Fome de Verdade, por Denise Paiva

A chegada da primavera, neste domingo, 21 de setembro, no Rio Janeiro, foi inesperadamente chuvosa com o poder de nos deter em casa, nos impelindo a ler e refletir. Chamou  minha atenção o artigo de Flávia Oliveira, no Globo, ”Valeu Betinho”, e também a informação da ONU  de que o Brasil está  excluído do Mapa da Fome.   Não consegui deter a “traição dos meus dedos” e toquei alguns telefones. Sim, precisei compartilhar e constatar o sentimento de que há de fato, no Brasil, uma grande fome: a fome de verdade.

Não temos mais  aquela realidade que o Presidente Itamar fez questão de divulgar numa histórica reunião ministerial em fevereiro de 1993, através de uma socióloga de carreira, sua conterrânea de Juiz de Fora, chamada Ana Peliano. Tiramos, até com certo receio (eu participei deste trabalho), das prateleiras quase extintas do IPEA um estudo lá existente que passou a se chamar Mapa da Fome, para efeitos de divulgação, tendo sido, posteriormente, adotado pela FAO.

Tal estudo revelou a estimativa de que 32 milhões de brasileiros passavam fome. Esta fome foi debelada, nos últimos 20 anos, por esforço conjunto de governo e sociedade, distribuição de cestas básicas, reforma agrária, Lei Orgânica da Assistência Social, universalização da alimentação escolar, programas de transferência de renda – como bolsa escola, bolsa alimentação e depois bolsa família –, mas especialmente pelo combate à inflação.

Em particular merece ser assinalada e reconhecida a grande mobilização social chamada Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, liderada pelo Betinho, que teve seu auge e existência vigorosa apenas no governo Itamar, na medida que o próprio Presidente ordenava a todo o governo, ministérios e empresas públicas, a se engajarem na luta contra a fome e a miséria  e assegurava  instrumentos e mecanismos necessários para tal.

A expressão maior politica e institucional da politica de combate à fome foi, todavia, o CONSEA, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar, instalado em 13 de maio de 1993 com a presença e as bênçãos de Dom Helder Câmara. O Conselho inaugura um modelo inédito de participação, com hegemonia da sociedade civil: 21 personalidades indicadas pelo Movimento pela Ética na Politica, principal protagonista do afastamento do ex-Presidente Collor, se organizaram ao lado de oito ministros de estado.

Foi uma época pungente de percepção da realidade, mudança de paradigmas, quebra de preconceitos, realizações em parcerias, mediação de conflitos. Imaginem o  agronegócio, representado por Ney Bittencourt, da Agroceres, ao lado de Plinio Arruda Sampaio. Imaginem CNA, CNC, CNI conversando e definindo pautas comuns com a Contag, MST, CUT.  Construímos no governo Itamar, especialmente no âmbito do CONSEA, um espaço de convivência democrática, respeito às diferenças, explicitação e superação de contradições que elevaram, no início dos anos 90, o padrão civilizatório do Brasil , a autoestima dos brasileiros, bem como o desejo e a experiência de participar direta e ativamente  da construção da cidadania e do futuro do Brasil, embalado no sonho real da participação popular

Tive a honra e o desafio, por decreto presidencial, de acumular minha função de Assessora de Assuntos Sociais da Presidência da República com a  de  coordenadora do CONSEA, ao lado de seu presidente, o incansável e competente bispo católico Dom Mauro Morelli – um ícone na luta pelos direitos humanos e inclusão social na Baixada Fluminense.

Vivi tão intensamente esta experiência que escrevi um livro, Era outra história, contando com o incentivo e o apoio de Itamar para realização e lançamento em 2009, na Universidade Federal de Juiz de Fora, por ocasião do aniversário de 15 anos do Plano Real.  O livro, editado pela Fundação Astrojildo Pereira, retrata os principais personagens dessa ”aventura democrática” e ainda pode ser encontrado na livraria da referida Universidade.

A figura do Betinho foi de fato central e até muito mais do que simbólica, como alguns preferiam definir. Ele foi de fato o que restou como emblema, embora devamos lembrar que alguns faleceram em profunda mágoa, como nosso querido Jamil Haddad, um dos personagens influentes no CONSEA, como ministro e como parlamentar.

O Governo Itamar, breve e integro, foi para o limbo da história, se não para o lixo da história. Seus feitos não foram atribuídos a ele nem aos seus auxiliares mais próximos, chamados pejorativamente de República do Pão do Queijo ou de “pífios”.

