“Negar e silenciar é confirmar o racismo”, por Sebastião Nunes

Pena que, por enquanto, sejam tão poucos a descer do pedestal e cair na real. Uma real suja, pegajosa e escura como sangue coagulado no asfalto.

“Negar e silenciar é confirmar o racismo”, por Sebastião Nunes

Foi preciso que um multicampeão brasileiro e atual treinador vitorioso dissesse, numa entrevista, o que pensava do racismo para que o assunto, imediatamente, subisse à tona do noticiário e das manchetes da grande imprensa, sempre cega para o que não quer ver.

Como se fosse a maior novidade do mundo, a entrevista de Roger Machado se tornou o estopim para que o assunto se propagasse como chama em rastilho de pólvora e se tornasse o “tema da semana”.

“A gente precisa falar sobre isso”, disse Roger na entrevista. “Precisamos sair da fase da negação. Nós negamos. ‘Ah, não fala sobre isso’. Porque não existe racismo no Brasil em cima do mito da democracia racial. Negar e silenciar é confirmar o racismo. Minha posição como negro na elite do futebol é para confirmar isso.”

Numa foto que correu o país, antes do jogo que antecedeu a entrevista, vimos os dois únicos treinadores negros da Série A: Roger, do Bahia, e Marcão, do Fluminense. Vestiam a camisa do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, entidade criada para monitorar e divulgar os casos de racismo no esporte.

Em seus objetivos, o site do Observatório esclarece:

“Devido à grande incidência de casos de intolerância racial, o Observatório da Discriminação Racial no Futebol tem o objetivo de monitorar e divulgar, através de seus canais, os casos de racismo no futebol, assim como ações informativas e educativas que visem erradicar a intolerância que tanto macula a democracia das relações sociais.

O racismo no futebol precisa ser tratado com extrema seriedade e o Observatório almeja tornar-se uma organização que promova o diálogo entre clubes, entidades, torcidas e movimentos sociais; através de conferências, workshops e seminários entre outros eventos, e assim fomentar ideias e buscar sugestões para combater a discriminação.

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O Observatório acredita que o esporte mobiliza e transforma vidas em todo o Brasil. Ele contribui para a aprendizagem e proporciona mais qualidade de vida, bem-estar e saúde a crianças e adultos. O futebol gera emprego, multiplica renda e é um importante fator de inclusão social. Além disso, pode ser um agente mobilizador em prol de diferentes causas da sociedade, entre elas a discriminação racial.”

 

COM O DEDO NA FERIDA

Como se sempre tivesse esperado por aquela oportunidade de dizer tanto e tão bem, Roger continuou:

“A bem da verdade é que dez milhões de indivíduos foram escravizados. Mais de 25 gerações. Passou pelo Brasil Colônia, passou pelo Império e só mascarou no Brasil República.”

Com sua voz mansa, sua expressão suave e sua capacidade de dizer verdades profundas, Roger deu um recado importante, especialmente quando falou do mascaramento do racismo durante os já longos, muito longos, anos de república.

E foi mais fundo, inclusive sobre o retrocesso que vivemos atualmente:

“A responsabilidade é de todos nós, mas a culpa desse atraso, depois de 388 anos de escravidão, é do Estado, porque é através dele que as políticas públicas, que nos últimos 15 anos foram instituídas, que resgataram a autoestima dessas populações, que ao longo de muitos anos tiveram negadas essas assistências básicas, elas estão sendo retiradas neste momento.”

Roger também questionou a famosa expressão “igualdade racial”, que seria vigente no Brasil: num restaurante caro ele é o único negro. E quando lhe dizem que se ele está ali ele é a prova de que não existe racismo, ele reafirma que é por isso mesmo que existe, já que é o único negro presente.

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OUTRA FERIDA EXPOSTA

Lucas Santos, jogador formado pelo Vasco, emprestado ao CSKA de Moscou, partilhou um vídeo. Nele, um policial truculento, com uma arma de dar medo, aponta para todos os lados em direção às pessoas, ameaçando atirar.

A propósito do vídeo, Lucas comentou:

“Foi favela (Para-Pedro) onde nasci, cresci e aprendi muita coisa na vida. A barbearia é onde corto meu cabelo, conheço as vítimas e todos sabem da índole deles, porém, para o Witzel basta ser pobre, negro pra que seu espírito genocida se manifeste”, escreveu o jogador, conforme citação do Observatório.

O jogador foi criado nessa favela, na Zona Norte do Rio de Janeiro – a mesma onde um mototaxista, Kelvin Gomes Cavalcante, de 17 anos, foi morto após ser baleado quando estava dentro de uma barbearia. A Polícia Militar informou que uma operação estava sendo realizada no momento em que Kelvin foi baleado. A eterna desculpa que fica por isso mesmo.

É também pelos seus craques e ex-craques que o Brasil começa a reagir. Pena que, por enquanto, sejam tão poucos a descer do pedestal e cair na real. Uma real suja, pegajosa e escura como sangue coagulado no asfalto.

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