Lavajatismo à moda inglesa: promotoria quer novo julgamento porque não gostou do resultado do júri
Por Fábio de Oliveira Ribeiro
O The Filton Trial, comentado por mim no Jornal GGN há alguns dias teve uma evolução preocupante. Após ter sofrido uma derrota histórica, a promotoria inglesa decidiu inventar uma desculpa esfarrapada para submeter os réus a novo julgamento. Essa decisão levou uma organização não governamental que defende a instituição do júri e 6 deputados ingleses a escrever uma carta ao senhor Stephen Parkinson, Diretor de Acusação Pública – Serviço de Acusação da Coroa. Abaixo reproduzo a carta traduzida na íntegra:
“Filton Trial: novo julgamento é irracional e ilegal
Instamos Vossa Excelência a reconsiderar a decisão de submeter os seis réus do caso Filton Trial a um novo julgamento, sob a alegação de que tal decisão é irracional e ilegal.
Charlotte Head, Leona Kamio, Fatema Zainab Rajwani, Zoe Rogers, Jordan Devlin e Samuel Corner já cumpriram o equivalente a uma pena de prisão de quatro anos em prisão preventiva, apesar de o júri ter se recusado a considerá-los culpados de qualquer crime.
É evidente, pelos veredictos de inocência, que o júri, ao analisar as provas, concluiu que nenhum dos réus entrou no local com qualquer intenção violenta.
É errado, opressivo e contrário ao interesse público submeter a novo julgamento aqueles que já foram punidos com penas superiores a qualquer pena provável, mesmo antes de se considerar o artigo 52 da Lei do Tribunal Penal Internacional de 2001 (ICCA).
A omissão na investigação de atos acessórios ao genocídio
É indiscutível que o Governo de Israel está cometendo crimes que se enquadram nas disposições da Lei de Crimes Civis de Israel (ICCA), que integra o direito da Inglaterra e do País de Gales.
Ao determinar o alcance dessas disposições, os tribunais britânicos são obrigados, pelo artigo 50(5) da ICCA, a levar em consideração as decisões relevantes do Tribunal Penal Internacional (TPI) e podem também recorrer a outras jurisprudências internacionais. O TPI emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant, sob alegações de crimes de guerra e crimes contra a humanidade, posição reforçada pelas conclusões da Corte Internacional de Justiça e da ONU sobre os atos de genocídio de Israel.
O artigo 52 da ICCA criminaliza atos acessórios ao genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra, definidos com referência ao Estatuto do Tribunal Penal Internacional (TPI).
Há provas irrefutáveis de que funcionários britânicos e a Elbit Systems forneceram ao governo israelense inteligência, apoio militar e diplomático, em violação ao artigo 52 da Lei de Conduta Policial de Israel (ICCA).
O artigo 69 da ICCA tipifica como crime a omissão. No entanto, as autoridades policiais britânicas não agiram diante das provas de cumplicidade, deixando para os cidadãos preocupados a tarefa de preencher essa lacuna moral e legal.
Julgamento pela mídia e desacato ao tribunal
Tanto antes quanto depois do julgamento, aqueles com interesse direto no resultado buscaram influenciar o processo, apresentando alegações não comprovadas como se fossem fatos, descontextualizando-as e, sem terem ouvido as provas, condenando os veredictos do júri.
Enquanto o júri de Woolwich deliberava, o Daily Telegraph publicou uma manchete falsa, irresponsável e agora excluída, insinuando que os jurados poderiam ser presos por aplicarem sua consciência a um caso. Pedidos de acesso à informação expuseram tentativas tanto da Elbit Systems, principal fabricante dos drones usados para massacrar cidadãos palestinos, quanto do governo israelense, de interferir no processo penal.
Alguns desses casos de desacato ao tribunal já foram encaminhados ao Procurador-Geral. Em meio aos esforços cínicos e concertados para influenciar o resultado do processo e pressionar futuros júris, nenhum julgamento justo será possível.
Interesses particulares versus interesse público
O deputado Chris Philp, que lhe escreveu em 5 de fevereiro instando-o a se comprometer com um novo julgamento, omitiu o fato de ter se reunido com a Elbit Systems em abril de 2023 para discutir suas preocupações em relação à Palestine Action. Tampouco mencionou suas declarações públicas anteriores, nas quais afirmou como fato as alegações a serem julgadas pelo júri. Lord Walney, em sua crítica pública ao veredicto, omite a referência ao seu papel como lobista remunerado de empresas que representam as indústrias de petróleo e armamentos, bem como sua atuação anterior como presidente do grupo Labour Friends of Israel.