Na verdade, Betinho entra na história, quando a história já tinha um intenso desenrolar. Este desenrolar teve início com a Frente Nacional de Prefeitos, liderada pela então Prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, ainda em novembro de 1992, que traz para o governo propostas concretas e emergenciais de combate à fome e de inclusão social.

Ainda na interinidade, Itamar se contrapôs ao discurso neoliberal da modernidade e indagou: “Que modernidade é esta que produz tanta fome e tanta miséria?”. Fez uma convocação instigante e  agregadora pelo impeachment da fome e pela ética nas prioridades das politicas públicas, propostos por Cristovam Buarque.

Cristovam, então reitor da UNB e depois integrante do CONSEA, trouxe para nós a experiência do Núcleo de Combate à Fome na UNB, traduzida num jornal em que, em grandes letras, estava escrito: FOME VERGONHA NACIONAL.

Entretanto, faz-se importante recordar o fato político antecedente mais importante, que se deu ainda em janeiro de 1993: o encontro Itamar e Lula.  Este encontro, precedido de alguns percalços, só aconteceu pelo empenho e habilidade politica de Pedro Simon, que contou com a colaboração de Eduardo Suplicy. Suplicy, autor da lei de Renda Mínima,  recém-aprovada no Congresso, lutava para que ela se tornasse de fato  politica pública governamental de combate à fome.

Naquela histórica reunião, Lula apresentou a Itamar a proposta de combate à fome do governo paralelo do PT, coordenada por José Graziano, hoje na FAO. Itamar, por sua vez, apresentou um documento sobre aquilo que já vinha sendo feito, inclusive com a incorporação das propostas da Frente Nacional de Prefeitos, já em andamento e coordenadas com seu ministério.

Daquela reunião resulta a decisão da elaboração de um Plano de Ação contra a Fome e a Miséria, a ser formulado por um pequeno grupo com representantes do governo e da sociedade, sob a coordenação da ministra do Planejamento Yeda Crusius. Lula indica Betinho como representante da sociedade civil, e Itamar indica minha pessoa. Iniciamos os trabalhos. Betinho indica Dom Mauro Morelli,  e eu indico Ana Peliano, coordenadora de Politica Social do IPEA, e Josenilda Caldeira Brant, presidente do INAN (Instituto de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde)

Itamar convida Betinho para presidir o CONSEA. Betinho alega problemas de saúde e pede apoio para articular e animar a ação da sociedade civil, que Dom Luciano Mendes de Almeida batiza de Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida.

Em 24 de junho de 1993, é lançada oficialmente em Rede Nacional de rádio e TV a Ação da Cidadania. Em horário reservado pela Radiobrás para uma fala do Presidente da Republica, surgem, inédita e inesperadamente, dois representantes da sociedade brasileira, Betinho e Dom Mauro, convocando a cidadania brasileira a se engajar na luta contra a fome e a miséria. Tal quebra da liturgia do poder gerou muitas tensões internas e solavancos juntos aos que a defendiam nos próprios desvãos palacianos.

Ações tipicamente de governo; ações em parceria, articuladas e efetivadas pelo CONSEA; e ações autônomas e suprapartidárias da cidadania, animadas por Betinho com suporte em organizações  como IBASE, FASE, INESC e tantas outras, formaram um tripé, que mereceu o aplauso e se tornou o modelo de intervenção não só para a FAO, mas todos, repito, todos os organismos da ONU, em moção divulgada ao final do mandato de Itamar.

Itamar, o breve, deixa o governo sob um clima de indignação de muitos que desejavam que ele devesse ter buscado a reeleição em função dos altos e inesperados índices de aprovação. Itamar em pouco tempo foi reconhecido pelo exemplo de governabilidade sem barganha, lisura, simplicidade, combate à inflação e politicas sociais que colocaram o ordenamento social previsto na Constituição de 88 na ordem do dia para todos os brasileiros.

Até hoje fico a me indagar: a polarização entre PSDB e PT, que tomou conta do Brasil nos últimos 20 anos, terá jogado a experiência do governo Itamar no limbo da história? Esta polarização insidiosa é que nos mata dia a dia? Esta pergunta eu compartilho com alguns ministros e representantes da sociedade civil partícipes daquela experiência, testemunhas e protagonistas daquele tempo que foi, de fato, um tempo de “Nova Política”. Com eles, a palavra!

Se fomos capazes de enfrentar e debelar  a fome de “pão” e a inflação,  podemos e devemos debelar a fome de verdade para que não sejamos canibais da nossa própria história!

Rio de Janeiro,  21 de setembro de 2014.

