Energia nuclear é necessária
por Cláudio Geraldo Schön
Hoje, dia 11/01/2026, li aqui um artigo publicado por Heitor Scalambrini Costa e Zoraide Vilasboas intitulado “Na defesa das usinas nucleares falta argumento, sobra mediocridade” o artigo tem uma subtítulo que é “Inúmeros argumentos falaciosos têm sido usados para que o negócio nuclear prospere no país”. Me surpreende os argumentos levantados por estes autores que demonstram uma ignorância cabal da tecnologia nuclear, isto na melhor das hipóteses, porque se os autores sabem das suas falhas de argumento, estão sendo pouco honestos e escrevendo um artigo para defender uma ideologia antinuclear.
O artigo naturalmente vêm na esteira da criação pelo Comitê de Desenvolvimento de Programa Nuclear Brasileiro de um grupo de trabalho destinado a “estudar a infraestrutura nacional para reatores nucleares de potência e para a recepção de Pequenos e Microreatores Modulares em terra”. O referido grupo de trabalho engloba diversos ministérios e representantes da sociedade civil e é trabalho sério. Dizer que todas estas pessoas, o que inclui gente muito honrada, usa argumentos falaciosos é uma ofensa.
Os autores iniciam seu artigo criticando o Plano Nacional de Energia 2050 por afirmar que energia nuclear é limpa. Para início de conversa, quem afirma isto é a própria ONU; foi uma das resoluções tiradas da COP28 (realizada em Dubai). Na realidade a ONU afirma mais; eles afirmam que energia nuclear é verde.
Os autores argumentam que qualquer fonte de energia produz resíduos tóxicos e que agride o ambiente. É verdade, o mesmo pode ser falado das fontes renováveis, há severos problemas ambientais associados a construção de fazendas solares ou de parques eólicos que devem ser considerados. Além disto há a questão da pegada de carbono. O leitor talvez estranhe, pois a fonte de energia é dita “renovável”, acontece que se produz muito CO2 na produção do silício usado nas placas fotovoltaicas, e a produção e operação de geradores eólicos também envolvem grandes emissões. A tecnologia nuclear é sim produtora de resíduos perigosos, e por isto mesmo é quem sabe melhor como lidar com esses resíduos.
Os autores também questionam a afirmação de que o custo da energia obtido por fontes nucleares (em especial os pequenos reatores modulares) é semelhante à das termoelétricas, argumentando que fontes renováveis tem custo menor. É verdade, ocorre que não podemos viver sem fontes termoelétricas, pois precisamos compensar a variabilidade das fontes intermitentes (principalmente fotovoltaicas e eólicas). Desta forma, a introdução dos reatores permitiria atender a função das termoelétricas sem a emissão de dióxido de carbono pela queima de combustível.
Um reator nuclear é capaz de fornecer energia em grande quantidade por um grande período de tempo. O reator Angra 1 da Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto teve recentemente seu pedido de extensão de vida aprovado e tem permissão de funcionar por mais 20 anos, a vida total será, portanto de 60 anos. O reator Angra 2 passará em algum momento pelo mesmo processo e Angra 3, em construção, também poderá operar por longos anos. Juntos, os reatores Angra 1 e Angra 2 produzem cerca de 2% de toda a energia de nossa grade. Quando o reator Angra 3 for finalizado esta participação aumentará para algo em torno de 3,4%. Parece pouco, mas como costumo lembrar a meus alunos, 2% de toda a energia do país é produzida por dois reatores.
Vocês devem ter notado que eu afirmei que o reator Angra 3 algum dia entrará em operação. Para mim esta polêmica é inexistente. Os levantamentos mostram que os custos necessários para terminar são apenas um pouco superiores a tudo necessário para abandonar o projeto. Logo, é necessário terminar, por que senão, não teremos a energia.
Os autores na sequência questionam a “linha tênue” que há entre uso pacífico e militar da energia nuclear. Eles lembram que o combustível usado nos reatores de potência é enriquecido a teores de 4 a 5% de U235 e que para se fazer uma bomba é necessário enriquecer a 90%. É verdade, e adiciono outra informação, enriquecer a 90% não custa muito mais que enriquecer a 4 ou 5%. Eles omitem entretanto que todo o Urânio do Brasil é controlado por inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e da Agência Brasileiro-Argentina de Controle e Contabilidade de Materiais Nucleares (ABACC). Isto é feito justamente porque o Brasil é um signatário convicto do Tratado de Não Proliferação de Armamentos Nucleares (TNP). Assim, enriquecer a mais que 20% (o limite do que chamamos Low Enrichment Uranium, LEU) é impossível, mesmo para o programa militar da Marinha do Brasil.
Eles mencionam que Plutônio (outro elemento usado na fabricação de artefatos) é produzido como resíduo no combustível usado. É verdade, mas omitem primeiro, que a quantidade de Plutônio produzido nos combustíveis de baixo enriquecimento usado nas usinas é muito pequeno e que mesmo que quiséssemos não conseguiríamos aproveitá-lo, pois optamos por não reprocessar o combustível usado.
Ainda bem que há parlamentares trabalhando pelo objetivo de aumentar a participação da energia nuclear na nossa grade. Os autores mencionam o deputado Júlio Lopes (PP-RJ) com se fosse um fanático religioso. Eu já interagi com o deputado Júlio Lopes e posso afirmar que ele é sim um conservador, mas ele é um homem honrado, com quem se pode dialogar e que ouve argumentos.
Em resumo, o artigo publicado comete um grande número de erros e omissões. Espero sinceramente que os autores tenham feito isso por não conhecer o campo, por que a alternativa seria concluir que a ideologia antinuclear que eles obviamente defendem os levaram a cometer estes erros.
Eu termino reafirmando o que usei como título deste artigo. Energia nuclear é necessária e eu festejo a criação do mencionado grupo de trabalho. Ambientalistas que atacam a energia nuclear ignoram que a energia nuclear é a maior aliada das fontes renováveis intermitentes, já que são capazes de manter uma potência ativa constante, enquanto estas outras estão sujeitas aos caprichos da natureza (sol e vento).
Prof. Dr. Cláudio Geraldo Schön é professor titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, foi o coordenador do grupo de trabalho que propôs a criação bem sucedida do curso de graduação em Engenharia Nuclear na Escola Politécnica.
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