Guerra contra o Irã: um conflito ideológico, energético e civilizacional
por Mohammed Hadjab
A atual escalada militar contra o Irã não pode ser compreendida como uma simples resposta de segurança ou como um episódio isolado das tensões no Oriente Médio. Ela se insere em uma dinâmica ideológica, geopolítica e estratégica mais profunda, sustentada por uma convergência de interesses entre uma direita israelense radicalizada e determinados círculos de poder nos Estados Unidos.
Reduzir esse conflito a uma reação defensiva diante de uma suposta “ameaça iraniana” significa ignorar as forças políticas e doutrinárias que estruturam essa confrontação.
1.Uma coalizão israelense estruturada em torno de um projeto territorial
O governo liderado por Benjamin Netanyahu apoia-se em uma coalizão que inclui partidos ultranacionalistas e religiosos como:
- Otzma Yehudit
- Sionismo religioso
- Noam
Essas formações defendem uma visão maximalista do território israelense, inspirada no conceito do “Grande Israel”, que propõe a extensão da soberania para além das fronteiras internacionalmente reconhecidas.
O Estado de Israel não possui uma constituição formal única, mas sim um conjunto de Leis Fundamentais que não definem explicitamente fronteiras definitivas. Essa ausência de delimitação constitucional clara mantém a questão territorial em aberto, permitindo que determinados setores políticos inscrevam seu projeto expansionista em uma continuidade jurídica e ideológica.
Esse projeto vai além da questão palestina. Ele se insere em uma visão regional de dominação estratégica destinada a neutralizar de forma duradoura qualquer potência capaz de contestar a hegemonia israelense — sendo o Irã, atualmente, o principal alvo.
2.Um duplo objetivo: petróleo e hegemonia
Por trás da retórica de segurança, dois objetivos centrais se destacam.
Primeiro objetivo: o controle energético.
O Irã é um dos principais produtores de petróleo do mundo e ocupa uma posição geoestratégica crucial, especialmente em torno do Estreito de Ormuz, por onde transita uma parte significativa do petróleo mundial. Uma desestabilização duradoura do Irã altera profundamente o equilíbrio energético internacional e reforça a capacidade de influência das grandes potências.
Segundo objetivo: o avanço do projeto do “Grande Israel”.
O enfraquecimento estratégico do Irã reduz a capacidade de resistência regional diante das ambições territoriais israelenses. Nessa leitura, a confrontação atual não seria apenas preventiva, mas estruturante: ela visaria redesenhar de forma duradoura o equilíbrio de forças no Oriente Médio.
3.A influência do sionismo cristão e dos lobbies americanos
Nos Estados Unidos, essa dinâmica encontra apoio ideológico nos setores neoconservadores e no sionismo cristão, além de poderosos grupos de influência como:
- American Israel Public Affairs Committee
- Christians United for Israel
- Zionist Organization of America
O alinhamento observado durante a presidência de Donald Trump — retirada do acordo nuclear com o Irã e reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel — fortaleceu essa convergência ideológica.
É fundamental, no entanto, distinguir o povo americano de uma decisão executiva específica. Os Estados Unidos não se reduzem a uma administração. Uma ação militar de grande escala sem a aprovação explícita do Congresso levanta uma questão democrática essencial. Apresentar essa guerra como expressão unânime da “América” é uma simplificação indevida.
4.O caso Netanyahu: fragilidade judicial e radicalização política
A figura de Benjamin Netanyahu é central nessa dinâmica.
No plano interno, ele responde a processos judiciais em Israel por fraude, abuso de confiança e corrupção. Esses casos dividiram profundamente a sociedade israelense e provocaram mobilizações significativas.
No plano internacional, procedimentos também foram iniciados em instâncias jurídicas relativas à condução de operações militares israelenses, especialmente no que diz respeito ao direito internacional humanitário.
Essa situação coloca o primeiro-ministro israelense em uma posição paradoxal: politicamente fortalecido por uma coalizão radicalizada, mas juridicamente contestado e fragilizado.
5.Um tratamento midiático assimétrico
Outro elemento central do conflito reside na construção midiática da narrativa.
O Irã é frequentemente apresentado nos grandes meios de comunicação ocidentais como um regime monolítico e irracional. No entanto, o país possui uma Constituição adotada por referendo em 1979, um presidente eleito, um parlamento (Majlis), um poder judiciário estruturado e instituições de supervisão como o Conselho dos Guardiões. Trata-se de um sistema híbrido, que combina dimensão eletiva e enquadramento religioso sob a autoridade do Líder Supremo.
Isso não significa que corresponda aos padrões liberais ocidentais, mas trata-se de um Estado com uma arquitetura constitucional e institucional complexa. Essa realidade raramente é apresentada com nuance.
Em contraste, monarquias absolutas do Golfo, sem sistema eletivo comparável, raramente são descritas prioritariamente a partir de sua ausência de democracia quando são aliadas estratégicas do Ocidente. Essa assimetria alimenta a percepção de um duplo padrão baseado em alianças geopolíticas, e não em princípios universais.
6.Os dirigentes europeus e a narrativa dominante
Diversos líderes europeus — Emmanuel Macron, Keir Starmer e Friedrich Merz — adotaram uma retórica que apresenta o Irã como principal fator de instabilidade, minimizando a responsabilidade dos ataques iniciais.
Essa postura contribui para consolidar uma narrativa unilateral, na qual o agressor se torna vítima e qualquer resposta iraniana é analisada isoladamente de seu contexto.
7.Uma escolha civilizacional
Para além das considerações militares imediatas, esse conflito levanta uma questão fundamental: que ordem mundial queremos?
Um mundo multipolar baseado na soberania dos Estados, no respeito ao direito internacional e na coexistência das civilizações?
Ou um modelo dominado pela lógica da força, pelo excepcionalismo e pela imposição unilateral de uma visão territorial e ideológica?
A confrontação atual ultrapassa o âmbito regional. Ela cristaliza o embate entre duas visões de mundo. E por trás dos bombardeios e das declarações diplomáticas, pode estar em jogo uma recomposição duradoura do equilíbrio internacional. Nessa batalha, o Brasil deveria escolher claramente a qual lado deseja pertencer.
Mohammed Hadjab, analista em Relações Internacionais.
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Rui Ribeiro
5 de março de 2026 8:17 am‘O Irã cruzou todas as linhas vermelhas’: países do Golfo Pérsico avaliam como reagir aos ataques ‘traidores’ do Irã.
Então os Países do Golfo Pérsico disponibilizam seus territórios para instalação de bases militares estadunidenses de onde partem as agressões ao Irã e o Irã não pode se defender?
Traídores são os países do Golfo Pérsico que se disponibilizam seus territórios para bases militares estadunidenses agredir países cujos governos são indesejados por Washington.
Rui Ribeiro
5 de março de 2026 10:45 amU$A e U$rael devem estar bombardeando os países “amigos” do Ocidente a fim de culpar o Irã e colocar os tais países contra a República Islâmica.