Ministros de Bolsonaro não são técnicos, são cúmplices, por Rogério Marques

O que leva alguém que se considera uma pessoa correta, honesta, com uma boa estrada profissional a aceitar um cargo de confiança no governo de alguém como Jair Messias Bolsonaro?

Presidente eleito Jair Bolsonaro chega ao Congresso Nacional para a solenidade de posse.

Ministros de Bolsonaro não são técnicos, são cúmplices

por Rogério Marques

O que leva alguém a aceitar ser ministro ou exercer um cargo de confiança no governo de Jair Bolsonaro? Sendo ainda mais claro: o que leva alguém que se considera uma pessoa correta, honesta, com uma boa estrada profissional a aceitar um cargo de confiança no governo de alguém como Jair Messias Bolsonaro?

Essa pergunta deve estar sendo feita por muita gente, neste momento em que o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta esvazia as gavetas, mais uma vez, e alguns nomes são cotados para substituí-lo.

Um desses nomes é o do presidente do Conselho Deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein, Claudio Lottenberg, médico oftalmologista, ex-secretário municipal de saúde na gestão de José Serra (PSDB).

Em entrevista no Globo online desta quinta-feira Lottenberg procura se cacifar ao cargo, claramente. Diz ele: “Vou considerar se for uma convocação de natureza técnica e boa para o Brasil. Se tiver política, eu não sou a pessoa.”

Quem, honestamente, acredita que qualquer ministro de um homem com o passado e o presente de Jair Bolsonaro pode fazer um trabalho “de natureza técnica”, sem envolvimento político? O que leva alguém com o currículo do oftalmologista Claudio Lottenberg a desejar esse cargo? Aceitar ser ministro de um indivíduo que em plena pandemia do novo coronavírus vai para as ruas apertar mãos e provocar aglomerações, uma atitude criminosa, em confronto com as orientações da OMS.

Da mesma forma, o que leva uma da atriz como Regina Duarte ou um juiz como Sergio Moro a se juntar a pessoas do nível de Jair Bolsonaro e seus filhos? Sim, porque Jair é também Flávio, Carlos e Eduardo.

Embora Lottenberg, Moro e Regina Duarte apresentem o mesmo discurso falacioso — não sou político profissional, quero fazer uma gestão técnica, quero o melhor para o Brasil –, os três admiram as ideias de Jair Bolsonaro. E se revelam no mesmo nível de gente como o patético Abraham Weintraub, ministro da Educação, e de Roberto Alvim, antecessor de Regina Duarte na Secretaria Especial de Educação, aquele que citou na TV frases do ministro de propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels.

Regina Duarte sabe que Jair Bolsonaro odeia cultura e que jamais poderá fazer uma gestão técnica na Secretaria à qual foi indicada.

Lottenberg, Moro, Regina Duarte, Luiz Henrique Mandetta conhecem bastante o passado de Jair Bolsonaro e de seus filhos. Sabem perfeitamente que assim como seu secretário de Educação evocou um nazista — e só foi demitido porque falou a verdade — Jair Bolsonaro já defendeu a tortura e o extermínio de 30 mil pessoas em uma emissora de TV. Cometeu crime de apologia à tortura, num país em que esta prática monstruosa acontece diariamente em presídios, delegacias, em unidades policiais. Fez isso quando era deputado federal e como parlamentar deveria dar exemplos de respeito às leis. Bolsonaro é réu confesso e talvez um dia pague por seus crimes.

Médicos têm compromisso com a vida. Como um médico pode aceitar um cargo de confiança de uma pessoa sinistra como Bolsonaro, defensor da tortura e do extermínio? O mesmo com relação a Sergio Moro, que pulou do cargo de juiz ao de ministro da Justiça de um desqualificado?

Mandetta, muita gente esquece, é aquele deputado federal do DEM que no governo golpista de Michel Temer votou a favor da PEC do Teto dos Gastos, que tirou R$ 22,5 bilhões da saúde. Isso agravou a situação na atual pandemina do novo coronavírus, porque tirou recursos do SUS. Mais do que votar a favor, Madetta foi um dos articuladores da PEC, também conhecida como PEC da Morte.

Que fique claro, que o cinismo fique explícito: o que leva Luiz Henrique Mandetta, Sergio Moro, Regina Duarte, Claudio Lottenberg (seja ele ou não o novo ministro) e quaisquer outros a aceitar cargos de confiança no governo Bolsonaro não é apenas a tentação da vaidade. É cumplicidade.

(Rogério Marques)

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