14 de junho de 2026

O mito da escassez: quando a gestão ignora que água também se produz, por Hugo de Oliveira

Empresas de saneamento têm a obrigação de produzir disponibilidade hídrica, o que vai muito além do tratamento químico da água captada.
Reprodução Sabesp

Diretor da Sabesp afirma que empresa trata, mas não fabrica água, destacando visão limitada da gestão hídrica.
Perdas de água tratada chegam a 29,4% por vazamentos, enquanto retirada dos reservatórios aumentou 10% após desestatização.
Concessionária deve investir em infraestrutura verde, proteger mananciais e melhorar manutenção para garantir abastecimento.

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O mito da escassez: quando a gestão ignora que água também se produz

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por Hugo de Oliveira

Por que a segurança hídrica depende mais de decisões estruturais do que da chuva

Uma declaração recente do diretor regional da Sabesp, Marco Barros, reacendeu um debate essencial sobre segurança hídrica: “Nós não fabricamos a água, a gente trata a água”. A afirmação é tecnicamente correta, mas incompleta. No campo da gestão pública e ambiental, ela revela uma visão restrita sobre o papel de uma concessionária responsável pelo abastecimento de milhões de pessoas.

De fato, não se “fabricam” moléculas de H₂O em escala industrial. Ainda assim, empresas de saneamento modernas têm a obrigação de produzir disponibilidade hídrica, o que vai muito além do tratamento químico da água captada. Essa produção ocorre por meio de políticas contínuas de preservação ambiental, recuperação de nascentes e proteção de áreas de recarga dos aquíferos.

Florestas e matas ciliares desempenham papel central nesse processo. Elas aumentam a infiltração da água no solo, alimentam os lençóis freáticos e ajudam a regular a vazão dos rios, especialmente em períodos de estiagem. Sem essa cobertura vegetal, a chuva escorre rapidamente pela superfície, carrega sedimentos, acelera o assoreamento dos reservatórios e eleva os custos de tratamento.

Depender exclusivamente das chuvas, sem investir na capacidade do território de reter e armazenar água, é uma estratégia frágil — e conhecida.

Eficiência que escorre pelo ralo

O debate se torna ainda mais sensível quando se analisam os dados da operação. A eficiência da rede é hoje uma das formas mais rápidas e econômicas de ampliar a oferta de água. No entanto, indicadores recentes apontam para um cenário preocupante.

No primeiro ano após a desestatização, a retirada de água dos reservatórios aumentou cerca de 10%, passando de 66 m³/s para 72 m³/s — um crescimento que não encontra explicação direta nem no aumento populacional nem na expansão da rede.

Ao mesmo tempo, aproximadamente 29,4% de toda a água tratada continua sendo perdida em vazamentos antes de chegar ao consumidor. Esse desempenho contrasta com os resultados financeiros: apenas no segundo trimestre de 2025, a companhia registrou lucro líquido de R$1,96 bilhão.

Especialistas do setor apontam que a elevação das perdas está associada à redução de equipes técnicas próprias, à terceirização de serviços essenciais e ao enfraquecimento da manutenção preventiva — decisões que tendem a maximizar resultados de curto prazo, mas comprometem a sustentabilidade do sistema.

Responsabilidade pública, não apenas financeira

Uma concessionária de saneamento não pode atuar apenas como intermediária comercial de um recurso finito. Seu papel é estrutural: proteger o ciclo hidrológico e garantir abastecimento contínuo e seguro. Isso envolve, no mínimo, três compromissos fundamentais.

O primeiro é o investimento em infraestrutura verde. Recuperar nascentes e matas ciliares não é um custo ambiental acessório, mas uma estratégia direta de produção de água.

O segundo é a proteção sanitária dos mananciais, evitando a contaminação que transforma o tratamento em um esforço químico extremo.

O terceiro é o zelo operacional: pedir economia à população enquanto bilhões de litros se perdem por falhas de manutenção é uma contradição difícil de justificar.

A água que chega às torneiras não depende apenas da chuva. Ela resulta de solo bem cuidado, florestas preservadas e redes eficientes. Enquanto a gestão se limitar a administrar volumes e balanços financeiros, crises hídricas continuarão sendo tratadas como fatalidades — quando, na verdade, muitas delas poderiam ser evitadas.

A Sabesp pode não fabricar água, mas é responsável por garantir que ela não desapareça no caminho.

Hugo de Oliveira – Economista e Associado do ONDAS

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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