21 de maio de 2026

Empreendedorismo de doutores: solução ou reflexo da crise na ciência brasileira?, por Daniel Gama e Colombo

A atuação empresarial de doutores pode constituir mais um sintoma da chamada ‘pejotização’ do trabalho no país.
Dr. Gachet - Van Gogh

1. Doutores brasileiros encontram no empreendedorismo uma saída para o desequilíbrio no mercado de trabalho acadêmico, com 15% atuando como sócios ou gestores de empresas.

2. Áreas profissionais como Direito e Medicina lideram empreendedorismo entre novos doutores no Brasil, refletindo alta concorrência no mercado de trabalho.

3. A pejotização, prática de contratação por meio de empresas, pode impulsionar o empreendedorismo de doutores no país, mas desafios como a valorização simbólica do título e a precarização do trabalho persistem.

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Empreendedorismo de doutores: solução ou reflexo da crise na ciência brasileira?

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por Daniel Gama e Colombo

A expansão dos programas de doutorado nas últimas décadas, aliada às limitações de vagas disponíveis para professores e pesquisadores, resultou em um desequilíbrio no mercado de trabalho desses profissionais, marcado por uma concorrência acirrada e um elevado número de doutores sem emprego compatível com sua formação. Nesse cenário, o empreendedorismo se apresenta como uma alternativa para que esses indivíduos aproveitem e apliquem o conhecimento e as habilidades adquiridos durante sua formação. Por outro lado, a atuação empresarial de doutores pode constituir mais um sintoma da chamada ‘pejotização’ do trabalho no país. Uma pesquisa recente desenvolvida no Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) apresenta dados que permitem discutir essas questões, trazendo informações inéditas sobre o papel e a participação de doutores em pessoas jurídicas (PJs).

O estudo desenvolvido traçou o cenário do empreendedorismo de doutores recém-titulados no país a partir dos dados divulgados pela Receita Federal. Para essa análise, foram considerados os doutores titulados em universidades brasileiras no biênio 2021-2022, identificando aqueles que participavam de PJs como sócios ou administradores em meados de 2024. Adotou-se um conceito amplo de empreendedorismo, definido como a participação desses doutores em PJs como proprietários ou administradores, independentemente da motivação ou do momento de abertura do negócio.

Os resultados sugerem que aproximadamente 6,7 mil indivíduos, ou 15% dos novos doutores titulados em instituições nacionais no biênio, estavam envolvidos em atividades de empreendedorismo (ver gráfico). Esses profissionais atuavam em aproximadamente 9,6 mil organizações, sendo que três quartos deles se dedicavam a apenas uma PJ, e 90% atuavam em no máximo duas. Além disso, a maior parte deles (cerca de 60%) já trabalhava em suas empresas ou organizações antes da conclusão do doutorado, o que indica uma continuidade de sua trajetória anterior.

Percentual e número de novos doutores titulados em cada área de conhecimento que atuavam como sócios ou administradores de PJs.

Fonte: Colombo (2025). <https://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/17160/1/Radar_78_A1.pdf>.

Considerando os números por área de conhecimento, os maiores índices estão entre as chamadas ‘áreas profissionais’, especialmente no Direito e Medicina, em que cerca de 40% dos titulados atuavam como sócios ou administradores de organizações. Analisando as atividades econômicas das empresas em que atuavam esses doutores, cerca de 30% dedicavam-se à área da saúde, e 6% a atividades jurídicas, de contabilidade e de auditoria. Esses dados sugerem que o empreendedorismo nessas áreas pode estar ao menos parcialmente relacionado à alta concorrência e competitividade no mercado de trabalho desses profissionais. Nesse contexto de “inflação de credenciais”, a titulação de doutorado serve como elemento de diferenciação ou destaque, independentemente da motivação ou interesse em exercer atividades acadêmicas ou científicas.

Outra possível explicação para os doutores donos de PJs no país é a contratação de mão de obra por meio de empresas prestadoras de serviços, a chamada “pejotização”, que tem por objetivo simular a ausência de vínculo empregatício, evitando o cumprimento de obrigações trabalhistas e reduzindo a carga tributária incidente sobre a contratação. Esse pode ser o motivo por trás do elevado número de organizações dedicadas à área de educação (cerca de mil, ou 10% do total). Esse arranjo, no entanto, não se limita às atividades educacionais, sendo encontrado em diferentes setores da economia. Uma estimativa da Receita Federal aponta que a contratação de serviços intelectuais por meio de PJs pode levar a uma redução da incidência da carga tributária de até 6,3 pontos percentuais – de 23,6% na contratação como empregado para 17,3% no caso da empresa “pejotizada”.

O empreendedorismo de acadêmicos – sejam professores ou estudantes – é um dos canais pelos quais a universidade pode contribuir para o desenvolvimento social, econômico e cultural, cumprindo a sua chamada ‘terceira missão’, ao lado do ensino e da pesquisa. Empresas e start-ups fundadas por indivíduos com formação avançada encontram-se em posição privilegiada para aproveitar novos conhecimentos e tecnologias, aplicando-as em soluções voltadas ao mercado, gerando inovação e aumentando a produtividade.

Entretanto, esse tipo de empreendedorismo ainda enfrenta desafios, mesmo em economias mais desenvolvidas. Os dados existentes são escassos e não permitem uma comparação direta entre países, mas sugerem que a atuação desses profissionais como empreendedores ainda é limitada e incipiente. Nos Estados Unidos, um estudo apontou que apenas 9% dos indivíduos com titulação de doutorado em ciências, engenharia ou saúde trabalhavam ‘por conta própria’ (self-employed) em 2021. Já no Reino Unido, considerando os novos doutores formados entre 2019-2020, 7% tornaram-se empreendedores até quinze meses após a titulação.

O estudo apresenta um primeiro cenário da atuação de novos doutores como sócios e gestores de firmas no país. O quadro inicial sugere um potencial elevado de empreendedorismo de doutores, favorável à transferência de conhecimento e à contribuição das universidades para o desenvolvimento nacional. Entretanto, parece que uma parcela expressiva dessas atividades esteja mais relacionada à valorização simbólica do título e à precarização do trabalho do que à criação de organizações intensivas em conhecimento voltadas ao desenvolvimento de novas tecnologias. Outro desafio importante é a abordagem estritamente voltada à atuação acadêmica da maior parte dos programas de doutorado no país, que em geral ignora essa nova realidade do mercado de trabalho dos alunos. Novos desenvolvimentos dessa agenda de pesquisa podem ajudar a apontar caminhos para superar essas questões e estimular o potencial empreendedor dos alunos de pós-graduação, aproveitando melhor seus conhecimentos em benefício da economia.


Daniel Gama e Colombo – Doutor em Economia pela Universidade de São Paulo (USP) e Coordenador de Métodos e Dados na Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais, de Inovação, Regulação e Infraestrutura do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

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