Exaustão de fim de 2020, por Dora Incontri

Um ano desesperançado, de cansaço extremo diante das telas de computador, de exaustão de más notícias, de adoecimento psíquico de tanta gente, que não está dando conta do isolamento, da pobreza, da falta de perspectiva.

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Exaustão de fim de 2020, por Dora Incontri

Certas palavras do Novo Testamento podem ser consoladoras e nos incentivarem à resiliência e à fé. Para mim, sempre esse versículo da Epístola aos Hebreus foi particularmente forte nesse sentido: “Portanto, tornai a levantar as mãos cansadas, e os joelhos desconjuntados. E fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que manqueja não se desvie inteiramente, antes seja sarado.” (Hebreus, 12:12)

Um estímulo a não nos rendermos às dificuldades e a cada queda, tropeço, machucado da estrada, nos recompormos e seguirmos adiante, para que não nos desviemos totalmente da rota que é nossa, mas nos sintamos curados de nossas feridas.

Parecem palavrinhas fáceis de autoajuda? Não, não é por nenhum caminho alienante e anestesiante que poderemos nos fortalecer. Primeiro, encaremos os fatos de frente. Depois, estejamos sempre a postos para mudá-los e reconfigurar a estrada.

Estamos individual e coletivamente exaustos nesse final de um ano insólito, enlutado, caótico. Sem palavras para o que desabou sobre nossas cabeças. Se já não fosse uma pandemia global, levando milhares de pessoas à morte, com um impacto econômico que vai se prolongar por muito tempo – uma pandemia que não sabemos como e quando vai terminar – ainda no Brasil, temos o agravante de um (des)governo irresponsável, indiferente à sorte e à morte do povo e conivente com toda morte que se acelera nos mares, nas matas, nos cerrados…

Um ano desesperançado, de cansaço extremo diante das telas de computador, de exaustão de más notícias, de adoecimento psíquico de tanta gente, que não está dando conta do isolamento, da pobreza, da falta de perspectiva.

Mas o tempo não para, embora esteja atualmente se arrastando, às vezes com a sensação de que está parado, às vezes com a sensação de que vivemos um século em 2020!

Porque o tempo não para, somos convidados sempre à esperança e à renovação, a outras possibilidades e reinvenções. Estamos amadurecendo, estamos aprendendo – os que têm algum bom senso para isso. Estamos nos recriando – e disse aqui na semana passada, o quanto a arte e a espiritualidade são importantes nesse processo.

O que nos cabe agora é escaparmos um pouco das amarras do tempo e conseguirmos enxergar além do momento em que estamos mergulhados. Pensemos as grandes tragédias do século XX – as duas grandes guerras, a gripe espanhola, a depressão de 29, a guerra do Vietnã, a guerra fria… Tudo passou. Nossos avós e bisavós atravessaram tudo isso e nos legaram a vida, a continuidade da luta e, até, um mundo um pouquinho melhor (concedamos isso a eles!).

Mesmo no meio de um aluvião de tarefas, luta pela sobrevivência, preocupação com seres queridos, ansiedade pelos rumos políticos do país e do mundo, respiremos fundo, levantemos as mãos cansadas e os joelhos desconjuntados e sigamos. Fazendo a nossa parte, dando um voto ao tempo, que tudo transforma e deixa para trás.

O importante é não perdermos o rumo, não deixarmos a peteca cair, agindo com força a favor das boas causas, favorecendo os bons ventos e nos segurarmos em nossos afetos (apesar das distâncias), na arte e na espiritualidade (aqueles que a cultivarem). Um dia, tudo isso vai passar. Forças para chegar até a esquina do 2021!

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