Não nos resta muito, por Fernando Horta

Foto Agência RBS/Camila Rodrigues

Não nos resta muito, por Fernando Horta

O fascismo é sempre libertado pelos liberais. Quem detém as chaves das instituições que guardam as liberdades individuais e o “status quo” são eles. As instituições têm o poder de afastar o fascismo, mas – como afirmava Marx – o homem é construído pelas relações materiais que experimenta. Isto quer dizer que a ideologia de classe é parte constitutiva de cada sujeito. A gente vê o mundo pela janela do nosso quarto. O mundo que se vê, a disposição de olhar, o tempo para tal, as cores e os entendimentos, dependem decisivamente de onde você está, de onde você “mora”.

Diante do medo da mudança, a ideologia de classe opera em quem comanda as instituições. O historiador Walter Laqueur lembra, com correção, que os fascistas são sempre os “perdedores da modernidade”. Aqueles que não aceitam a mudança, a inclusão, a transformação da sociedade, dos padrões culturais, das normas sociais e etc. Aconteceu assim no início do século XX e, de novo, no início do século XXI. Este desconforto (cujo termo técnico é “modern malaise”) no século XX se configurava nos anseios de igualdade social, voto feminino, migrações, direitos para os trabalhadores e urbanização. Em tudo semelhante com o que ocorre no século XXI. E que não se diga que não há pessoas nos dias de hoje que questionem, por exemplo, o voto feminino. A pastora-ministra de Bolsonaro, Damares, sonha com uma sociedade em que as mulheres fiquem reclusas a sua casa. (Nós sonhamos que ela aplique o seu sonho a ela mesma.)

No século XXI, o “modern malaise”, que impulsiona o fascismo “contra tudo que está aí (talkey)”, guarda impressionante semelhança com o do século XX. Cem anos não foram suficientes para que a sociedade humana pudesse refletir e compreender este ponto. Hitler usava canhões e aviões modernos para impor uma sociedade que ele procurava espelhar na medievalidade germânica (o primeiro Reich ou o Sacro Santo Império Romano Germânico). Ele usava bombas e tanques, mas gostaria de usar espadas e lanças. A relação é a mesma de milhares de pessoas usando celulares de última geração para propagar mentiras sobre endemoniamento, comunismo ou “dominação mundial”. É o mesmo sentido de evangélicos neopentecostais vendendo indulgências e recebendo via transferência bancária na internet.

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Uma pergunta sobre o fascismo que sempre se fez, e que hoje se torna ainda mais importante é: como pode? Como pode milhões de pessoas parecerem entrar em um “transe” de consciência e de intelecto e acreditarem em figuras bizarras como Olavo de Carvalho, Silas Malafaia, Damares Alves ou a própria família Bolsonaro? É uma assustadora e coletiva dissonância cognitiva que, na Inglaterra, por exemplo, os levou a votarem pela saída do país da UE. O “Brexit” de lá simplesmente quebra a economia do país e foi “votado” em meio à histeria coletiva, em tudo semelhante à eleição de Bolsonaro e Trump. Como pode na eleição brasileira, Bolsonaro ter digerido TODA a direita brasileira? Alckmin, Marina, Amoedo, Meirelles, Álvaro Dias terem sido aniquilados por alguém que não tem condições cognitivas de juntar duas frases ou oferecer qualquer solução para o Brasil?

A resposta fácil é: “a internet”, o “whatsapp” e “as redes”. A resposta fácil quase nunca é a correta. A imensa migração de votos para Bolsonaro não se deveu ao seu programa de governo (que a rigor nem existia), também não foi devido às soluções econômicas ou sociais apresentadas (não apresentou nenhuma) ou a qualquer histórico de serviços ao país e à sociedade (em 28 anos Bolsonaro nunca fez nada de significativo. A que se deve, então, este fenômeno?

Ao fascismo.

O ser humano precisa de reconhecimento e acolhida. São frequentes temas na psicologia e antropologia. A ideia de “pertencimento” é parte da subjetivação humana. Só somos e sobrevivemos em grupo. A modernidade, gerenciada pelos liberais, avança sobre a ideia de “individualismo” de uma maneira que desfaz laços e gera um impressionante senso de crise social. Quando o individualismo se torna um valor em si, a sociedade adoece. Apesar dos fascistas do século XXI propalarem o individualismo (e esta é uma marcante diferença para o século XX), tudo o que eles fazem e defendem é ao contrário do que falam. Querem regular corpos, proibir o uso de espaços, controlar as ideias individuais, atacar as artes e etc. Há uma imensa diferença entre o que dizem e o que fazem.

