20 de outubro de 2026

Lawfare, mídia, economia e manipulação da ‘opinião’ do eleitor, por Ludimila Cindra

Algoritmos, vazamentos seletivos e delações fantasmas: o apagamento dos avanços e a associação insistente do governo Lula à corrupção
Reprodução

Avanços econômicos e queda do desemprego no governo Lula contrastam com percepções negativas amplificadas pela mídia.
Acusações contra Lula no caso Banco Master foram negadas pela PF e PGR, enquanto investigações apontam negociações de Flávio Bolsonaro.
Lawfare manipula a opinião pública por meio da seleção e repetição de informações, associando o governo Lula à corrupção sem comprovação.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

da Rede Lawfare Nunca Mais

Lawfare, mídia, economia e manipulação da ‘opinião’ do eleitor, por Ludimila Cindra

              Há uma contradição no ar. No cotidiano, multiplicam-se queixas de que a economia vai mal, a comida está cara e o desemprego assusta. Nos indicadores do IBGE, entretanto, aparecem avanços no emprego, na renda e no crescimento econômico. Entre os resultados registrados e a percepção difundida sobre o país, existe uma distância que merece ser examinada.

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              A distância é alimentada por uma engrenagem cujo objetivo é manchar a imagem do governo Lula: apagar os avanços, amplificar as dificuldades e associar o governo à corrupção de maneira insistente. Algoritmos, manchetes tendenciosas e circulação seletiva de acusações se reforçam nesse processo, alimentando a percepção de que nada melhorou e de que toda suspeita confirma um governo corrupto.

              Não se trata apenas de divulgar notícias negativas, mas de construir um enquadramento permanente. Resultados positivos perdem visibilidade, problemas são apresentados sem contexto e acusações ainda não comprovadas ganham destaque e repetição. A corrupção passa a funcionar como marca atribuída ao governo, independentemente da demonstração de responsabilidade em cada episódio.

              É nessa articulação entre apagamento de realizações, amplificação de dificuldades e associação reiterada à corrupção operada pelas mídias a serviço do lawfare. A reportagem da Veja sobre o Banco Master aparece como exemplo dessa estratégia mais ampla de desgaste e deslegitimação.

              O contraste econômico entre os governos Bolsonaro e Lula é mensurável. Segundo o IBGE, o PIB cresceu 1,2% em 2019, caiu 3,3% em 2020 e avançou 4,8% em 2021 e 3,0% em 2022. Sob Lula, cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025. A média aritmética das taxas anuais do atual mandato — aproximadamente 3,0% nos três primeiros anos — supera a do governo anterior em cerca de 1,4%. É claro que houve pandemia no governo Bolsonaro, que, inclusive, ocasionou morte de muitas pessoas por conta de sua negligência.

              O mercado de trabalho apresenta um contraste igualmente expressivo. Segundo a série histórica atualizada da PNAD Contínua, do IBGE, a taxa média anual de desocupação foi de 11,8% em 2019, 13,7% em 2020, 14,0% em 2021 e 9,6% em 2022, durante o governo Bolsonaro.

              Sob o governo Lula, a taxa média anual caiu para 7,7% em 2023, 6,6% em 2024 e 5,6% em 2025, o menor resultado da série histórica iniciada em 2012. Entre 2022 e 2025, a redução foi de quatro pontos percentuais. Esses resultados contrastam com a repetição de narrativas que apresentam o país como se estivesse em deterioração permanente, apagando os avanços registrados no atual governo.

              De novembro de 2025 a janeiro de 2026, a desocupação ficou em 5,4%. Havia 5,9 milhões de desocupados, 1,2 milhão a menos que no mesmo período do ano anterior. O rendimento real habitual médio chegou a R$ 3.652, com aumento de 5,4% na comparação anual.

              A valorização do real também precisa entrar nessa discussão. Em maio de 2026, o dólar chegou ao menor patamar desde janeiro de 2024. No dia 6 daquele mês, o Banco Central realizou um leilão de swap cambial, contrato financeiro em que duas partes trocam obrigações de pagamento baseadas em moedas diferentes, reverso equivalente à compra de US$ 500 milhões no mercado futuro. A operação pressionou a cotação do dólar para cima, contrariando o movimento de queda observado no exterior.

              Esse episódio mostra que a cotação percebida pelo público também sofre influência das intervenções da autoridade monetária. Ao exercer pressão de alta sobre o dólar, a operação pode atenuar a valorização do real que apareceria nas cotações. Isso não comprova uma intenção de ocultar resultados econômicos, mas permite discutir como essa valorização chega à percepção popular.

              A inflação, porém, continua pressionando o orçamento. O IPCA acumulou 4,58% nos doze meses encerrados em setembro de 2026. Uma inflação menor não significa necessariamente preços menores, mas uma desaceleração de sua alta. As dificuldades das famílias não podem ser ignoradas. Tampouco podem ser usadas para sustentar uma narrativa na qual nenhum avanço existe.

              A repetição de mensagens exerce papel central nesse processo. Informações aparecem tantas vezes que passam a ser aceitas sem verificação. Os algoritmos participam da seleção e da distribuição dos conteúdos, interferindo no que recebe destaque e no que permanece pouco visível. A amplificação recorrente de conteúdos negativos, acompanhada do apagamento de resultados positivos, alimenta a ideia de que tudo está muito pior.

