Ministro da Economia: desonestidade intelectual e leviandade, por Fernando Nogueira da Costa

Do vídeo da reunião ministerial, muita coisa estarrece a quem não sofre de cegueira ideológica. Quem se cerca só de oportunistas e puxa-sacos, certamente é desqualificado para o cargo de presidente. Não é crime de responsabilidade defender uma guerra civil?

Ministro da Economia: Desonestidade Intelectual e Leviandade

Por Fernando Nogueira da Costa

[Ao ler a transcrição, na íntegra, do vídeo da reunião ministerial realizada no dia 22/04/2020, para apresentar um plano de retomada do crescimento após a crise econômica gerada pela pandemia, muita coisa estarrece a quem não sofre de cegueira ideológica, comungando as mesmas estultices do capitão eleito e sua equipe composta de gente despreparada para os cargos. “Se quiser conhecer verdadeiramente um Homem, dê-lhe autoridade.”

Quem se cerca só de oportunistas e puxa-sacos, certamente é desqualificado para o cargo de presidente. Não é crime de responsabilidade defender uma guerra civil?!]

Jair Bolsonaro: O que esses filha de uma égua quer, ô Weintraub, é a nossa liberdade. Olha, eu tô, como é fácil impor uma ditadura no Brasil. Como é fácil. O povo tá dentro de casa. Por isso que eu quero, ministro da Justiça e ministro da Defesa, que o povo se arme! Que é a garantia que não vai ter um filho da puta aparecer pra impor uma ditadura aqui! Que é fácil impor uma ditadura! Facílimo! Um bosta de um prefeito faz um bosta de um decreto, algema, e deixa todo mundo dentro de casa. Se tivesse armado, ia pra rua. E se eu fosse ditador, né? Eu queria desarmar a população, como todos fizeram no passado quando queriam, antes de impor a sua respectiva ditadura. Aí, que é a demonstração nossa, eu peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assine essa portaria hoje que eu quero dar um puta de um recado pra esses bosta! Por que que eu tô armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não da pra segurar mais! Não é? Não dá pra segurar mais.

[Depois de uma tentativa frustrada de apresentar um PowerPoint com um plano genérico por um general sem domínio dessa tecnologia primária e das palavras ( – Como é que é o nome mesmo? – Facilitadoras. Braga Netto: – Facilitadoras.) – e sem ninguém lhe dar importância –, o capitão eleito em função da facada e do antipetismo, sem nenhum comentário a respeito do objeto da reunião, chama seu posto Ipiranga.]

Jair Bolsonaro: Vamos dar a palavra ao Paulo Guedes, acho que é … com todo respeito aos demais, acho que é o ministro mais importante nessa missão aí.

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[Mais adiante diz ele ser o único ministro sem ter feito sabotagem de seu governo!]

Paulo Guedes: Eu queria fazer a primeira observação, é o seguinte, não chamem de Plano Marshall porque revela um despreparo enorme.

Braga Netto: Não, não, não, isso aqui foi só aqui e agora. É o Pró-Brasil.

Paulo Guedes: Então, quan … quando se falou em Plano Marshall, Pró-Brasil é um nome espetacular. Dez, mil. Plano Marshall é um desastre. Eu… ma … revela despreparo nosso.

[Neste ato falho psicológico, o old Chicago’s Boy confessou sua impressão real daquele ministério: “despreparo nosso”. Aí, sem querer, ele foi honesto intelectualmente.

O diálogo entre o economista e o general faz lembrar o diálogo entre banqueiro e entrevistador (imitados por comediantes ingleses) sobre a crise financeira de 2008: – Bem, é porque todos esses “hedges funds” têm nomes muito bons… – É bom. Soa muito confiável. Tem boas palavras.]

Paulo Guedes: Não se fala Plano Marshall, porque é um desastre. Vai revelar falta de compreensão das coisas. A segunda coisa é o seguinte: é super bem-vinda essa iniciativa, para nos integrarmos todos. Agora, não vamos nos iludir. A retomada do crescimento vem pelos investimentos privados, pelo turismo, pela abertura da economia, pelas reformas. Nós já estávamos crescendo.

[Revela aí sua leviandade ou ausência de seriedade. Possui um modo de agir ou uma fala leviana. Falta-lhe sensatez. Sua irreflexão levar a brigar contra os números. Ele não cita nenhum indicador para comprovar essa retomada do crescimento antes da pandemia.

Pela Retrospectiva 2012-2019 da PNAD Contínua do IBGE, de 2014 a 2019 o contingente de desocupados passou de 6,7 para 12,6 milhões (aumento de 5,9 milhões), ou seja, quase dobrou (87,7%). O fim da Era Social-Desenvolvimentista, em 2014, foi quando o mercado de trabalho brasileiro registrou o menor nível de desocupação desde o início da série da pesquisa. Houve crescimento da taxa de desocupação de 2014 (6,9%) a 2017 (12,5%), mantendo-se no patamar de 12,3% em 2018 e 11,9% em 2019.]

Paulo Guedes: Voltar uma agenda de trinta anos atrás, que é investimentos públicos financiados pelo governo, isso foi o que a Dilma fez trinta anos. Então tá cheio de gente pensando nessa eleição agora, e botando coisa na p … na cabeça do … do … de todo mundo aqui dentro, que são governadores querendo fazer a festa, são às vezes ministros querendo aparecer, tem de tudo. E todo mundo vem aqui: “vamos crescer, agora temos que crescer, tem que ter a resposta imediata, porque o governo vai gastar”.

