Hannah Arendt e o resgate da dignidade humana, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Há quase dois anos nossa dignidade humana está sendo confiscada. A oposição reage como pode, mas o estrago feito à imagem dos brasileiros diante de si mesmos e do Brasil na arena internacional é inevitável.

Hannah Arendt e o resgate da dignidade humana

por Fábio de Oliveira Ribeiro

A ditadura militar confiscou nossas liberdades políticas, mas foi incapaz de confiscar a valentia de uma geração que a combateu com audácia, arte e até com armas de fogo. Fernando Collor confiscou nosso dinheiro e foi afastado da presidência por um Impeachment doloroso que destroçou até mesmo a família dele. Sempre que aparece em público e abre a boca, Jair Bolsonaro consegue confiscar algo muito mais valioso do que a liberdade e o dinheiro.

Há quase dois anos nossa dignidade humana está sendo confiscada. A oposição reage como pode, mas o estrago feito à imagem dos brasileiros diante de si mesmos e do Brasil na arena internacional é inevitável.

Nada é mais perigoso do que o ódio, exceto a vingança. Tudo o que somos obrigados a reprimir para viver em sociedade é menos destrutivo do que a impossibilidade de consumar a vingança quando não conseguimos deixar de odiar um líder político odiável. Bolsonaro faz questão de ser odiado. Ele se diverte confiscando o princípio mais precioso inscrito na Constituição Cidadã e espalhando uma pestilência que é pior do que a pandemia.

A Justiça é incapaz de fulminar esse criminoso? O Estado enfraqueceu tanto que se tornou um simulacro nas mãos de um simulador? Até quando a Lei continuará a sabotar sua própria essência civilizatória?

Num debate sobre o filme Hannah Arendt, a atriz Barbara Sukova cita a pensadora que interpretou:

“Living in a totalitarian state is like being interned in a mental institution where everyone has the same psychosis and just don’t know anymore what is the truth.”
https://www.youtube.com/watch?v=kGBdqLU5OhQ&feature=youtu.be

Tradução: “Viver num Estado totalitário é como estar internado numa instituição psiquiátrica em que todo mundo tem a mesma psicose e ninguém mais sabe o que é a verdade.”

Desde que Bolsonaro tomou posse na presidência, nós lemos a Constituição Cidadã e não sabemos mais quais dispositivos dela são verdadeiros ou não. Os brasileiros estão sendo condenados a experienciar a mesma psicose deformou os pensamentos e sentimentos de um líder político que sonha criar um Estado totalitário.

Leia também:  O dia em que Pepe Escobar descobriu o Brasil, por Rogério Mattos

Pior, me parece evidente que Bolsonaro já conseguiu realizar uma façanha: ele transformou o Brasil num imenso Sanatório em que a dignidade humana não tem qualquer valor institucional específico. Doente, ele faz questão de contaminar as pessoas à volta dele. E ri dos procuradores e juízes incapazes de fazer cumprir a Lei Penal que criminaliza essa conduta.

O comum agora é contar os corpos, pois o direito à vida deixou de ser uma realidade? A regra agora é admirar a baixeza do mito ou se rebaixar ao nível dele para atacá-lo fazendo-o exultar ao se mostrar em público cada vez menos humano e mais repugnante? O confisco da sanidade mental da população levará à construção de um país melhor ou povoar cemitérios maiores?

Na noite de terça-feira, André Mendonça usou o Twitter para informar que mandou a PF instaurar um Inquérito Policial contra o colunista da Folha de São Paulo, Helio Schwartsman https://jornalggn.com.br/noticia/ministro-manda-pf-investigar-colunista-da-folha-que-torce-pela-morte-de-bolsonaro/. Ao que parece, o serviçal do tirano zombeteiro que deliberadamente coloca em risco as vidas de milhões de brasileiros acredita que a segurança do patrão dele é mais importante do que a dos outros cidadãos.

O abuso cometido pelo Ministro da Justiça me parece evidente. Primeiro porque a Lei de Segurança Nacional é incompatível com a Constituição Cidadã. Segundo porque a Lei Penal pune o ato criminoso e não os atos preparatórios (exceto quanto o próprio ato preparatório for tipificado como crime, o que não é o caso). Terceiro porque torcer pela morte de alguém não é crime, especialmente quando o candidato a defunto coloca em risco sua vida e as vidas de outras pessoas desafiando as recomendações da Organização Mundial de Saúde.

No Brasil ninguém tem direito a vida, exceto Bolsonaro? Na verdade essa questão pode ser colocada de outra maneira. Como um tirano pode se sentir seguro se suas ações absurdas e potencialmente criminosas forem reportadas de maneira corajosa e irônica pela imprensa? A agressão do Ministro da (in)Justiça contra o colunista da Folha de São Paulo é mais uma quartelada encenada pelo capitão expulso do Exército porque era vagabundo, desonesto, mentiroso, ambicioso e terrorista.

Leia também:  Rússia afirma estar à frente dos rivais na corrida pela vacina contra Covid

Sabe com quem você está falando… No país da carteirada, Bolsonaro não chega a ser novidade um Ministro da (in)Justiça mandar a PF abrir um Inquérito para ameaçar o jornalista e cercear a liberdade de imprensa. O problema: a vigência da Lei 13.869/2019 http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13869.htm. Importante notar que o Ministro também pode ter cometido um abuso ao usar o Twitter para comunicar o ato administrativo abusivo que praticou.

Toda noite quando coloco a cabeça no travesseiro fico ruminando o ódio durante algum tempo. Depois faço aquilo que aprendi a fazer com Hannah Arendt: começo desidratar o sentimento mórbido com argumentos racionais.

Não compete a mim decidir quem deve viver ou morrer. A vida ou a morte de um líder não é capaz de modificar o contexto político em que ele foi criado. A abreviação violenta do mandato Bolsonaro pode acarretar o surgimento de um líder ainda pior do que ele. Nenhuma ação minha é inevitável, pois sou livre inclusive e principalmente para não fazer absolutamente nada. Todo fenômeno político é passageiro. O bolsonarismo desaparecerá se o ódio que ele inspira for combatido com humor. Os danos que o mito causar ao sistema constitucional podem ser reparados. O Brasil era Brasil antes dele nascer e certamente será Brasil depois que ele morrer naturalmente.

Esse pequeno exercício me ajuda a pacificar minha consciência e recuperar a dignidade humana que foi confiscada durante o dia pelas ações repreensíveis e impunes de um presidente insano, desumano e repugnante. Compartilho-o com o leitor porque suponho que ele seja útil.

Leia também:  A velha exploração do trabalhador nas novas relações de trabalho, por Carolina Maria Ruy

Além disso, é cediço o ódio e o desprezo que Jair Bolsonaro e seus ministros evangélicos dedicam à Filosofia. Se pudessem, eles fuzilariam os filósofos e fariam fogueiras com os livros deles. Portanto, nesse caso acicatar a impotência administrativa dos serviçais do clone eldoradense de Adolf Eichmann será minha vingança.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora