do Jornal da USP
Mercado não é gente, mercado é coisa
por Janice Theodoro da Silva
Escrevi anteriormente sobre misturas. Mistura de abóbora com gengibre, adorável, e sobre peixada com lombinho, indigesta. A intenção era simples: mostrar o mercado como uma coisa e a vida, uma outra coisa. Deu confusão aqui em casa e com alguns amigos. A nítida preferência foi pela sopa de abóbora. As ponderações, de uns e de outros, foram obtidas por meio de WhatsApp, por telefone e com a filha ao vivo e em cores. Faltou pão, queijo e vinho para sustentar raciocínios longos, o natural mau humor da discordância e a alegria embalada pela ligeira embriaguez.
A questão foi levantada, inicialmente, pela minha filha, envolvida na área de alimentos e bebidas. Não é difícil imaginar quais eram as suas dúvidas com relação ao mercado. Seus melhores amigos, e ela, navegam no setor de produtos orgânicos. Adora bichos, com destaque para as galinhas criadas em liberdade, com acesso seguro às formigas e outros pequenos insetos. Como cada um de nós carrega as suas ambiguidades, ela convive com a dor ao imaginar as tão pacíficas aves de criação doméstica terminarem os seus dias felizes na panela. Para ela e outros amigos, existem mercados e mercados. Mercados que se preocupam com o planeta e outros egoístas, indiferentes ao meio ambiente.
A discussão foi longa, virou o dia. A ideia central era explicar ser o objeto, mercado, coisa inanimada e, portanto, desprovido de princípio ético ou moral. Evidentemente a discussão envolveu as doações de dinheiro de algumas empresas brasileiras para o enfrentamento da epidemia atual, as empresas preocupadas com a preservação do meio ambiente e com reaproveitamento do lixo, todas merecedoras de elogios. A variação dos argumentos envolveu a tragédia de Brumadinho, os sentimentos de culpa dos envolvidos na catástrofe, os mortos pela lama e, agora, a doação de testes para a localização de portadores de covid 19. A discussão envolveu os empregos que desapareceram com a queda da barragem e os de hoje na área de restaurantes, sem deixar de lado os riscos dos entregadores de comida e seus baixos salários. Circunstâncias complexas e argumentos para comprovar ausência ou presença de generosidade foram abundantes.
Em razão da minha idade avançada e características de minha formação, tentei demonstrar (sem muito sucesso) o fato de o mercado exigir lucros e ser este, para o bem ou para o mal, o seu norte. Os argumentos, talvez por serem antigos, não geraram a compreensão necessária.
Por sorte, no dia seguinte, pude pedir ajuda a um amigo que mora na Hungria. Dario Sensi, jovem, aluno brilhante de velhos tempos. Ele ajustou a minha reflexão a uma nova linguagem. Observe, disse ele, como o jornal se refere ao mercado: “Hoje o mercado acordou nervoso”, ou “O mercado gosta de segurança” ou, ainda, “O mercado é agressivo”. O mercado foi transformado em gente! Tem emoções, seu temperamento é forte e volúvel, atualmente, cruel. Ficamos brincando e ele ainda foi mais longe, com o seu olhar extenso e perspicaz: o caderno de Dinheiro pode conter o mundo! Que mundo nós vivemos.
Este era o lugar da incompreensão. Para mim é nítida a diferença entre o mercado e as gentes. Sou do tempo em que coisa era coisa e gente era gente.
Penso que é esta a questão contemporânea: o objeto, mercado, virou gente de temperamento difícil. Mas, aviso aos navegantes, mercado não é gente, mercado é coisa. Manipulando o mercado, podemos ter pessoas de boa ou má índole, pessoas capazes de conceber a vida econômica de uma nação promovendo maior igualdade ou desigualdade, podemos incorporar populações imigrantes, empregá-las ou deixá-las morrer ao pé de muros ou dos oceanos. A ação é dos homens. Os homens organizados (Estados), nacional e internacionalmente, podem gerir o mundo, com mais ou menos humanidade ou brutalidade. Só os homens organizados e dispondo de instituições que garantam os direitos dos cidadãos podem implementá-las criando as condições de controle das atividades econômicas, do mercado. Só os homens podem garantir a vida, inclusive, daqueles que o mercado considerou inúteis por idade, doença ou loucura.
Janice Theodoro da Silva é professora titular aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Bo Sahl
30 de abril de 2020 12:38 pmReforçando: como aqui já dito, o “mercado” que é assunto de primeira das universidades à míRdia em geral, é eminentemente o mercado FINANCEIRO, tratado intimamente como “O Mercado”.
E é “verdade”, ele fica nervoso, animado, em pânico, empolgado, em alta, em baixa, etc, etc.
Já o mercado humano (econômico), que envolve por ex. víveres (alimentação), moradias, trabalho, etc. (produtos e serviços) é mera “subordinação” ao que acontece com o dólar e o índice da bolsa.
Afinal, tem o mercado da propaganda, da assessoria de imprensa, do dinheiro parceiro…
Né?
Lúcio Vieira
30 de abril de 2020 12:57 pmSerá que o mundo das finanças e da especulação está preparado para renunciar à exploração de pessoas, natureza, estado e mercado?
Holandeses avançam no cenário pós-pandemia e propõem um modelo econômico baseado no decrescimento
http://www.ihu.unisinos.br/598464-holandeses-avancam-no-cenario-pos-pandemia-e-propoem-um-modelo-economico-baseado-no-decrescimento?fbclid=IwAR01HFrvqB3MleffDlsm8kFSB-J78sOGzqvlXKBJkvHujxNNa9y81Dgl0Xw
Edgar Rocha
30 de abril de 2020 5:57 pmImagino a profundidade da discussão familiar. Um luxo só, regado a vinho com receitas pra lá de gourmet e a defesa enfurecida das galinhas felizes. Abaixo o peixe com lombinho!!! Mas, como diria o Lincoln Secco, não foi só pelo peixe com lombinho (que deve custar mais que vinte e cinco centavos, apesar de me sentir engulhado só de pensar).
Tudo pra provar que o mercado não é gente, apesar de ser tratado como tal. Putz! Que chique, bem.