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14 comentários

  1. Itamar
    Jah que falamos em Betinho.
    Jah viu filho ( FHC) fazer pai (Itamar) rico?
    Dito antigo.
    Acredito muito mais no movimento social das esquerdas reprimidas e do seu retorno ao Brasil e a liberdade depois da ditadura do que a simples governancia. Estes dialogos e movimentos foi capitado por alguns que simplesmente eram politicos sem vinculos com a luta social.
    Como os choques economicos constantes ate acerta. O paciente jah nao reagia e os choques passaram a ter seus efeitos como a moeda.
    Querer comparar a governabilidade do PSDB da epoca eh reagir contra o fim desta forma politica e partidaria. Nao contribui sem levantar o outro lado da politica. Ninguem nega o momento politico e os primeiros passos da democracia com testes da constituicao com o Sarney, Color e Itamar e seus pontos relevantes e com a tentativa da destruicao politica e social de FHC. A historia vai ficando mais clara com o passar dos anos. Mais que com Itamar foi pior do que eh hoje foi. Aliais o passado sempre sera base para o futuro melhor e assim supoe a natureza e a ciencia.

  2. Parabéns Denise,você com este

    Parabéns Denise,você com este texto maravilhoso coloca a verdade ao alcance de todos.

    A fome da verdade começa  a ser saciada e breve ,muito breve ,ela estará oa alcance de toda a população brasileira que ,normalmente ,através de uma mídia insidiosa transmite tantas mentiras que ,aparentemente ,se transformam em falsas verdades ,mas felizmente com textos como este ,as mentiras são desmascaradas e a verdade surge com toda nitidez.

  3. Calma, entendemos que o que a

    Calma, entendemos que o que a senhora quer eh o reconhecimento. Uma sugestao seria pedir para Dilma ir ao ar da destaque para as acoes supra citadas, dando nomes aos bois. Calma…calma.

  4. A autora do texto cometeu um

    A autora do texto cometeu um pecado mortal e sera cobrada pelo peleguismo por isso.

    Ela teria que ter dito que o Brasil foi descoberto em 2003.

    Que a fome só existiu ate 2003.

    Que o Real ( que o lula chamava de estelionato eleitoral ) foi invenção do PT

    Que o mundo só começa sua era de civilizaçao a partir de 2003.

    Antes de 2003 não havia nada, era o caos, o vazio, e então veio o Lula e o Brasil começou a existir…

     

    • kkkkkkkkkkkk. Você tá com

      kkkkkkkkkkkk. Você tá com inveja porque a autora citou o importante fato da articulação entre Lula e Itamar? Pra você ver, ela acabou confirmando que Lula e o PT estão nessa luta desde o início, junto com Itamar, e conseguiram dar continuidade, apesar daquele interregno de 8 anos. Pena que ela esqueceu aquela mentira oficializada pelo PSDB de que FHC é o pai do Real né? Como se diz aqui em Pernambuco: cuidado para não se suicidar com um mói de coentro.

  5. Por motivos de respeito à

    Por motivos de respeito à história seria realmente interessante que o governo atual fizesse o registro do trabalho de todas essas pessoas. Tenho visto nas redes apenas a referência ao nome de Betinho, que acabou sendo o ícone desse movimento.

    Mas não devemos nos esquecer de uma coisa: não permitir que os cidadãos morram de fome é obrigação. O lado importante da divulgação sobre os resultados é deixar comprovado que não precisávamos ser um país de famintos e que só o que faltava era, de fato, política pública para isso. Se esses 32 milhões tivessem sido deixados ao sabor do mercado estariam mortos. Isso é que tem que ficar muito claro: quais governos assumem ou não esse tipo de política e quais os que preferem deixar a mão invisível tirar a comida da boca das crianças.

  6. Verdades são perspectivas

    Minha querida;

    na ânsia de ver contada toda a história, nos esquecemos dos detalhes!
    que tem gente de má vontade com o PT sabemos, desde a Rede Globo, passando por artistas doloridos com a Ana de Holanda… e por aí vai.

    nenhum governo muda uma sociedade apenas juntando meia dúzia de intelectuais!

    como ia dizendo, um governo sem lastro na sociedade como foi o de Itamar, sem partido de inserção na sociedade como foi o de Itamar…
    tanto que o Plano Real não é atribuído ao seu goevrno, e sim ao governo paralelo de FHC dentro de seu próprio governo…

    aliás, o que mais cresceu nos governos de FHC, foram sem dúvida o desemprego, a dívida do Brasil, a subserviência ao FMI, e a fome.