              A manipulação não depende apenas de mentiras explícitas. Também opera por seleção, omissão e descontextualização. Dentro desse contexto, vale destacar matéria do Correio Braziliense, na qual o Lula fala sobre a alta do valor dos alimentos em alguns lugares, porque a redução dos custos não foi repassada ao consumidor. A matéria tira a fala de contexto e coloca no governo Lula a responsabilidade que, deveria ser das pessoas que são donas de mercado: Lula sugere boicote a alimentos caros e é atacado pela oposição. Omitiram que o governo estava adotando medidas pera reduzir os custos.

              A engrenagem atua em quatro frentes. A primeira é a ênfase seletiva nos dados negativos. A segunda é a atribuição de todos os problemas ao governo atual, mesmo quando há causas externas, como guerras e imposições de tarifas. A terceira é a difusão e a amplificação de conteúdo falso. A quarta, especialmente grave, é a circulação seletiva de informações judiciais, que pode conferir autoridade institucional a acusações ainda não comprovadas.

              O efeito dessa combinação é duplo: obscurecer o que foi realizado e manter o governo permanentemente sob ataque e associado à corrupção. Uma melhora econômica pode ser silenciada, enquanto uma suspeita recebe exposição contínua. Assim, o debate deixa de avaliar resultados e responsabilidades concretas e passa a reproduzir uma imagem previamente construída.

É nessa dinâmica que o caso do Banco Master se insere.

              Na sexta-feira, 9 de outubro de 2026, durante a campanha do segundo turno, a Veja publicou alegações atribuídas a Daniel Vorcaro, ex-controlador e ex-presidente do Banco Master, sobre um suposto pagamento de R$ 30 milhões em dinheiro vivo para financiar o documentário “Lula”, de Oliver Stone. O depoimento formal descrito, entretanto, foi negado pelas instituições responsáveis pelas investigações.

              A Polícia Federal esclareceu que Vorcaro não prestou depoimento com aquele teor nem entregou à instituição anexos, documentos ou informações com o conteúdo relatado. Informou ainda que as propostas de colaboração apresentadas pela defesa não foram acolhidas por descumprimento dos requisitos legais.

              A Procuradoria-Geral da República confirmou que não houve depoimento oral de Vorcaro nem interlocução direta entre ele e seus representantes. As tratativas ocorreram por meio de advogados, e a proposta foi rejeitada.

              Enquanto as acusações contra Lula ganhavam repercussão, há inúmeros documentos que apontam negociações de Flávio Bolsonaro com Vorcaro para financiar “Dark Horse”, o filme sobre Jair Bolsonaro. Relatórios da Polícia Federal divulgados pela Agência Brasil apontam pedidos de R$ 131 milhões, dos quais R$ 60 milhões teriam sido pagos. Flávio confirmou ter solicitado patrocínio e nega irregularidades. Eduardo Bolsonaro também nega irregularidades relacionadas ao financiamento. Nesse período, tentaram sujar a imagem de Lula a qualquer custo. Inclusive, usando narrativas, sem comprovações, contra o seu filho, buscando sustentar a mentira de que todo mundo é igualmente corrupto: extrema direita, direita e esquerda.

              O contraste está na consistência dos elementos disponíveis e no tratamento conferido a cada caso. A cobertura da mídia, por meio dos seus diversos meios de comunicação, precisa explicar essa diferença, em vez de produzir uma equivalência automática entre uma acusação sem comprovação de pagamento apresentada e negociações documentadas sob investigação.

              Por que, então, se fortalece a percepção de que tudo está pior? A resposta está na confluência de três fatores: o primeiro é a economia real: apesar dos avanços no emprego e na renda, despesas elevadas continuam pressionando as famílias. O segundo é a máquina de narrativas: manchetes que isolam dados negativos, conteúdos repetidos nas redes e enquadramentos que tratam a corrupção como problema exclusivo de um campo político. O terceiro é o uso político de informações jurídicas, capaz de transformar suspeitas em condenações públicas antes de sua comprovação, um dos aspectos essenciais do lawfare.

              A manipulação de percepções e as manchetes tendenciosas integram a dimensão comunicacional da guerra operada pelo lawfare, cuja tarefa essencial é interferir na opinião pública. Para isso, atua na formação da opinião por meio da escolha do que vira notícia e do que é silenciado, na transformação de acusações em certezas e de avanços econômicos em sensação de fracasso.

              A reportagem da Veja é parte dessa engrenagem, não seu único componente. A crítica central é que a narrativa busca incriminar Lula e encontra na circulação digital um meio de multiplicar seus efeitos. Os algoritmos participam dessa disputa ao organizar a distribuição dos conteúdos; compreender sua atuação exige transparência sobre o que recomendam, a quem e com que frequência.

              O objetivo é mais amplo: manchar a imagem do governo, apagar o que foi feito de positivo e associá-lo, ao máximo, à corrupção. Quando esse enquadramento domina o debate, realizações deixam de ser discutidas e acusações passam a definir a opinião pública, mesmo sem responsabilidade demonstrada.

              A pergunta que se impõe não é apenas quem vencerá a eleição, mas se a realidade ainda terá espaço no debate público.

Fontes de pesquisa

Ludimila Cindra – Membra da Rede Lawfare Nunca Mais

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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