– O governo quebrou! O governo quebrou! Em todos os níveis. Prefeitura, governador e governo federal. Que que nós conseguimos fazer? Nós sinalizamos o contrário. Nós desalavancamos banco público, reduzimos endividamento, baixamos juros e o Brasil ia começar a voar. Então se agente lançar agora um plano, é … todo o discurso é conhecido: “acabar com as desigualdades regionais”, Marinho, claro, tá lá, são as digitais dele. É bi … é bonito isso, mas isso é o que o Lula, o que a Dilma tão fazendo há trinta anos. Se a gente quiser acabar igual a Dilma, a gente segue esse caminho.]

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[Desonestidade intelectual é falsear levianamente os fatos em uma atividade intelectual como é a comunicação. É desonesta essa defesa de uma posição contrária a fatos e dados, cujo economista diplomado era obrigado a saber ser falsa ou enganosa. Ele fez a omissão consciente dos aspectos da verdade conhecida, em um ambiente onde estava cercado de ignorantes, todos comungando da mesma ideologia de extrema-direita.

Essa retórica pode ser usada em reunião da cúpula do Estado brasileiro para promover uma agenda ou reforçar algo profundamente arraigado em crenças ideológicas em face de esmagadoras provas contrárias. Se o ministro defende uma visão contraditória, ele comete uma desonestidade intelectual. Se não tem conhecimento das provas, é ignorante e despreparado para o cargo, sob o qual centralizou toda a economia.

Em retórica rasteira, abusa da Culpa por Associação: desacreditar uma ideia ao associá-la a algum indivíduo ou grupo malvisto na sua rede social. No caso, o leviano falseia até o tempo de presidência do Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2014), porque a partir de 2015 ela não conseguiu mais governar sob as pautas-bombas no processo golpista processado por sabotagem de seu governo pelo PMDB aliado.

Quanto aos dados, o PIB per capita brasileiro, isto é, a divisão de todos os bens e serviços produzidos no país pelo número de habitante, já tinha caído 0,3% entre 2011 e 2018 – e prosseguiu sua queda no mesmo ritmo em 2019. Na Era Neoliberal, entre 1981 e 1990, o recuo havia sido de 0,5%. Os anos 1991-2000, a média anual foi de apenas 0,9%. Na Era Social-Desenvolvimentista, predominante na década 2001-2010, elevou-se para 2,5%.

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A média de variação anual do PIB per capita, desde o início do século XX, é estimada em 2,4%. As duas primeiras décadas do século passado, durante a República oligarca-liberal, e as duas décadas quando predominou uma política econômica neoliberal ficaram abaixo dessa média. Daí surge uma evidência para o baixo crescimento após 1980: a ausência de um Estado desenvolvimentista intervindo diretamente na produção.

A média anual do PIB real, desde o início do século XX, é estimada em 4,4%. Entretanto, quando o Brasil tinha a economia com maior crescimento sustentado em longo prazo no mundo, de 1901 a 1980, essa média foi 5,5% – e a do PIB per capita 3,2% aa. Em contraste, após esse período desenvolvimentista, essas médias caíram para, respectivamente, menos da metade (2,3%) e de um terço (1%).

Se um ministro não estiver ciente dessa evidência, e propositalmente não a verificar, depois agindo como se sua posição fosse confirmada, comete uma desonestidade intelectual. Aliás, uma obsessão desse governo militarizado é ser reeleito.]

Paulo Guedes: Então, eu acho um discurso bom, mas nós temos que tomar cuidado e reequilibrar as coisas. Não pode ministro pra querer ter um papel preponderante esse ano destruir a candidatura do presidente, que vai ser reeleito se nós seguirmos o plano das reformas estruturantes originais. Então eu tenho que dar esse recado, nós vamos estar à disposição, nós vamos ajudar tudo, mas nós não podemos nos iludir. O caminho desenvolvimentista foi seguido, o Brasil quebrou por isso, o Brasil estagnou. A economia foi corrompi … a política foi corrompida, a economia estagnou através do excesso de gastos públicos. Então achar agora que você pode se levantar pelo suspensório, como é que um governo quebrado vai investir, vai fazer grandes investimentos públicos?

[Essas palavras demonstram seu total despreparo para o cargo de direção do necessário planejamento para a retomada do crescimento econômico pós-coronacrise.]

 


Leia o artigo completo abaixo:

FERNANDO N. COSTA – Ministro da Economia Desonestidade Intelectual e Leviandade

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4 comentários

  1. O guedes não é diferente da damares, do araujo, do heleno. Não foi a tôa que o dedo podre do bolsonaro o colocou no seu grupo. Tão porra-loca, na linguagem que usam, como o salles, o weintraub, etc. É elogio, e o faço, afirmar que têm problemas de sanidade mental, que no guedes é explícita.
    Agora, o que dizer dos únicos adultos da horrorosa e ridícula reunião no palácio(?), os militares, que se mostraram à altura dos birutas que lá estavam, se abaixaram e ainda levaram uma bronca grosseira do doido do guedes?
    Voltem rápido para os quartéis senhores. Já passou da hora. Olha o desastre cometeram e o que avalizaram.
    Que desgraça fizeram ao país!

  2. Por incrível que pareça, a única racionalidade que vi nesses trechos da reunião dos lobotomizados foi aquela frase da Damares sobre cuidar para que os cassinos não propiciassem lavagem de dinheiro. Comentário, aliás, que foi ignorado pelo Paulo Jegues.

  3. Quando o presidente listou os valores do governo na parte do “livre mercado” ele aponta para Guedes ckmo quem diz , isto é com ele …
    Guedes por sua vez sem vangloria de ter lido , ter estudado …
    Mas teve também seus momentos de poesia , com o BB e os jogadores dos cassinos.

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