    mas, houve algo de positivo, pois junto a todos esses índices vergonhosos, e nefastos, a militância petista e outros não petistas, mas contra o Neoliberalismo, fizemos crescer a SOLIDARIEDADE, nos milhões de comites contra a fome e pela vida, Brasil afora!

    então, quem fez a campanha contra a fome e pela vida, na sociedade no meio do povo, não foi também o Betinho de porta em porta.

    foram petistas e mais petistas em cada rua, em cada bairro, lhe digo como:

    organizávamos junto às igrejas católicas e evangélicas (mais as católicas), e junto aos regionais de Direitos Humanos, nas portas de fábrica, ns associações de moradores, nos movimentos populares, nos conselhos populares de Saúde, nos Clube de Mães (remanescentes), nos sindicatos, nos mandatos petistas, etc…

    os comitês por todos as vilas e todos os bairros, por todas cidades, por todos estados, por todo Brasil; com Lula a frente, e assim, com todo PT.

    muito antes de Lula ser vitorioso na eleição em 2002, nós estávamos, todos petistas empenhadíssimos, e fazendo a ,luta contra a FOME!

    eram grupos e mais grupos…

    afinal, estávamos cansados de ver notícia na TV (lembro-me bem do Fantástico), sobre os “flagelados da fome”.

    e lembro-me bem de uma mãe que serviu sopa de papelão aos seus filhos no sul do país.

    e no nordeste era muito comum até o governo de Lula, ver as crianças e o gado comendo Palma (cactos), e com pobreza extrema, usando ossinhos de animais como brinquedos.

    sendo assim, acho melhor reconsiderar e vamos somar as verdades, uma vez que ela parece não têm dono, e sim perspectivas!

    mas, vamos honrar quem pisou barro, quem deixou casa e filhos, quem ignorou finais de semana, feriados e não recebeu salário algum, vamos honrar o PT e todos os militantes além do Lula, é claro!

    petistas, que fizeram essa luta fora do institucional e depois com Lula no institucional, vencendo-a!

    tem muito mais Carapanã vingativo do que parece ter!  

    #EuSóAcho

  7. Prezada Denise

    Quem jogou o governo Itamar no limbo da historia não foi o PT ou uma polarização entre partidos. Quem fez tudo para que Itamar desaparecesse da grande foto da familia do plano real e em consequência de tudo o que fez em seus dois anos de mandato, foi o PSDB com todo o apoio da imprensa, grupo Globo sempre à frente, e em especial, de Fernando Henrique Cardoso, que para todos os efeitos tornou-se o « pai » do plano real.

    Afora isso, muito bem lembrado esse tempo, em que o então presidente Itamar conseguiu tirar o Brasil daquele buraco negro em que Collor nos deixou. Faz muito bem em citar nominalmente todos que contribuiram para o inicio do combate à fome e à miséria no Brasil. Essa luta esta avançando e vamos agora lutar também para que a Educação avance não apenas em quantidade, mas em qualidade em todo o Brasil. Essa sim, vai ajudar a debelar a fome da verdade. 

    • Pois é… muito esquisito o

      Pois é… muito esquisito o último parágrafo, meio descolado do que ela vinha conduzindo, joganda a platéia pro discurso vazio da Marina…

      E outra, é muito lindo toda esta história, sabemos que a estabilização da moeda é fator preponderante para evitar mais gente com fome, e sabemos o quão importante foram os primeiros passos da mobilização da sociedade contra este mal. Mas como confirmadíssimo pelo nosso amigo Leonidas aí abaixo, somente a partir de 2003 ela se tornou política efetiva de Estado, envolvendo ações programáticas de vários Ministérios, botando os municípios para trabalhar junto e, assim, somente nos últimos 10 anos podemos apresentar avanços significativos de redução da fome e da miséria…rsrsrs.

  8. Eu não acredito que a “fome

    Eu não acredito que a “fome de verdade” será saciada. Nossa história, e a história da civilização, continuará sendo canabalizada. Poucos saberão a verdade e morrerão com ela.

    Assim sempre foi, e assim será!

     

  9. Eu não acredito que a “fome

    Eu não acredito que a “fome de verdade” será saciada. Nossa história, e a história da civilização, continuará sendo canabalizada. Poucos saberão a verdade e morrerão com ela.

    Assim sempre foi, e assim será!

     

  10. Fome de Verdade

    Adorei Nassif…. VALEU!… Jamais pensei que uma reflexão minha pudesse despertar sua atenção e provocar comentários tão interessantes, que enriquecem e até recriam a história. Abs. Denise

    PS. Uma curiosidade. Como vc. teve acesso ao meu artigo?

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