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Ocorre que, ao fazerem estas ações, ao convencerem-se de que estão certos, eles se consubstanciam em um grupo e se sentem parte de algo maior. As frustrações individuais são subsumidas em um todo que age coletivamente – sempre com violência – contra o que é diferente, o que é dissonante e o que ameaça suas certezas sobre o mundo e as coisas. Paradoxalmente, o processo fascista de destruir os coletivos contrários a si, reforça o coletivo fascista, suas ideias, suas certezas e sua violência. As massas não demoram a transformarem-se em turbas.

Jean Wyllys está certo.

O fascismo aumenta o custo da oposição ao máximo, enquanto diminui o custo da aceitação. O fascismo de Bolsonaro et caterva ameaça a vida de Jean Wyllys (e de milhões de outras pessoas) o tempo todo, e de diversas maneiras. A descoberta de que seu filho está imbricado em relações escusas com as milícias do RJ, enquanto seu ministro da justiça nada diz e nada fala é apavorante. O assassinato de Marielle foi um exemplo do que o fascismo vai fazer no Brasil. Cada apoiador de Bolsonaro se torna um assassino em potencial se for convencido de que suas ações são para “o bem do país” ou “o bem do mito”. A vida se torna o preço da oposição política ao fascismo, e Jean Wyllys se deu conta disso a tempo.

Juntamente com a elevação do custo da oposição, o fascismo baixa o preço da aceitação. Bolsonaro desidratou toda a direita brasileira porque, para ser fascista e ser aceito neste imenso grupo de “apoiadores do mito”, basta que você use as cores deles, fale as palavras de ordem deles ou se esconda. Basta esconder sua sexualidade, suas tatuagens, seus piercings, o cabelo, os hábitos, suas preferências políticas. Basta que alguém se torne invisível para ser deixado em paz pelos fascistas.

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A escolha de Jean Wyllys era ou desafiar a morte ou se tornar invisível. Jean rejeitou as duas e sai de um país que sequer República é mais. Deixamos de ser democracia com o golpe sobre Dilma Rousseff, deixamos de ser República quando Lula foi preso e estamos deixando de ser civilizados com o auto-exílio de Jean Wyllys. Ainda temos um fiapo de humanidade. Eu me pergunto quanto tempo ele irá durar …

9 comentários

  1. Os que lutam e os que se rendem.
    Fabricado dentro da virtualidade dos reality shows, com sua história política reduzida ao bloco do eu sozinho, como aliás é comum ao seu partido, um amontoado de egos frustrados, eis que o rapaz se rende.

    Não aguentou a pressão.

    Resta saber se fará como seu colega freixo, que fugiu por causa da milícia para depois voltar como candidato a prefeito do Rio.

    De onde menos se espera é que não sai nada mesmo.

    Boa sorte, será que vai morar em Vichy?

    Não é renúncia ao mandato, ele renunciou a si mesmo, na medida que sua representatividade estava baseada em sua opção de vida.

    Olha, mais digno seria o suicídio.

  2. Muito esclarecedora a questão

    Muito esclarecedora a questão do individualismo, que se liga ao modo de vida, de que o fascismo se aproveita. Quero, com todo respeito ao autor do post, discordar da análise das redes sociais. Há um detalhe sumamente importante, que não está sendo levado em conta: SE NÃO EXISTISSE A REDE GLOBO OU AlGO EQUIVALENTE, AS REDES SOCIAIS TERIAM SIDO DECISIVAS NO RESULTADO DAS ELECIÇÕES DE 2018 ?  . Quero dizer que a Globo tem um poder maior que as redes sociais. Exemplo: se o jornal nacional da emissora denunciasse as fake news bolsonarianas, que impacto elas teriam no resultado final das eleições ?

  3. Melhor mesmo seria o suicidio

    Melhor mesmo seria o suicidio ???

    DE onde saem tantos monstros ? A caixa de pandora foi aberta e vcs estão livres para darem suas ( opiniões ) .O comando de caça está instituido novamente liberados por um boçal e seus filhos boçais apoiadores e condecoradores de milicianos .Um bando de usurpadores do poder publico . Só mesmo a historia vai se responsabilisar de mostrar as gerações futuras oque está acontecendo em nosso pais e continente . E´o resurgimento de um pensamento de vingança de morte ao outro e esse outro somos nós o povo de um pais que tanto deve para este povo . Vejo amigos dizendo que temos que responder com amor , afeto a essas provocações , eu digo que já tentamos um dia responder com flores mas elas não vencem canhões . Ele disse no seu dia de posse de usurpação do poder que estariam a responder com canhões a algum tipo de reação . E nós os de baixo como reagiremos ? 

  4. Ainda temos muita humanidade
    Sim, Damares, que viva seu sonho!

    Quer dizer que, em tempos de crise, desespero (e falta de vergonha na cara), o imperativo de pertencer, ser acolhido, se sobrepõe ao próprio discernimento quanto à natureza daquilo a que se pertence…

    Elaborando: no fascismo, então, o individualismo se aplica aos custos, aos deveres; o controle, à liberdade. Seremos tod@s livres quanto empreendedor@s de si, contanto que seja sempre ao serviço do mito?

