Escalada de ofensas contra a mídia para distorcer o debate público, por Janara Nicoletti

O desrespeito, assinala a pesquisadora Janara Nicoletti, não é apenas com profissionais da mídia, mas também com a estrutura democrática que permite questionar e fiscalizar os poderes

Créditos: Giving Compass/Press Freedom

do ObjETHOS 

Escalada de ofensas contra a mídia para distorcer o debate público

por Janara Nicoletti*

O mês de fevereiro vem sendo marcado por uma escalada de ofensas a jornalistas por parte do presidente da República, Jair Bolsonaro. A cada declaração absurda e ofensiva, diversos questionamentos relevantes são ocultados. E uma lista de perguntas sem respostas é perdida em meio à repercussão dos ataques à imprensa. Existe uma clara tentativa de enviesar o debate público e esconder questões cruciais.

Em menos de 20 dias foram registrados casos de agressão moral e também de cunho sexual contra os jornalistas por parte do presidente. No início de fevereiro, o chefe do Estado ofereceu uma banana aos jornalistas após reclamar da repercussão de uma declaração sobre portadores de HIV. Uma semana depois, o mesmo ato desrespeitoso foi realizado ao tentar desviar os questionamentos sobre a reportagem que indicou o comprometimento da biblioteca do Palácio do Planalto por uma obra dedicada a projetos capitaneados pela primeira dama do país.

Nesta terça-feira (18), outra ofensa por parte do presidente da República contra a jornalista da Folha de S. Paulo, Patrícia Campos Mello. O discurso sexista novamente foi dito após questionamentos desconfortáveis ao governo. Desta vez, a declaração do Chefe do Estado Brasileiro teve conotação sexual e atacou covardemente uma jornalista mulher com linguajar inapropriado e em meio a risadas de seus seguidores (não iremos reproduzir a fala em respeito à profissional)

Entre bananas e furos, a desinformação escala

Estes casos denunciam uma crescente escalada da censura contra o trabalho dos jornalistas por meio da intimidação e do controle financeiro. Existe um evidente ofuscamento dos temas centrais das entrevistas que terminam em agressões aos jornalistas. Não se trata trata apenas de descontrole ou despreparo, há a necessidade de se apelar para fugir do assunto. O redirecionamento da pauta do dia acaba desinformando a população sobre a ausência de respostas ou esclarecimentos necessários. Há alguma estratégia por trás do que parece insanidade.

Na última terça-feira (18), a fala do presidente da República contra a jornalista da Folha de São Paulo engrossou o coro dos ataques devido à CPI das Fake News. De maneira vulgar, Jair Bolsonaro se esquivou de esclarecimentos sobre a investigação sobre os mandantes do assassinato de Marielle Franco para atacar a profissional. Carla Jiménez do El País avalia que esta ofensa deve ser repudiada pela sociedade civil organizada. A jornalista destaca que a insinuação do presidente expôs a mulher agredida ao papel de “prostituta” ao sugerir troca de informações por sexo. “Nunca na democracia um chefe de Estado havia caído tão baixo apelando à vulgaridade para falsear a realidade”.

Leonardo Sakamoto, do UOL, segue a mesma argumentação. Ele avalia que a agressão mais recente à jornalista mantém a estratégia de criar factóides para tentar encobrir diferentes temas críticos ao governo. “O ataque de hoje não é mais uma golden shower, para citar uma tentativa de desviar o foco da opinião pública no Carnaval passado. O linchamento público promovido contra uma jornalista por um presidente, seu filho e seus aliados é um passo além: um teste que Bolsonaro faz com as instituições brasileiras”, avalia Sakamoto. A forma como as instituições responderão a este comportamento ajudarão a enfraquecer ainda mais ou restabelecer a democracia brasileira — podemos incluir aqui as empresas de mídia.

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Mais recentemente, os episódios da “banana” oferecida aos jornalistas demonstram clara ofensa moral aos profissionais da mídia que levantaram pontos incômodos ao governo. Por se tratar de uma ação vinda do chefe do Estado, esta é uma situação bastante preocupante porque demonstra total desrespeito à categoria e também à sociedade que carece de respostas sobre assuntos críticos. Além disso, abre o precedente para que outros políticos, instituições e pessoas façam o mesmo. Afinal, se o próprio presidente demonstra tamanha falta de decoro, por que o baixo clero irá se limitar a isso? A que temer, se a imprensa não questiona e as estruturas fiscalizadoras do estado se mantém mudas?

