Felicidade é diferente de alegria, por Marcos Villas-Bôas

A felicidade garante uma boa vida. A alegria garante bons momentos transitórios

Felicidade é diferente de alegria

por Marcos Villas-Bôas*

A busca de uma vida boa na sociedade atual está muito atrelada à crença de que a felicidade vem com a satisfação de desejos. É claro que “bom ou ruim” são polos de uma dualidade extremamente subjetiva e à qual sugerimos deixar, pois causa mais prejuízos do que benefícios nas tomadas de decisão.

Aquilo que julgamos ser bom em um dado momento já não parece ser tão bom em outro. Não precisamos nem falar que cada um nós tem opiniões muito distintas sobre o que poderia ser considerado bom ou ruim, pois nós mesmos já mudamos de visão sobre as coisas com uma certa regularidade e, de um para o outro, mudam muito os referenciais, as experiências e outros fatores.

As visões do que é bom ou do que é ruim terminam, contudo, sendo enrijecidas por certos padrões criados pelas influências que a sociedade sofre. Esses padrões são construídos especialmente pelos meios de massa. Uma informação repetida muitas vezes, por mais falaciosa que seja, termina tornando-se uma aparente verdade para boa parte das pessoas. Muitos acreditam em necessidades que são criadas pela mídia, por gurus da internet e por outros influenciadores. Nas décadas anteriores, o poder de influenciar as decisões estava bem concentrado nas mãos da Rede Globo, porém isso vem mudando.

Como, na sociedade capitalista, há um grande interesse de quase todos por ganhar muito dinheiro e de ser aplaudido pelos demais, os padrões acerca do que é bom terminam sendo estabelecidos por aqueles com maior capacidade de atingir mais gente, que convencem os outros de que bom é algo que os faz ganhar dinheiro e receber aplausos. Eles convencem boa parte da sociedade de que “bom” é aquilo que eles vendem e/ou no que são supostamente bons.

Se pensarmos que as crenças na humanidade vêm mudando ao longo dos anos e que hoje a visão de mundo já é distinta daquela de 10 anos atrás em diversos aspectos, podemos supor que ela será muito diferente daqui a 10 anos. Imaginemos, então, como será daqui a 50 ou 100 anos. Frente a isso, fica claro que os padrões sobre o que é bom ou ruim são transitórios e influenciados por interesses pessoais.

Aqueles que podem viajar mais também percebem que a noção do que é bom ou do que é ruim pode mudar drasticamente de um país para o outro, ou mesmo de uma comunidade para outra dentro de um mesmo país. Então, será que tudo isso que você está se impondo ou impondo aos outros não é uma mera ilusão acerca do que é bom?

Nessa sociedade atual extremamente materializada, esses padrões de bom ou ruim estão associados a coisas que se tem e a certas regras as quais deveriam ser supostamente cumpridas. Então, bom é ter uma casa bonita, um carro da moda, um(a) parceiro(a) que os outros aprovem e assim por diante. A maioria das pessoas tem a sua noção de bom e de bem atrelada ao que a sociedade pensa e, sobretudo, ao que um grupo específico pensa, como a família e os amigos mais próximos.

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Bom é também, para alguns, fazer caridade. Bom é fazer agrados aos outros. Seguindo essas regras morais influenciadas por religiões, as pessoas continuam vivendo para fora, acreditando em padrões que lhes levam a terem que provar algo aos outros, a agradar alguém e a supostamente ajudar alguém que supostamente precisa, em vez de cultivarem o auto-amor. Isso não é egoísmo, mas nutrir-se antes por dentro, e não quase apenas para fora.

É claro que ajudar os outros, quando eles realmente precisam e pedem, é algo interessante, até porque a maioria da humanidade hoje ainda é bem egoísta, mas muitos têm invadido a vida de outras pessoas para sentirem-se caridosos e serem aprovados por si mesmos e pelos demais.

Falta auto-amor e real amor incondicional pelo próximo. A grande maioria da humanidade ainda não busca os equilíbrios emocional e mental, e termina caindo em ilusões de egoísmo ou de ativismo, o que as leva a diversos conflitos.

Todas essas ilusões sobre o que é bom ou ruim, como se fosse possível estabelecer padrões gerais, tornam as pessoas extremamente infelizes. Cada ser humano é único e tem especificidades muito singulares que requerem um profundo autoconhecimento para que se possa compreender o que aproxima cada um da sua essência, do seu Eu superior: amor incondicional, consciência búdica e mental superior.

A felicidade, portanto, não é uma questão de ficar olhando para fora e seguindo padrões, os quais geram “falsas necessidades” que as pessoas ficam buscando com ansiedade e que geram frustrações quando não são supridas. A satisfação de desejos efêmeros é algo que pode gerar alegria, momentos transitórios de regozijo por fazer ou ter algo que dá prazer, e isso alimenta a vida humana material.

Negar essa vida material é um plano fadado ao fracasso de muitas religiões. Uma vez estando na matéria, não há porque não aproveitar aquilo que dá prazer, que traz essas alegrias momentâneas e ir alimentando o dia de pequenos regozijos desde que eles não gerem dependência, nem outros prejuízos que superem os benefícios dos breves momentos de satisfação. Daí porque a busca deve por equilíbrio em tudo. O equilíbrio evita excessos e garante um maior custo x benefício.