Em contrapartida, o público britânico está profundamente consternado com a fome e o massacre de civis em Gaza, e com aqueles que lucram com isso.
O suposto “problema das absolvições por júri” nos casos da Palestine Action, como alegado por Chris Philp, Lord Walney e outros, na realidade não é um problema, mas sim o funcionamento da democracia autêntica e da consciência pública, manifestada nos júris.
Sua decisão de submeter os seis réus de Filton a um novo julgamento é contrária ao interesse público e viola o artigo 52 da ICCA.
Instamos você a reconsiderar.
O deputado Chris Philp, que lhe escreveu em 5 de fevereiro instando-o a comprometer-se com um novo julgamento, omitiu o fato de ter se reunido com a Elbit Systems em abril de 2023 para discutir as preocupações da empresa em relação à Palestine Action. Tampouco mencionou suas declarações públicas anteriores, nas quais afirmou como fato as alegações a serem julgadas pelo júri. Lord Walney, em sua crítica pública ao veredicto, omite a referência ao seu papel como lobista remunerado de empresas que representam as indústrias de petróleo e armamentos, bem como sua atuação anterior como presidente do grupo Labour Friends of Israel.
Em contrapartida, o público britânico está profundamente consternado com a fome e o massacre de civis em Gaza, e com aqueles que lucram com isso.
O suposto “problema das absolvições por júri” nos casos da Palestine Action, como alegado por Chris Philp, Lord Walney e outros, na realidade não é um problema, mas sim o funcionamento da democracia autêntica e da consciência pública, manifestada nos júris.
Sua decisão de submeter os Filton 6 a um novo julgamento é contrária ao interesse público e viola o artigo 52 da ICCA.
Pedimos encarecidamente que reconsidere.
Atenciosamente,
Defend Our Juries
Deputado Shockat Adam
Deputada Sian Berry
Deputada Ellie Chowns
Deputada Carla Denyer
Deputado John McDonnell
Deputado Iqbal Mohamed”
O original da carta em inglês com notas de esclarecimento pode ser acessada na internet.
Segundo minha fonte na Inglaterra, nos casos envolvendo a Elbit a promotoria parece estar determinada a submeter os réus absolvidos a novos julgamentos até que um veredito de condenação seja proclamado pelo júri. Isso é muito irregular, porque o resultado do júri é soberano e o julgamento só deve ser anulado caso tenha ocorrido alguma nulidade processual grave.
No Brasil a promotoria não pode insistir na realização de novo júri só porque não gostou do resultado ou porque grupos de pressão poderosos (empresariais, políticos e jornalísticos) exigem a condenação dos réus absolvidos pelos jurados. Entre nós, a grave nulidade que ocorreu durante o julgamento tem que ser satisfatoriamente demonstrada acima de qualquer dúvida para que o Tribunal determine a realização de um novo júri.
É possível sentir um certo fedor do método lavajatista no The Filton Trial. Como ocorreu no Brasil durante a Lava Jato, a justiça criminal inglesa está deixando de operar segundo critérios racionais. Ela foi mobilizada para fins partidários e ideológicos.
A ambição demonstrada por agentes estatais de obter a condenação dos réus de qualquer maneira para agradar a imprensa, uma empresa e grupos políticos poderosos é incompatível com o devido processo legal. Uma ofensa clara a segurança jurídica que deve ser garantida a todos os réus. Todos devem ter direito a um julgamento justo e imparcial, independentemente de quem são seus inimigos políticos dentro e fora do Estado (e do sistema de justiça também).
O resultado de um processo criminal não pode ser pré-determinado (já falei sobre isso no texto que publiquei há alguns dias). Portanto, espero que a promotoria inglesa desista do novo julgamento. É preciso respeitar a decisão que o júri proferiu no The Filton Trial. Caso contrário a pestilência do lavajatismo impregnará totalmente o Judiciário da Inglaterra levando inevitavelmente à desdemocratização daquele país (como ocorreu no Brasil, aliás).
Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Rui Ribeiro
12 de fevereiro de 2026 7:49 amEita, Toffolli é suspeito. O celular do Vorcaro faz menção a ele.
Já pensou se o Vorcaro fizesse menção a todos os Magistrados do Brasil?
Poderia continuar praticando crimes impunemente pelos séculos dos séculos, amém!
Toffoli, eles vão à feira exibir sua cabeça. Faça como Jimi Hendrix: Manda aí “From Nine to the Universe”.