Newton, Marx e o conceito da gravidade contra o marxismo cultural do bolsonarismo, por Cesar Calejon

Em um nível muito básico, ao escolher um ambiente em detrimento de outro, uma bactéria ajuda a constituir e é constituída pelo novo meio que se forma a partir desta escolha.

Newton, Marx e o conceito da gravidade contra o marxismo cultural do bolsonarismo

por Cesar Calejon

A gravidade (9,807 m/s²) é uma força interessante para analogamente entender e desmontar a narrativa intitulada de “marxismo cultural” pelos ideólogos do bolsonarismo. Isaac Newton, em 1666, percebeu que o mundo ao seu redor funcionava de forma específica e sintetizou, com base em observação científica e matemática básica, as leis do movimento. O astrônomo e cientista inglês não criou estas regras, ele apenas constatou as bases dinâmicas do funcionamento da física na Terra.

Assim como o colega britânico, Karl Marx, cerca de duzentos anos depois, observou quais eram e como atuavam as forças que constituem a organização das sociedades que começaram a se formar principalmente a partir da primeira revolução industrial (entre 1760 e 1850). Marx não inventou a luta de classes, os conceitos de Mais-valia e de Fetichismo da mercadoria, por exemplo. Ele apenas os elaborou com base em observação científica sobre como o mundo social que o cercava se articulava e mantinha.

No Wikipedia, o marxismo cultural é explicado como “uma teoria da conspiração difundida nos círculos conservadores e da extrema-direita estadunidense desde a década de 1990. Refere-se a uma suposta forma de marxismo, alegadamente adaptada de termos econômicos a termos culturais pela Escola de Frankfurt, que teria se infiltrado nas sociedades ocidentais com o objetivo final de destruir suas instituições e valores tradicionais através do estabelecimento de uma sociedade global, igualitária e multicultural”.

O que realmente chama a atenção aqui é o caráter da sociedade que a extrema-direita estadunidense (e certamente a brasileira e de outras partes do mundo) teme que vá destruir as suas “instituições e valores tradicionais”: global, igualitária e multicultural! Que tipo de gente acha isso ruim?

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No âmbito acadêmico, o termo marxismo cultural teve sua origem no campo dos estudos culturais, na década de 1930. Os teóricos da Escola de Frankfurt, assim como Marx, consideram que a cultura é inseparável de seu contexto social, econômico e político e, portanto, deve ser estudada levando em conta o sistema e as relações sociais que a produzem.

O materialismo histórico e dialético, por exemplo, teoria concebida por Marx, é uma concepção filosófica que defende que o ambiente, o organismo e os fenômenos físicos tanto modelam os animais irracionais e racionais, sua sociedade e cultura, quanto são modelados por eles. Ou seja, existe uma relação dialética entre a matéria, o psicológico e o social. 

Simples organismos, não apenas os seres humanos, mas até os seres unicelulares, não são meros objetos passivos e sim fatores ativos na formação das suas próprias experiências ou destinos. “Uma simples bactéria, por exemplo. Caso você coloque-a em uma gota d’água e depois adicione um pouco de açúcar na água, ela vai nadar em direção à parte doce da gota. Portanto, ela escolhe um ambiente e evita o outro. Ao escolher o ambiente, ela também o altera e é alterada por ele”, explicou de forma simples o neurocientista inglês Steven Rose em uma conversa realizada em 2016. 

Em um nível muito básico, ao escolher um ambiente em detrimento de outro, uma bactéria ajuda a constituir e é constituída pelo novo meio que se forma a partir desta escolha. Isso se aplica para bactérias, ratos ou humanos. É a forma como a vida se organiza socialmente no planeta em basicamente todos os níveis em que se apresenta.

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Por que, então, o marxismo incomoda tanto e ninguém é chamado de “newtoniano” (e não se fala em “newtonianismo cultural”) quando as pessoas entendem e percebem o funcionamento da gravidade, por exemplo? Porque matemática básica e física servem determinados e fundamentais propósitos, mas ensinar a população os detalhes do funcionamento mais amplo da sociedade na qual ela vive serve outros e assusta muito mais.

Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas e escritor, autor do livro A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI

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6 comentários

  1. O problema do marxismo é que ele é um ismo.
    Pobre Marx, tão maltratado por aqueles que dizem o admirar e aqueles que o repelem.

    É o exemplo do artigo. Uma das passagens mais interessantes de Hegel – e Marx teve formação hegeliana – diz respeito à crítica de Newton. Ao cingir as categorias de espaço e tempo e as considerar separadamente, Hegel alertava que a física de Newton não promoveria o conhecimento.

    Hegel antecipava, com isso, em quase 100 anos a teoria da relatividade de Einstein, baseada no conceito unificado de espaço-tempo e na qual não há força de gravidade. Os corpos celestes não se atraem por causa de uma força mágica, como se fossem mestres Jedi dos filmes de Star Wars. Einstein oferece uma explicação para o fenômeno, algo ausente em Newton (é claro, Einstein não possuía a qualidade filosófica de Hegel).

    A comparação de uma “teoria” de Marx com a física de Newton faz pouco sentido. É mais uma reprodução de ISMOS.

  2. “Ismo” é o fim da História. Neste ponto o economista Keynes dá um baile:
    “A longo prazo, todos estaremos mortos”.

    – In the long run we are all dead.

    – A Tract on Monetary Reform (1923), capítulo 3

    ps: sem a Física de Newton não existiria Teoria da Relatividade; Anakin!

  3. A definição original do marxismo cultural corresponde ao que foi descrito no artigo. Mas na militância dos dias de hoje, o chamado marxismo cultural ganhou uma acepção própria. É produto da progressiva substituição dos trabalhadores pelos lúmpens como o público revolucionário por excelência, fenômeno que vem desde o final do século passado, mais exatamente desde o fracasso da luta armada, que não teve o apoio dos trabalhadores.

    O fato é que os trabalhadores aderiram ao capitalismo, então os militantes procuraram seu novo público entre os marginais da sociedade, aqueles a quem Marx denominava lúmpen-proletariado, e afirmava serem imprestáveis como revolucionários. A coisa funciona assim: onde quer que exista um grupo de indivíduos desfavorecidos em algum conflito, antissociais, desajustados e inconformistas, os militantes vão lá e buscam a sua adesão, mesmo que o conflito no qual eles estão envolvidos não tenha nada a ver com luta anti-capitalista. Com este fim, produzem um discurso que se convencionou chamar de marxismo cultural. Mas esse discurso causa imensa repulsa nas massas populares, em geral religiosas e conservadoras em termos de costumes, e tem sido a causa principal do divórcio entre o eleitorado trabalhador e a esquerda.

    No fim, vemos que Marx estava de todo certo ao considerar os lúmpens imprestáveis como revolucionários. Embora eles afrontem a ordem burguesa com sua conduta antissocial, por outro lado são facilmente cooptados pela burguesia, em razão de seu caráter venal. Através da História, os burgueses sempre compraram os lúmpens por poucos tostões, inclusive para jogá-los contra os trabalhadores.

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