25 de junho de 2026

Minha carta para Lula, por Carol Vergolino

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

do Marco Zero Conteúdo

Minha carta para Lula, por Carol Vergolino

Sou branca, filha de professores universitários. Sou privilegiada, estudei em escolas em que meus amigos tinham seus nomes nos livros de história pernambucana. No fim dos anos 90, fiz pesquisa de opinião e vi muita coisa. Entrei na casa de muitas famílias em Pernambuco, antes e depois de Lula.

Não sou boa de nomes, mas sou boa de cheiro. Entrei na casa de um senhor. Ele e a casa cheiravam a fumo de rolo. Era em Afogados da Ingazeira, Sertão. Não tinha água. Não tinha nenhuma água. A pele dele era seca igualzinha ao chão da casa. De alento, ele tocava uma sanfona. Me respondeu a pesquisa inteira em poesia.

Entrei no sítio de uma moça, que não sabia a idade dela. Estava suja de sangue de apanhar do marido que bebia do lado. Ela me trouxe o saco de documento, fiz as contas, 35 anos. Formou-se uma fila. Fiz as contas da idade de vinte pessoas, crianças e adultos. A casa cheirava a álcool e à falta de identidade.

Entrei na casa de uma senhora que não tinha nada. Nem cheiro. Só tinha ela mesma e uma fome. Se o cheiro chegasse ali era de ausência.

Entrei numa casa que não tinha luz elétrica e perguntei o que ela compraria quando chegasse luz. Ela falou que já tinha e me trouxe uma lâmpada dentro de uma caixa de sapato. Essa casa cheirava à minha avó. O cheiro igual aos das bolinhas de naftalina.

Filmei em Recife pessoas que moravam dentro de uma ponte. Sim, dentro do concreto. Tinha uma escada do rio para o buraco que se chamava porta de casa e que cheirava a mofo. De vez em quando se perdia um menino mais afoito que caía no Rio Capibaribe. Chamava Vila dos Morcegos. Afinal, morar ali não era coisa de gente.

Morava no Engenho do Meio. Vi amigos de infância serem assassinados. Vi a favela de Roda de Fogo crescer e com ela a violência dos corpos no sinal. A gente ia lá ver o corpo pra saber se tínhamos estado com ele no dia anterior.

Tive mãe sequestrada. Passei horas negociando seu sequestro. Aí o cheiro do Brasil chegou pra mim. A iminência da morte cortando na minha carne. Cheiro de flores de funeral. Graças, no fim deu tudo certo e Dona Teca esta aí pra cheirar à lavanda.

Passei anos sem fazer pesquisa e depois volto a andar pelo estado pra filmar. O cenário e o cheiro são outros.

Depois do governo Lula, as coisas mudaram. E, no sertão, chegaram as cisternas. Pareciam discos voadores ao lado da casa do povo. Agora todo mundo tinha água pra beber. E pra ajeitar um roçado miúdo. As casas cheiravam à terra molhada.

Chegou o bolsa família e toda e qualquer casa agora tinha cheiro. De pelo menos um feijão cozinhando na lenha.

Começou a brotar Instituto Técnico Federal e as pessoas voltaram a estudar pra contar muito mais do que a própria idade.

Os morcegos que viviam pendurados na ponte, construíram suas próprias casas. E aprenderam a usar banheiro.

Chegou a luz elétrica. Chegou Avon, chegou moto-taxi, chegou biscoito recheado, iogurte. Chegou possibilidade, universidade, chegou ousar sonhar. Chegou tanto cheiro junto, que não dá pra diferenciar.

Seu Ze de Severino juntou três comunidades, conseguiu verba num projeto do governo Lula e fez uma rede de encanamento pra todo mundo ter água na torneira. Seu Zé nunca esperou que fizessem por ele, mas nunca seria capaz de fazer antes de Lula.

Com essas mudanças e tantas outras, aqui se viu menos corpos estirados no chão. Virou mar de rosas? Não, claro que não. Lula não fez as reformas estruturais que deveria ter feito. Isso é fato. Mas de fato mudou a vida das pessoas mais pobres que chegaram a entrar na universidade e viajar de avião. Veja que absurdo. Desde que o golpe começou, muitos desses direitos foram tirados. O retrocesso é claro. Um golpe claro de classe. Pobre não pode.

No último mês executaram Marielle e prenderam Lula. Sinto cheiro de sangue. Sinto cheiro de ternos muito bem engomados dizendo quem agora pode cheirar a qualquer coisa. Sinto também muito cheiro de desodorante vencido da luta. Sinto cheiro de pneu queimando e sinto ardor de spray de pimenta.

Já estamos sem um Estado democrático há alguns anos. Vai ter muito cheiro de luta pra voltarmos a viver numa democracia. Mas aviso aos navegantes que vou colocar meu corpo nesse cheiro de luta aí. Sou Marielle, sou Lula, sou todas essas pessoas que não lembro o nome, mas seu cheiro tá entranhado em mim.

*Produtora de cinema e membra da partidA

 

 

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

3 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. edward chaddad

    10 de abril de 2018 12:51 am

    Linda carta – reflete o pensamento da maioria do povo brasileiro

    Adorei o texto.

    E é muito importante para  que pessoas, que somente repetem o que lhes dizem a imprensa, possam entender o que Lula legou para nosso País.

    Sei que há mais para ser dito, mas com certeza a autora do texto focou na questão da miséria, que graçava demais antes de Lula ser nosso presidente. 

    O governo de Lula que retirou aproximadamente 40 milhões brasileiros da linha abaixo da pobreza, o povo que não comia e nem conseguia beber água, não deve ser esquecido. Não temos Alzheimer coletivo, como nos impõe a mídia brasileira.

    Existem dois vídeos no  youtube, por sinal, da rede Globo, talvez por descuido, que mostram a situação social antes e depois do governo Lula, inclusive, relatando, no primeiro vídeo, que quase 300 crianças brasileiras morriam de fome por dia, para ao depois do governo Lula, mostrar o que melhorou na questão da fome e da pobreza. Será que brasileiros cultos esqueceram disto:

                    Este vídeo é de 2001, durante o governo de FHC. Antes do governo de Lula, que se iniciou em 2002. 

    https://www.youtube.com/watch?v=UI3yFKVrE4I

    Este vídeo foi feito depois do governo Lula  e nem o Jornal Nacional conseguiu esconder:

                   https://www.youtube.com/watch?v=_fxX-XoxFJs

  2. jose antonio santosjj

    10 de abril de 2018 1:28 pm

    bom, muito bom!

    Muito bonito, valeu cada palavra.

     

  3. Maristela Pinto de Menezes

    10 de abril de 2018 7:02 pm

    Perfeito! Obrigada por
    Perfeito! Obrigada por compartilhar e assim ajudar mais pessoas a compreender!

Recomendados para você

Recomendados