhor se adaptam à sua personalidade.   A ditadura da beleza; o culto ao corpo, belo e saudável; as plásticas; a moda; as propagandas que incentivam a autossuperação; o esforço; o autossacrificio são signos que refletem as novas condições materiais de existência do mundo globalizado. O indivíduo deve se adaptar a essa nova realidade onde tudo é moda e é consumido como moda, inclusive os indivíduos. Lipovetsky (2009), denominou-o de mundo do efêmero, o reino da frivolidade, das novidades e da fantasia.

Com o advento das políticas neoliberais, vivemos no mundo do “curto-prazo”, não há mais “longo-prazo”.  Hoje se muda de emprego como se muda de roupa. O mundo globalizado causou a desregulamentação do trabalho, aumentando o desemprego e criando novas modalidades de trabalho: trabalho informal, trabalho temporário, jornada parcial, terceirização, subcontratação, home-office, etc. Segundo Sennet (2009), o capitalismo afetaria o caráter pessoal dos indivíduos, uma vez que não oferece condições para a construção de uma narrativa linear da vida, sustentada na experiência. Para o trabalhador, as relações de trabalho e os laços de afinidade não se processariam em longo prazo, mas a curto prazo. Por estas razões, as relações humanas se tornaram mais efêmeras e liquidas, para usar uma expressão de Bauman.

Na sociedade do consumo, os homens se tornaram seres genéricos, anônimos e só podem se constituir como sujeitos na medida em que se tornem mercadorias.  O que se tornou relevante em nossa época é a luta simbólica por reconhecimento social. Hoje, o status social está mais ligado à ocupação, depende do esforço de cada um.  Os indivíduos devem adquirir conhecimentos, saberes, competências, habilidades e um conjunto de referenciais culturais, teóricos e linguísticos para fins de diferenciação simbólica, tornando-se sujeitos reconhecidos pelo mercado.  Vivemos numa sociedade que valoriza o desempenho, o esforço pessoal e o sacrifício. A luta simbólica por reconhecimento social tornou-se característica de um mundo que mercantilizou o indivíduo.

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O que as instituições de ensino valorizam e tornam sua ideologia é a competição, o mérito e o esforço individual.  O que experimentamos hoje é a comoditização dos indivíduos. Cada um deve procurar ser melhor como pode.  Cada um deve buscar na educação as competências e qualificações necessárias para se inserir no mercado de trabalho. As diferenças entre as pessoas são determinadas pela posição que ocupam na estrutura social.  Algumas funções conferem prestígio, dinheiro, fama, glória e poder. Isso significa que cada um deve adquirir, por meio da educação, as competências, comportamentos, recursos e valores que são necessários a determinada posição social. Os indivíduos se esforçam para serem competentes e somente a educação pode fornecer os recursos necessários para isso.

A educação em nossa época abandonou o antigo “projeto da modernidade”, identificada pelo filósofo Jurgen Haberman (2000), como um conjunto de tendências defendidas pelos pensadores iluministas, que pregavam a crença no desenvolvimento da ciência, a moralidade na condução da vida, o universalismo da razão, a busca de novas formas de organização social e a autonomia da arte. O objetivo era usar o progresso e o acúmulo de conhecimentos da humanidade de forma livre, criativa e autônoma para a emancipação e para enriquecimento dos seres humanos.

Ao contrário disso, o que experimentamos hoje é uma educação para a barbárie. Com o progresso do pensamento e da racionalidade, o homem em vez de desenvolver uma maior consciência e esclarecimento sobre a vida, regrediu a um estado evolutivo anterior da espécie humana. A educação para a competição, para o mérito, para o individualismo, que valoriza a luta, o desempenho e o esforço pessoal, perpetua a lei do mais forte e cria as condições para a frieza e a barbárie tão comuns na história da humanidade. Como avalia a professora Olgária Matos ( 2001), o vazio deixado pela falência da educação humanista a que buscava formar a excelência dos talentos e habilidade, vem a ser preenchido pelos valores da mídia e do mercado. A educação de massa não visa a formar o espírito, ao contrário, adapta o indivíduo aos valores empresariais do lucro, da competição e do sucesso. A competição talvez possa melhorar as mercadorias, mas necessariamente piora os homens.

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Referências

BAUMAN, Zygmunt, Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de janeiro: Zahar, 2008.

HABERMAS, Jürgen. O discurso filosófico da modernidade. Tradução: Luiz Sérgio Rodnet Nascimento. SP: Martins Fontes. 2000.

LIPOVETSKY, Guilles. O Império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

MATOS, Olgária Chain Feres. Theodor Adorno, o filósofo do presente. Psicologia & Sociedade, v.13, nº.2, p.142-146, Jul/Dez. 2001.

SENNET, Richard. A corrosão do caráter: as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Michel Aires de Souza Dias – Doutorando em educação pela Universidade de São Paulo. E-mail: [email protected]

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2 comentários

  1. Excelente reflexão! Como professora fica a questão como reverter esta situação? Qual a possibilidade de uma educação emancipadora, de fato, nesta realidade capitalista e quase fascista em que vivemos?

  2. A educação não é um fenômeno isolado. Numa sociedade estruturada por relações de classe, ela é parte integrante das relações sociais, econômicas, políticas e culturais. Em consequência disso, a classe social dominante monopoliza a produção material, mas também a produção espiritual a serviço de seus interesses. A escola, portanto, surge como instrumento de dominação simbólica para os interesses da classe dominante. Numa sociedade onde as relações humanas são reificadas, onde a própria organização do mundo se tornou ideológica, onde as condições de exploração foram naturalizadas, e os indivíduos estão confortavelmente adaptados, dificilmente a educação pode, por si só, modificar a realidade. O que cabe ao materialismo revolucionário e tornar a educação um instrumento de conscientização dessas condições, mas uma mudança significativa só seria possível se essa conscientização atingisse todas as esferas da vida social. Seria necessário uma formação cultural plena dos indivíduos.

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