Diferentes entidades representativas de jornalistas e da imprensa emitiram notas de repúdio aos variados ataques aos jornalistas. Folha de S. Paulo condenou o mais recente ataque à profissional afirmando que “O presidente da República agride a repórter Patrícia Campos Mello e todo o jornalismo profissional com a sua atitude. Vilipendia também a dignidade, a honra e  o decoro que a lei exige do exercício da Presidência”.

Os ataques da Presidência à imprensa brasileira foram pauta do  The Wall Street Journal de 11 de fevereiro. A reportagem destaca a estratégia de comunicação do presidente em criticar abertamente a mídia e pressionar a imprensa. O texto começa com a descrição da cena das entrevistas diárias em frente ao Palácio da Alvorada, embaixo de uma mangueira, na qual Bolsonaro distribui selfies, sorrisos e apertos de mão aos seguidores, enquanto mantém sua cruzada contra a imprensa: “Ele então briga com os repórteres políticos que o seguem, dizendo para eles calarem a boca, os insultando ou acusando de publicar mentiras” (tradução literal para o português).

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Segundo o texto do jornal norte-americano, no início de 2019 havia uma tentativa de se buscar um relacionamento amigável com alguns escolhidos para participarem de cafés da manhã com o presidente. Após os incêndios da Amazônia, a relação passou a ser mais conflituosa e de ataque. Entre os casos rememorados pelo jornal norte-americano, estão o ataque à mãe de um jornalista quando Bolsonaro foi questionado sobre o caso Queiroz e a tentativa de agressão a outro profissional ao fugir da resposta, atacando: “você tem cara de homossexual terrível”. Nos dois casos, os argumentos também foram respostas a perguntas relacionadas a denúncias.

Intimidação como estratégia de censura

Não é por menos que a violência contra os jornalistas tenha aumentado e o índice de liberdade de imprensa diminuído, entre 2018 e 2019. Segundo o Repórteres sem Fronteiras, o país caiu três posições, e agora ocupa o 105º lugar entre 189 países. De acordo com o relatório, “a eleição de Jair Bolsonaro em outubro de 2018, após uma campanha marcada por discursos de ódio, desinformação, violência contra jornalistas e desprezo pelos direitos humanos, é um prenúncio de um período sombrio para a democracia e a liberdade de imprensa”.

Em 2019, houve um aumento de 54,08% no número de ataques a veículos de comunicação e a jornalistas (208, no total), segundo a Federação Nacional dos Jornalistas. Apenas o presidente da República Brasileira, foi responsável por 121 casos levantados, dos quais sete foram direcionados a jornalistas específicos e 114 para toda a imprensa. As declarações foram postadas no Twitter oficial, pronunciadas em discursos e entrevistas. Para a Fenaj, esses números demonstram uma evidente ameaça à liberdade de imprensa do país. “O chefe de governo promove, por meio de suas declarações, sistemática descredibilização da imprensa e dos jornalistas. Com isso, institucionaliza a violência contra a imprensa e seus profissionais como prática de governo”, destaca o documento.

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Em 2020, essa estratégia parece ganhar força a cada nova semana. Além do número de casos, quatro em duas semanas, o nível de agressão aumenta. É uma clara demonstração de desrespeito ao papel do profissional da mídia e, acima disso, da estrutura democrática que permite questionar e fiscalizar os poderes. Há uma postura subserviente por parte de muitos veículos de mídia em que se limitam a reproduzir as falas do presidente, seus ministros e filhos sem questionar suas implicações ou apresentar seus contextos. Como consequência, os noticiários se enchem de ataques à imprensa, sem aprofundar suas causas. Há portanto, um aumento do risco ao trabalho jornalístico que vem acompanhado pela falta de contexto sobre os questionamentos motivadores da escalada de ataques à imprensa, resultando em um redirecionamento da agenda noticiosa, e no apagamento das questões originais — na maioria dos casos, denúncias envolvendo o governo ou a família Bolsonaro.

Verifica-se aí uma escalada da intimidação como forma de controle do discurso da mídia. Perde a sociedade, a democracia e, principalmente, os jornalistas, que saem diariamente para trabalhar em condições cada vez mais inseguras e instáveis, nas quais perguntar ou analisar pode ser passível de assédios públicos ou afastamentos e demissões.

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