Indústria de automóveis e a segurança nacional, por Luiz Alberto Melchert

A Engesa montou seus carros de combate com o máximo possível de peças de mercado, desde conjuntos de freio até motores e armas embarcadas.

Oferecido ao Exército, o DKW Candango foi rejeitado em favor do Jeep da Willys, por pior que este fosse

Indústria de automóveis e a segurança nacional

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Os acontecimentos de 8 de janeiro puseram a nu o verdadeiro abismo existente entre o poder das armas e a devida submissão ao poder civil. A indignação redundou em artigos que, entre outras coisas, advogam a extinção das Forças Armadas, posto que representam uma ameaça constante à democracia. Como mostra esta matéria, publicada originalmente no extinto Best Car WEB Site em 29/05/2020, pensar na extinção das FA é, no mínimo, ingênuo, quando não leviano. O que aqui se expressa pode ser estendido aos submarino nuclear, à Embraer com seu KC-390 e a parceria com a SAAB, envolvendo as três armas com a mesma intensidade e magnitude. Importante mesmo é tornar as Forças Armadas parceiras no desenvolvimento, sem acender nelas a ambição pelo poder. Este deve estar sempre nas mãos dos civis.

A empresa em que meu pai trabalhava teve um carro raríssimo, um Candango de capota dura. A meu ver, ele tinha inúmeras vantagens sobre o Jeep Willys. Era mais estável graças à suspensão independente nas quatro rodas e tração permanente, infinitamente mais econômico que o concorrente com seu motor antediluviano, mais macio e confortável, entre outras qualidades. O modelo foi oferecido ao Exército brasileiro, que o rejeitou prontamente, apesar de o alemão o ter adotado. Preferiu-se comprar o do concorrente estrangeiro, por pior que fosse, por mais que a empresa estivesse em estado pré-falimentar no país de origem. Ainda que produzido sob licença da Auto Union, que o fabricava com o nome de Munga, Vemag era uma empresa nacional e, sem dúvida, teria ido mais longe se o estado adquirisse seus veículos, o que jamais fez, seja para as polícias, seja para as forças armadas, sequer para uso oficial. Talvez, não se evitasse sua absorção por uma empresa estrangeira mas, sem dúvida, a aquisição seria por valor significativamente maior e o legado muito mais duradouro.

Não há um dia em que eu não diga  que o brasileiro não se conhece. Não temos a menor noção do nosso tamanho em âmbito geográfico, mercadológico e econômico. Temos ainda  menos noção de que é justamente o autoconhecimento que permite antever nossa importância na geopolítica. Quantos de nós sabemos que a distância entre São Paulo e Belém do Pará é a mesma que de Paris a Moscou? São ínfimos os que sabem que temos dezessete mil quilômetros de fronteira terrestre com treze países, números igualados somente pela Rússia, maior país do planeta. Há ainda 8.000 km de costa, somando-se 25.000 km a vigiar, sem contar os 60.000 km de rios de grande porte. Isso implica em que contar com carros nacionais para as mais diversas condições, blindados ou não, é imprescindível para nossa defesa, até para nosso poder de persuasão. Quando me refiro à defesa, não falo necessariamente em guerra ou ameaça externa, sem as deixar de lado. Refiro-me ao atendimento de nosso povo nos mais inóspitos rincões de nosso território.

Por cruel que possa parecer, o desenvolvimento autônomo de equipamento militar impulsiona fortemente a geração local de tecnologia. Para isso, criaram-se o Instituto Militar de Engenharia, no Rio de Janeiro, e Instituto Tecnológico da Aeronáutica, em S. José dos Campos. Esses institutos contribuíram fortemente para desenvolverem-se soluções tecnológicas concorrentes das adotadas pelas empresas de automóveis em âmbito mundial. Já tivemos essa noção nos tempos da Engesa e de Gurgel, quando nossas forças armadas, como deve acontecer em qualquer país desenvolvido, especificavam suas necessidades e punham o desafio a cargo de empresas nacionais, induzindo a avanços que, fatalmente, espalhar-se-iam pelo mercado civil. Poderíamos ter mantido isso com a Troller, depois adquirida pela Ford, desde que houvesse o mais mínimo interesse do Estado em manter a produção de veículos estratégicos nas mãos da indústria nacional. Resta-nos a Agrale com seu Marruá e alguns modelos de caminhões militares.

Alguns leitores podem dizer que sou contraditório, haja vista que repudio o protecionismo e defendo que temos de ser competitivos para nos manter no mercado. Ocorre que forças armadas bem equipadas fazem parte da competitividade. Pode ser que haja veículos militares muito mais modernos do que somos capazes de fabricar hoje, só que eles criam uma dependência politicamente administrada em peças de reposição, cuja contestação foi o motivo do sucesso dos blindados Engesa para consumo próprio e exportação.

Os produtores de equipamento bélico aliam-se aos seu próprios governos, pois a estratégia para impedir que os compradores se voltem contra os produtores é usar o máximo possível de componentes específicos em seus projetos. Dessa forma, basta um embargo comercial para que o comprador perca a capacidade bélica por falta de peças. A Engesa fez justamente o oposto. Como o Brasil não tinha inimigos e um oceano o separava dos seus compradores mais assíduos, ela  montou seus carros de combate com o máximo possível de peças de mercado, desde conjuntos de freio até motores e armas embarcadas. Dessa forma, os compradores minimizavam a dependência. Eles mesmos escolhiam seus fornecedores, adquirindo sobressalentes dos vizinhos ou aliados dispostos a furar quaisquer bloqueios. Durante a Guerra Irã-Iraque, os dois lados compravam produtos brasileiros.

Os que advogam que o mercado deve ser soberano e ditar o portfólio da indústria não levam em consideração a fragilização da nação, que, importando absolutamente todo o material de defesa, põe-se à mercê de aliados, geralmente volúveis consoante sua política interna, para o fornecimento dos mais simples itens de manutenção.

A dependência vai ainda mais longe, se considerarmos a necessidade de treinamento para manter e operar o equipamento. Nacionalizando-se a produção, de preferência, da cadeia inteira de suprimentos, a autonomia é muito maior, enquanto a exportação de material bélico, que não incorre em dependência, cria aliados, clientes fiéis para um largo portfólio, como aconteceu com os países árabes.

Patrulhar nossas fronteiras é um desafio hercúleo, que não pode depender somente de automóveis, mas principalmente deles. Elas vão de avenidas que dividem cidades como ponta Porã (MS) e Pedro Juan Caballero (Paraguai), ou Santana do Livramento (RS) e Rivera (Uruguai), até matas fechadas como a floresta amazônica, passando por cenários como os do Pantanal, que requerem veículos de altíssima tecnologia funcional ou embarcada.

Exército, Marinha e Força Aérea dependem de veículos terrestres, mais uns que outros em quantidade, mas todos com a mesma intensidade. Assim, se quisermos restaurar nossa capacidade tecnológica, como pretendem muitos, será forçoso retomar o papel das Forças armadas como gerador e difusor de tecnologia, visto que é essa uma de suas principais funções em tempos de paz que, esperamos, dure para sempre.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

2 Comentários

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  1. Não sei o que são radicalismos bobos. Mas a História mostra como o polo tecnológico militar foi liquidado sem qualquer alarde por parte de nossos militares. A Engesa, com seu tanque-trator, competia com os produtos dos EUA, com alta tecnologia embarcada mas ineficientes no deserto iraquiano ou no Saara. O desenvolvimento de uma indústria militar é decisão de garantir soberania nacional. Não é disso que os militares querem saber.

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