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Há uma busca, no entanto, que deve vir bem antes da louvável procura por alegrias momentâneas, que é a da real felicidade. Felicidade é paz espírito. Isso já é dito há milhares de anos por grandes sábios e é algo muito vivo na filosofia oriental, porém a imensa maioria das pessoas ocidentais não entende bem porque utiliza uma visão dual. Mesmo no oriente, apesar de essa ser uma mensagem viva na filosofia, muitos não integraram a suas vidas.

Felicidade é um estado constante. É uma questão de “ser”, e não de “estar”. Quanto mais o indivíduo se nutre de auto-amor incondicional, mais ele vibra esse amor para fora e atrai ondas afins. Quanto mais ele expande a consciência e ganha equilíbrio emocional e mental, menos sua vida se desarmoniza e ele pode fazer aquilo que sente sem ficar perdendo a paz. A felicidade aumenta proporcionalmente ao aumento de auto-amor e da expansão da consciência obtida pelos equilíbrios emocional e mental.

Se a humanidade fica buscando conquistar uma felicidade constante por meio apenas de alegrias transitórias, ela está numa busca já desde o início malfada. Para chegar ao perene por meio do efêmero, as pessoas terminam exagerando na satisfação dos desejos. É por isso que compram muito, trabalham muito para ganhar dinheiro para comprar, comem muito, bebem muito álcool, dentre muitos outros excessos que lhes causam as mais variadas doenças e lhes impedem de atingir a felicidade constante.

Há aqueles que mergulham de vez na materialidade esquecendo de cuidar da paz de espírito e há aqueles que mergulham apenas na busca dessa paz espírito sem dar atenção ao lado material. Esquece-se de equilibrar luz (aquilo que está consciente, inclusive a busca por iluminação segundo alguns padrões) e sombra (tudo aquilo que não está tão consciente, inclusive impulsos e instintos, que nem sempre são negativos).

Há ainda aqueles que buscam sua paz por meios dogmáticos e terminam encontrando muito mais ilusões, medos e prisões de consciência do que paz de espírito, mas esse é tema para outros textos.

Toda busca com visão dual tende a cair nos extremos, e os extremos não geram equilíbrio interior, não trazem paz de espírito. A felicidade depende de equilíbrio. Para que isso seja alcançado, não pode haver nenhum apego a posses de coisas, a supostas posses de pessoas, a desejos, a expectativas, ao próprio corpo, ao próprio eu; não pode haver apego a nada, nem ninguém.

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Aqueles que tomam conhecimento da reencarnação pelas vivências espirituais têm mais facilidade nessa busca de desapego, mas, mesmo eles, em sua grande maioria, não conseguem desapegar, pois carregam padrões muito arraigados de inúmeras vidas, dos seus ancestrais, transmitidos no DNA pelos pais, incutidos socioculturalmente e assim por diante. Por mais que a ciência ainda não comprove claramente, todos esses registros definem o que o indivíduo vai ser, como vai pensar, sentir-se e comportar-se.

Um trabalho profundo com meditação, estudos, práticas, terapias e outras ferramentas precisa ser realizado para que o ser humano desapegue de tudo e viva com mais liberdade. Desapegar não é desgostar. Desapegar é não depender. É possível gozar e usufruir de tudo sem apegar-se. Relacionar-se e deixar a pessoa ir ser feliz com outra, mantendo a felicidade, que está na paz interior de não depender de algo ou alguém para continuar em plenitude é algo que quase ninguém na humanidade atual consegue fazer.

Ter momentos de luxo e depois momentos de simplicidade. Ter momentos em que está com mais poder e outros com menos. Ter momentos em que mais pessoas dão atenção e outros em que menos pessoas dão atenção. A vida é uma constante transitoriedade, e isso acontece exatamente para que possamos aprender estando nas mais diferentes posições e assumindo as mais distintas perspectivas.

A felicidade é aquele estado de paz de espírito, de equilíbrio emocional e mental, construído ao longo do tempo e com trabalho interior, que consiste em uma grande capacidade de ver o lado agradável das pessoas, coisas e situações, e isso é amar. É uma grande flexibilidade para mudar os planos, capacidade de adaptação, que não permite nenhuma surpresa abalar aquilo que existe de mais importante: a serenidade interior, a tranquilidade, o olhar o mundo com beleza sempre compreendendo que cada um passa pelo que precisa para o seu aprendizado.

Para que estejamos cada vez mais conectados com a nossa essência, um passo também essencial para uma felicidade constante, é necessário que hajamos muitas vezes de modos pouco racionais, seguindo mais o sentir, a intuição, porém isso dá muito medo na maioria das pessoas, que são controladoras e medrosas. Esse é, no entanto, um tema para o próximo texto.

*Marcos de Aguiar Villas-Bôas é autor do livro “Luz, sombra, dualidade, unificação: a cura para todos os males”, a ser publicado em setembro de 2019. É terapeuta holístico, palestrante e escritor. 

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