Faroeste do rock em Brasília, por Carolina Maria Ruy

Por volta do início da década de 1980 sons de uma cultura jovem e contestadora despontavam no centro oeste do Brasil.

Ilustração da Tracklist

Faroeste do rock em Brasília

por Carolina Maria Ruy

As bandas Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, marcaram o período que vai do fim da ditadura militar à difícil recessão dos anos de 1980/90, utilizando tal contexto como matéria prima para suas poesias. Assim como os punks ingleses, aqueles jovens expressavam uma realidade urbana e industrial, que combinava modernidade, avanço tecnológico, conflitos sociais e sentimento de exclusão.

A maioria dos integrantes destas bandas não nasceram em Brasília. Renato Russo, vocalista do Legião Urbana, é carioca, Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial, é de Curitiba, e Philippe Seabra, do Plebe Rude, nasceu em Washington DC. (EUA).  Garotos da classe média, filhos de funcionários públicos, bancários e diplomatas, quase todos se mudaram com a família para a nova capital entre a infância e a adolescência. Foi lá, no centro oeste brasileiro, que eles aconteceram.

O modo de vida urbano e o sentimento de injustiça social foram motes recorrentes destas bandas, não apenas nas letras, mas nas batidas que lembram a produção industrial e o ritmo frenético das cidades.

De todas a foi a mais política. Isso fica claro no refrão de “Até quando esperar” (Plebe Rude) que se tornou um mantra irônico sobre a acentuada desigualdade social do Brasil na década 1980:

“Com tanta riqueza por aí, onde é que está

Cadê sua fração?”

Mas foi nas mãos de Renato Russo, da Legião Urbana, que as contradições entre o avanço e o atraso ganharam a melhor definição.

Em seus álbuns Legião Urbana Dois, Que País É Este, As Quatro Estações e O Descobrimento do Brasil a banda transitou por assuntos pertinentes ao jovem povo brasileiro, traduzindo os sentimentos de multidões.

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Mais do que isso, foi Renato Russo quem musicou e popularizou a epopeia de Brasília na canção Faroeste Caboclo, composta em 1979 e lançada oficialmente em 1987 no álbum Que País É Este.

São 159 versos que não se repetem em nove longos minutos. Sua harmonia e o ritmo extremamente simples, no entanto, fizeram com que a música caísse na boca do povo.

A letra fala do nordestino João de Santo Cristo que sai de sua terra natal tornando-se um desbravador à brasileira.

O título não deixa dúvida de que se trata da construção de um território com os riscos e os erros inerentes à nova experiência, daí o Faroeste.

Deixa claro também que se trata da conquista do oeste por um povo mestiço de branco, índio e negro, daí o Caboclo.

Mote típico do povo americano colonizado pela costa leste, o tema conquista do oeste nos remete a uma terra sem lei. Ou melhor, a uma terra em que a lei está sendo formada.

A saga de Santo Cristo traz ao centro dos holofotes um homem rústico, sem apoio ou assistência, que sai pelo mundo à sua própria sorte.

Como se pode notar logo no início da melodia o personagem, vítima de preconceitos, deserta do inóspito sertão nordestino em busca dos centros urbanos:

“Quando criança só pensava em ser bandido

Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu

(…)

Aos quinze foi mandado pro reformatório

Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror

Não entendia como a vida funcionava

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Descriminação por causa da sua classe e sua cor

Ficou cansado de tentar achar resposta

E comprou uma passagem foi direto a Salvador”

Orfão de pai, ele vai à Salvador, e depois à Brasília.

Nestes outros versos pode-se notar a admiração à exuberância moderna de Brasília e também uma referência ao Brasil rural:

“E lá chegando foi tomar um cafezinho

E encontrou um boiadeiro com quem foi falar

E o boiadeiro tinha uma passagem

Ia perder a viagem, mas João foi lhe salvar:

Dizia ele – Estou indo pra Brasília

Nesse país lugar melhor não há

Tô precisando visitar a minha filha

Eu fico aqui e você vai no meu lugar

O João aceitou sua proposta

E num ônibus entrou no Planalto central

Ele ficou bestificado com a cidade

Saindo da rodoviária viu as luzes de natal”

Logo na sequência, o tráfico de drogas:

“Um peruano que vivia na Bolívia

E muitas coisas trazia de lá

Seu nome era Pablo e ele dizia

Que um negócio ele ia começar

(…)

E o João de Santo Cristo ficou rico

E acabou com todos os traficantes dali”

 

O papel da TV, espetacularizando a tragédia:

 

“E Santo Cristo não sabia o que fazer

Quando viu o repórter da televisão

Que deu notícia do duelo na TV

Dizendo a hora o local e a razão

(…)

E olhou pro sorveteiro

E pras câmeras e a gente da TV filmava tudo ali

E se lembrou de quando era uma criança

E de tudo o que vivera até ali

E decidiu entrar de vez naquela dança

– Se a via-crucis virou circo, estou aqui”

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No fim a redenção e a criação de um mártir:

 

“O povo declarava que João de Santo Cristo

Era santo porque sabia morrer

E a alta burguesia da cidade não acreditou na história

Que eles viram da TV

E João não conseguiu o que queria

Quando veio pra Brasília com o diabo ter

Ele queria era falar com o presidente

Pra ajudar toda essa gente que só faz sofrer!”

Enfim, é uma história que passa pela migração, por contrastes sociais, pela convivência entre o Brasil rural e o Brasil urbano, pelo desvirtuamento do ímpeto de uma juventude sem perspectiva e pela formação do crime organizado, pelo descaso das elites econômicas. Passa também pela pujança que adquiriu o centro oeste, pela consolidação da imponência de Brasília e pelo crescimento de uma nova e conflituosa modernidade.

Faroeste Caboclo ajudou a elevar as bandas de Brasília ao status de um fenômeno cultural brasileiro. Bandas que, a partir do exemplo da vida em Brasília, nos ajudam a compreender melhor o sentimento que havia no Brasil durante as chamadas décadas perdidas (1980 e 90).

Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude, além de outros artistas que vieram em suas esteiras, como Cássia Eller, Raimundos, Natiruts e o rapper GOG, ajudaram a definir a identidade da nova capital e fazem parte da história dos 50 anos de Brasília.

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

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1 comentário

  1. Acho que a jornalista não conhece a Vila Carolina em São Paulo.
    Está bom como comentário.

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