Extrema direita, o filho não desejado da esquerda eternamente fragmentada, por Camila Koenigstein

As principais características dos políticos de extrema direita são o forte discurso nacionalista e populista, e a linguagem de fácil absorção, sem todo o arsenal teórico que geralmente a esquerda costuma usar

Extrema direita, o filho não desejado da esquerda eternamente fragmentada.

por Camila Koenigstein

É comum a associação do momento atual com o período de ascensão do regime nazista, sobretudo pelo conteúdo discursivo dos políticos de direita. Na América, os presidentes Jair Messias Bolsonaro, Donald Trump, Jeanine Áñez, Sebastián Piñera e Iván Duque são exemplos disso.

Do outro lado do oceano, Stefan Löfven, na Suécia, contém o crescimento da extrema direita, a Hungria sofre com um dos líderes que mais chamam atenção pelo extremismo, Viktor Orbán, assim como a Turquia com Erdogan.

A Espanha tenta frear o avanço do Vox, e a Alemanha sente cada vez mais o fortalecimento do Alternativa para a Alemanha (AFD).

Esse movimento em direção à extrema direita não pode ser dissociado do fracasso dos projetos políticos e ideológicos da esquerda, que há décadas vem perdendo terreno em decorrência de sua falta de consistência com a classe trabalhadora.

A pluralidade de temas que a esquerda abraçou, as alianças ditas “necessárias” com os partidos reacionários, a busca por reformismo dentro de um sistema neoliberal e a descrença da população no papel do Estado foram fatores que abriram uma fenda que possibilitou esse giro.

As principais características dos políticos de extrema direita são o forte discurso nacionalista e populista, e a linguagem de fácil absorção, sem todo o arsenal teórico que geralmente a esquerda costuma usar para explicar seus planos de governo, assim como a implantação deles.

Exemplo claro foi a tentativa do presidente argentino Alberto Fernández de estatizar a companhia Vicentin, buscando salvar o grupo da falência. O caso assustou tantos cidadãos que muitos foram às ruas, mesmo na quarentena, em protesto contra o projeto comunista que iniciaria uma sequência de expropriações. Ficou evidente o medo do desconhecido, e talvez esse seja o grande problema dos partidos progressistas: ser desconhecido para o indivíduo comum.

Hoje, parece ofensivo falar em sujeito comum, é quase um insulto, mas é importante recordar que sim, eles existem e compõem parcela considerável da população. Adorno afirmava: a imagem moderna do líder algumas vezes parece o engendramento da personalidade do próprio sujeito, uma projeção coletiva de si mesmo.

Vale lembrar que a ex-presidenta Dilma Rousseff ficou conhecida em parte por sua falta de comunicação com as massas, uma lacuna criada que permitia pouca identificação com sua figura, problema que resultou no rechaço a seu governo e baixo índice de aprovação.

A falta de troca gerou desconfiança, principalmente dentro do contexto de fragilidade em que foi reeleita.

A ausência de autocrítica e o foco nas estruturas sociais não são temas novos para esquerda, mas parece que a arrogância – com uma dose de inocência – não permite a análise dos erros que se repetem constantemente.

A imaterialidade, justamente uma das bases do marxismo, perdeu a relevância, novamente Hegel emergiu, invertendo o discurso.

No contexto atual vemos o ressurgimento de um passado que só é pertinente quando falamos de fascismo e nazismo, sem dizer como ambos surgiram.

A maioria dos artigos abraça o nazismo como fato quase isolado, e a eterna pergunta surge: como ele foi possível? Não só foi possível, como gerido por um largo tempo, muito antes da delicada e complexa República de Weimar, esta inclusive ignorada, o que cria um imaginário de salto histórico da 1ª Guerra Mundial, o ressentimento com o Tratado de Versalhes, a pobreza e o desamparo da população alemã, que ficou com todos os ônus da guerra, seguida da quebra da bolsa em 1929, o que garantiu a ascensão do nazismo.

A grande problemática dessa leitura é a ausência de processualidade sobre o que era a sociedade alemã antes da 1ª Guerra Mundial e como determinada configuração social criou as bases para o nazismo. Nesse preciso momento de tantas mudanças sociais é que podemos estabelecer o paralelismo que possibilita uma análise mais profunda do que estamos vendo. Reduzir toda a mudança que vem ocorrendo a discursos e fatos semelhantes ao nazismo é o caminho mais fácil, até mesmo para a esquerda.

A proletarização tardia da sociedade alemã

Diferentemente de outras nações europeias, a sociedade alemã tardou em entrar no processo de industrialização. Em 1873, com a quebra da Bolsa de Viena, há um desenvolvimento industrial enorme, o país, que era agrário, deu um rápido salto rumo à modernização. Entre 1880 e 1890, a produção industrial cresceu vertiginosamente, levando a Alemanha ao posto de economia mais poderosa do planeta.

Nesse cenário, naturalmente surgiram os primeiros movimentos operários em diversas partes da Alemanha, a antiga Prússia.

Se por um lado o Estado imperial começava a reconhecer as demandas e necessidades da recente classe trabalhadora industrializada, por outro, reprimia a unificação dos trabalhadores e a liberdade política através dos partidos que estavam se formando com base ideológica socialista.

Em 1877, a classe trabalhadora já apresentava um problema para o chanceler Otto Von Bismarck (1815-1898).

Após o Partido Trabalhador e a Social Democracia Alemã (PSDA) se unificarem, concentrando o apoio dos trabalhadores, ocorreu uma mudança importante no âmbito político. Com o junção, o número de votos das legendas passou de 100 mil, em 1871, para 500 mil. Os trabalhadores começaram a desenhar o que viria a ser um forte movimento operário.

Em 1878, depois do atentado sofrido pelo Kaiser, Bismarck passou a perseguir os partidos socialistas. Dissolveu o Reichstag e, quando as novas eleições lhe foram favoráveis, aprovou as leis antissocialistas.

Até 1890 estavam proibidos os sindicatos, cooperativas, associações ligadas ao partido, e diversos militantes foram perseguidos e presos. Após dois anos de vigência a lei foi renovada, Bismarck queria dissipar totalmente a social-democracia.

Diante de a toda repressão sofrida, alguns dirigentes buscaram uma via de conciliação, o que criou um mal-estar dentro do partido, pois muitos não estavam de acordo em fazer pactos com o governo imperial.

Entre 1883 e 1884, Bismarck estabeleceu leis favoráveis aos trabalhadores, como seguro-doença e pensões para os idosos e inválidos, no entanto, mesmo com tais medidas não conseguiu exterminar o movimento, que continuou crescendo. Em 1890 o chanceler renunciou, a relação entre ele e o Kaiser Guilherme II não era positiva – o Kaiser reprovava as perseguições, era nítido que só propiciavam o fortalecimento do movimento socialista e que as parcas leis não enganavam a classe trabalhadora quanto às intenções do governo.

Nesse momento o Kaiser decretou o fim do período das repressões e direcionou seu discurso ao povo. Essa nova cara do governo imperial era oriunda do desenvolvimento econômico que seguia, o que criou uma falsa impressão de um marxismo que, na verdade, nada mais era que uma espécie de reformismo.

A nova realidade era impensável para Engels, que via o reformismo como mera medida paliativa, o que diz muito sobre o momento atual e seus desdobramentos.

O esquecimento dos principais pontos de interesse por questões momentâneas, essa luta por êxitos momentâneos sem considerar as consequências posteriores, esse sacrifício do futuro do movimento em troca de algo no presente podem até ter intenções honestas, mas são oportunismo, e o oportunismo “honesto” é talvez o mais perigoso de todos. (Engels)

As críticas de Engels ao reformismo foram ignoradas pela direção do partido – quando o texto foi publicado havia diversos tipos de recortes e alterações. A completa objeção de Engels não significou muito dentro da social-democracia, que fez concessões, flertando com as antigas bases sociais, o que levou a Alemanha ao capitalismo imperialista.

Essa foi a base do que, anos mais tarde, seria o país com maior solidez para chegar às vias de fato de uma revolução socialista, levando Lenin a acreditar que a Revolução Socialista ocorreria em solo alemão, dadas as condições materiais existentes.

No entanto, uma série de equívocos substituídos por outros possibilitou um processo de degradação de forma lenta, mas constante.

A ausência de direção partidária, o modo de efetivar a revolução eram temas que preocupavam os trabalhadores que não estavam perto dos teóricos do partido, isso construiu um vácuo para a consolidação do discurso nacionalista, que começou antes da 1ª Guerra Mundial.

Passado esse período de solidificação da classe operária, há debates internos e externos quanto aos rumos do socialismo dentro do partido, eram intensas as disputas sobre reformismo, revolução e oportunismo, um emaranhado de mudanças ideológicas e práticas que desorientou a massa de trabalhadores por toda a Alemanha.

Também o Congresso do Partido Social-Democrata (SPD) de 1903 condena da maneira mais resoluta as tentativas revisionistas das forças reunidas em torno de Eduard Bernstein. Na resolução do congresso, diz: “Mudar a tática que até agora defendemos e coroamos com vitórias, baseada na luta de classes, por outra que, em vez de buscar a conquista do poder político pela superação de nossos inimigos, visa a política de fazer concessões à ordem existente … – a consequência de uma política revisionista desse tipo seria a de um partido que trabalha para a superação da ordem social burguesa o mais rápido possível em uma ordem socialista, isto é, um partido que é revolucionário no melhor sentido da palavra, torna-se um partido dedicado à reforma da ordem social burguesa ”. No entanto, já em 1911 as forças reformistas do Partido Social-Democrata venceram. Até o Congresso de Jena, em 1913, eles fortaleciam cada vez mais suas posições. Em uma luta de duas décadas contra a esquerda marxista que não estava livre de difamação, eles finalmente conseguiram colocar ao seu lado a maioria do partido. (Oscar Hippe)

Essa falta de articulação dentro da esquerda, o reformismo exitoso, juntamente com as eternas discordâncias, descartaram anos de formulação e esforço para formar uma consciência de classe nos trabalhadores. A ausência de equilíbrio gerou diversos rachas e não evitou os anos trágicos que se sucederam a esse período de amplo desenvolvimento político, social e cultural.

Em 1914, a Alemanha entrou na 1ª Guerra mesmo com trabalhadores de diversas regiões protestando contra. Saiu derrotada em 1918, quando o comandante supremo do Exército comunicou que já não existia possibilidade de vitória, era necessário o armistício. A Alemanha não só perdeu a guerra, como 2 milhões de vidas, além de ter ficado com o saldo de 4,2 milhões pessoas feridas.

Em 3 de novembro 1918, Guilherme II abdicou. Em 7 de novembro, caiu o Império e, no dia 9, o deputado social-democrata Philipp Scheidemann proclamou a República provisória.

Devido à questão dos créditos de guerra, havia um racha na ala esquerdista da Alemanha: de um lado estava o Partido Social-Democrata (SPD), do outro, o Partido Social-Democrata Independente (USPD). Essa divisão ficou ainda mais evidente em 9 de novembro. Enquanto o SPD majoritário, liderado por Friedrich Ebert e Philipp Scheidemann, queria uma democracia parlamentar e acreditava não conseguir governar a Alemanha sem as antigas elites do poder, muitos dos “independentes” decidiram seguir um outro caminho.

Mais uma vez a fragmentação da esquerda, que já vinha há décadas se intensificando, atingiu o ápice com a proclamação da República feita por Scheidemann.