    Aliás, sempre achei muito bem escolhido a denominação “mito”, sendo que significa “mentira conveniente promovida pelos de cima e engolida pelos debaixo”.

    Ora, Brasil… Nojo!

  5. Luiz Fux substituiu o

    Luiz Fux substituiu o princípio da presunção de inocência pelo da culpa presumida ao condenar José Dirceu. Sérgio Moro e o TRF-4 condenaram Lula porque ele não recebeu a posse e a propriedade do Triplex para praticar atos inespecificos (a Lei pune a prática de ato específico mediante pagamento). Dilma Rousseff foi deposta sem ter cometido crime de responsabilidade, pois o STF se recusou a impedir essa ilegalidade. Mas a subversão total do sistema jurídico ocorreu pelas mãos da desembargadora que expede “sentenças de morte” pela internet. Em breve os processos em que essas sentenças são expedidos começarão a tramitar formalmente e em segredo, pois ao réu não deve se dar a oportunidade de fugir antes da execução da pena.

  6. Ainda temos muita humanidade
    Sim, Damares, vai viver seu sonho!

    Quer dizer que, em tempos de crise, desagregação social, desespero (e falta de vergonha na cara), o imperativo de pertencer, ser acolhido, se sobrepõe ao próprio discernimento quanto à natureza daquilo a que se pertence…

    Elaborando: no fascismo, então, o individualismo (do que se fala) se aplica aos custos, aos deveres; o controle (que se faz), é aplicada à liberdade. Seremos tod@s livres enquanto empreendedor@s de si, contanto que seja sempre ao serviço do mito.

    Aliás, sempre achei muito bem escolhido a denominação “mito”, já que significa “mentira conveniente promovida pelos de cima e engolida pelos de baixo”.

    Ora, Brasil… Nojo!

  7. O AVANÇO DO FASCISMO

    Boa noite

    Muito boas as reflexões do Fernando.

    Com efeito, um dos aspectos marcantes do pensamento fascita (entre outros) é o irracionalismo.

    Boa parte dos seguidores da família bolsonaro é refratária a qualquer tipo de argumentação lógica. O próprio adjetivo empregado para desgnar o esfaqueado fala por si: mito. De que? Uma pessoa completamente incapaz intelectualmente, que não consegue, talvez, dizer a tabuada de cor ,foi eleito por boa parte da classe média dita escolarizada. O paralelo traçado pelo Fernando entre o autoritarismo de agora e o fascismo do século XX é interessante para mostrar que os atores são da mesma origem social. 

    Sobre a violência e sua apologia precisamos nos organizar para enfrentar o que vem por aí. Se o governo dessa criatura fracassar (o que deve ocorrer) e manifestações populares ocorrerem, a repressão será feroz e não podemos descartar que sejam criadas milícias para espancar e matar lideranças.

    Sobre o deputado Jean Wyllys ele está certo em sair do país. Mais cedo ou mais tarde ele seria morto por algum seguidor desses monstros que estão agora no poder.  E causa espanto, que existam pessoas como a que escreveu acima, que ainda o critiquem. Por acaso alguém que partcipa desse jornal  já passou pelo que ele passou, sendo ameaçado e ofendido dia e noite? O comentário do Felipe (e ele pode dizer o que quiser) assemelha-se, no fundo, aos cometários de lobão, frota e carlos bolsonaro. 

  8. Causa política da ascenção da ultradireita
    Nao vou entrar na discussão de todos os aspectos dessa analise, mas ha um que é omitido, que é a analise política do primeiro governo “de esquerda” da social democracia na Alemanha, em 1919.
    Nao acho que o governo Bolsonaro já seja um governo fascista, que tem outras características, mas é um perigoso governo de ultra direita e que embarcou os militares.
    Que paralelo poderia se fazer com a ascenção de Hitler? O mais importante é a frustração das enormes expectativas em um governo de esquerda.
    Na Alemanha, o governo da socialdemocracia afogou uma revolucao socialista, ficando com o sangue de Rosa de Luxemburgo nas mãos. No Brasil, não tendo um desfecho tão dramático, o governo do PT foi um desvio na luta dos trabalhadores, uma desmobilizacao que jogou fora a luta e consciência adquiridos na década de 80.
    A experiencia ” reformista” de governar junto com a burguesia redundou numa enofme decepção tao logo a crise capitalista se abateu sobre o pais.
    Por isso nao posso concordar com o papel de vítima de Lula e Dilma no final do texto.
    Estão mais para Ebert que dirigia o governo socialdemocrata do que para Rosa Luxemburgo.
    A história ensinou mais uma lição que muitos recusam-se a ver.
    Os governos de colaboração de classe preparam derrotas, e a classe trabalhadora derrotada é presa fácil para a ultra direita.

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