Com o fim da guerra, a unificação do território, que instaurou um forte nacionalismo e a descrença nos partidos políticos, deixou todas as portas abertas para a chegada da fraca República de Weimar, e consequentemente o pai de todos os alemães desamparados: Adolf Hitler.

“Vemos a Alemanha como uma mãe que gera uma revolução, e se os alemães não nos obrigarem, não levantaremos armas contra ela antes de a criança nascer”, escreveu o jornalista Karl Radek, conselheiro de Lenin, vindo especialmente da Rússia. A Alemanha contava então três partidos de esquerda com orientação marxista: SPD, USPD e KPD.

Em 6 de dezembro, começaram em Berlim as primeiras lutas de barricada fortes entre revolucionários de extrema esquerda e soldados, causando as primeiras mortes. Os motins se ampliaram num “Levante Espartaquista”, uma verdadeira guerra civil, travada também em outras cidades. Estima-se em cerca de 5 mil os mortos nos primeiros meses de 1919. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, porta-vozes da revolução, foram brutalmente assassinados por paramilitares de direita”.

A mesma esquerda que criou todas as condições para uma mudança efetiva social possibilitou a criação do grande pai, o homem que com características medianas arrebatou uma nação por meio do seu discurso ressentido e cheio de ódio, mas que ao mesmo tempo representava o que grande parte da sociedade alemã sentia. O povo teve que suportar um largo período de pobreza e privações relacionadas com a perda da 1ª Grande Guerra e o Tratado de Versalhes.

Diferentemente de qualquer outra batalha, a 2ª Guerra Mundial contou com todo um arsenal discursivo que buscava de toda forma evidenciar a ferida narcísica causada na população alemã, o que criou não só a nação alemã, mas a raça e a identidade. O outro, tal qual estamos vendo nos diversos países com líderes de direita, era um mero empecilho para o total desenvolvimento social.

A cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos (…) As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre (a nação), sentidos dos quais podemos nos identificar, constroem identidades. – Stuart Hall.    

O que estamos vendo não é o acaso, são os eternos erros da esquerda ávida por resoluções rápidas e alianças que sempre cobram um valor altíssimo.

Quando o PT estabeleceu aliança com o PSDB, decretou o destino do povo brasileiro. O frágil governo de Dilma não foi suficiente para conter os anseios de um povo que nunca entendeu, tampouco recebeu educação sobre o que significa igualdade social de forma plena. A educação de base sempre vista como algo menor segue velhos modelos que não permitem que ocorra uma ruptura com as estruturas que legitimam a desigualdade.

Que os próximos anos possam gerar uma oposição forte e coesa, que consiga reparar algo dos enormes danos causados por Messias, o homem que uniu a nação que sempre esteve perdida. O preço? Já milhares de vidas ceifadas.

Bibliografia

https://www.laizquierdadiario.com/Memorias-de-la-revolucion-alemana

https://www.dw.com/pt-br/a-revolu%C3%A7%C3%A3o-encalhada-de-novembro-de-1918-na-alemanha/a-46198689

https://www.dw.com/pt-br/h%C3%A1-um-s%C3%A9culo-nascia-a-primeira-democracia-na-alemanha/a-47128572

https://www.deutschland.de/es/topic/politica/la-republica-de-weimar

https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2018/11/10/interna_internacional,1004653/a-primeira-guerra-mundial-em-numeros.shtml

Brunetto, Luis. Fue, soy, seré Rosa Luxemburgo: La revolución aleman. Lomas de Zamora: Sudestada, 2018.

Camila Koenigstein – Graduada em História, pela Pontifícia Universidade Católica – SP, e pós-graduada em Sociopsicologia, pela Fundação deSociologia e Política – SP. Atualmente faz Mestrado em Ciências Sociais, com ênfase em América Latina y Caribe pela Universidade de Buenos Aires (UBA).

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora