No coração de Nise, a recepção da loucura, por Lucio Lauro B. Massafferri Salles

Nise desenvolveu uma terapêutica da psiquê, a qual chamava, também, de emoção de lidar1 (com o outro) por intermédio da arte, com os seus reconhecidos efeitos curativos.

Arte HuffPost Brasil

No coração de Nise, a recepção da loucura

por Lucio Lauro B. Massafferri Salles

Em tempos de incrível retrocesso e adoecimento social, movidos no ódio e no ressentimento, cabe avivar a memória de Nise da Silveira; mulher, médica, humana, cidadã ativa e pioneira da Luta Antimanicomial no Brasil. Afinal, a importância de Nise para a história do pensamento contemporâneo brasileiro extrapola o domínio da sua atuação em campo, assim como o das suas pesquisas na área da saúde mental. Desbravadora no tratamento das desarmonias psíquicas por intermédio de expressões artísticas, Nise foi perseguida e presa, devido ao seu posicionamento político.

Nise desenvolveu uma terapêutica da psiquê, a qual chamava, também, de emoção de lidar¹ (com o outro) por intermédio da arte, com os seus reconhecidos efeitos curativos. Mesmo que nunca tenha se intitulado como tal, creio que Nise da Silveira foi uma refinada filósofa da alma², para quem o exercício afetivo da alteridade, da empatia, da doação de si na relação com o outro e das ações de acolhimento genuíno, formavam os pilares da vida; uma prática potencializadora da felicidade e da alegria. Nise valorizava o thaumázein, dos filósofos gregos da Antiga Grécia, isto é, a disposição para se espantar e – a partir dessa condição de admiração – a possibilidade de desejar conhecer um pouco mais sobre o fenômeno que se convencionou chamar de “loucura”, com seus modos de manifestação e funcionamento. Segundo Nise, essa disponibilidade para a surpresa, ocupando o lugar do não saber, deveria ser o grande motor de todos os que se propõem a acolher e tratar quem sofre com alguma desarmonia psíquica.

Nise apontava que o cuidado com os afetos é algo de fundamental, sendo esses verdadeiros catalisadores capazes de potencializar as vidas. Entretanto, também é verdade que os encontros e desencontros entre os humanos produzem situações em que se pode passar a desejar não mais conviver com o que se considera estranho a si, com aquilo que funciona de modo diferente e ofensivo à dita normalidade. Essa é justamente uma das molas propulsoras da lógica manicomial, desde há muitos séculos, sabemos também com Foucault. Uma lógica que busca não exatamente a preservação de uma verdade, propriamente dita, mas, sim, que visa a instrumentalizar, determinar e fixar uma verdade que só se faz verdade enquanto justificativa (pretensamente racional) para separar e selecionar arbitrariamente as convivências humanas, em sociedade. Essa ideia excludente da loucura é retratada por Foucault, na imagem da “carroça dos condenados”; composta por humanos que “atravessavam a cidade, acorrentados”, deixando atrás de si “uma esteira do mal”. Uma visão que despertava receios de “contágios imaginários” uma vez que se fantasiava que o ar viciado pela loucura “poderia corromper os bairros habitados” (1978: 353).

Deduz-se que tenha sido dessa maneira que o “remédio” para o suposto mal que a loucura ameaçava espalhar, tenha se tornado, por imposição e violência, a prisão e o isolamento, ou melhor: a prática da exclusão e da eliminação, justificada pela desrazão. Por sua vez, Nise da Silveira também propôs uma imagem, com fino senso de humor, ajudando a pensar o medo fantasioso de contágio pela loucura, enquanto doença, com a seguinte reflexão: “A contaminação psíquica é pior do que piolhos. Ela vai passando de uma cabeça para outra, numa rapidez incrível. E como você sabe todo mundo já pegou piolho… Se um dia causarmos uma catástrofe nuclear na Lua, será obra do psiquismo” (2008:71). Em outras palavras, é possível interpretar: todos pegaram piolho, e mesmo assim ainda se teme a sua propagação; o seu contágio.

Em 1986, aos oitenta e dois anos de idade, sob o título de Casa das Palmeiras, Nise publicou o livro no qual apresentou ao grande público o projeto da sua inovadora Clínica, fundada trinta anos antes, em Dezembro de 1956; uma clínica de tratamento das afecções psíquicas por intermédio das expressões artísticas. A abordagem clínica com a utilização das expressões artísticas já era desenvolvida por Nise, desde o final da década de 40 (início da de 50), no Centro Psiquiátrico Pedro II (hoje em dia chamado de Instituto Municipal Nise da Silveira). Tratava-se de um método de recepção e de tratamento da loucura, em que os pressupostos práticos e teóricos eram radicalmente contrários aos da psiquiatria que estava sendo praticada no Brasil nessa época. Na Casa das Palmeiras, Nise desenvolveu e aperfeiçoou seu trabalho com a loucura usando a arte, não só como meio (de cura simplesmente), mas como possibilidade de produção de vidas potentes, um modo distinto de realização de uma vida com arte ou, em outras palavras, um modo de fabricação de vidas tais como obras de arte, afinal, dizia Nise: a Casa das Palmeiras é um “pequeno território livre” (1986: p.11). Nesse espaço, adotou como principal método de tratamento a terapêutica ocupacional, não como uma técnica auxiliar, mas como um tratamento terapêutico que legitimava os efeitos que as diversas expressões artísticas produziam na psiquê das pessoas. Sempre se indagando, se interrogando, Nise partia do lugar socrático dos que não sabem e que, por isso, não sabendo, são capazes de se admirar e se questionar sobre o que se apresenta diante de si.

Nise percebera que o índice de reinternações de pacientes diagnosticados como esquizofrênicos era absurdamente alto; um indício de que deveria estar havendo algum problema na condução dos cuidados: “Desde muitos anos preocupava o fato de serem tão numerosas as reinternações nos nossos hospitais no Centro Psiquiátrico” (1986: 9). Segundo ela, reconhecendo serem precárias as estatísticas da sua época, numa média constante desde a década de 50 até a década de 80, cerca de 70% dos internos eram casos de reinternação. Na verdade, esse problema relativo aos egressos de internação psiquiátrica remontava ao final da década de 40 (início da de 50), conforme dá testemunho a própria Nise, na introdução desse livro, mostrando que havia algo de errado na condução desses ditos tratamentos.

A hipótese de Nise, que a posterior Reforma Psiquiátrica no Brasil corroborou como verdadeira, era de que as pessoas internadas como “loucas” tinham alta dos hospitais sem terem a menor condição de voltarem ao convívio social. Em outras palavras, Nise apontava para o fato de que quando os medicamentos e os agressivos processos de eletro choques faziam cessar (temporariamente) os sintomas, os indivíduos recebiam alta hospitalar sem a menor condição de retornar ao convívio social. Um convívio social extremamente problemático (cabe ressaltar) devido às dificuldades em se conjugar harmonicamente os modos como esses indivíduos geriam os seus afetos, os seus discursos e ações, diante de uma organização social construída sobre bases extremamente repressivas, nas quais a associação da loucura com a pobreza era bem mais do que um agravante; mas uma mistura fatal. O apego desmedido pelo vil metal era também considerado por Nise como um gravíssimo e insolúvel problema na gestão do convívio entre humanos. Fato é que, sendo mulher, pequenina e nordestina, numa sociedade machista, capitalista e preconceituosa, Nise optou pela carreira médica, que no início do século XX era quase que privativa de homens. Rebelou-se contra esses tratamentos médicos agressivos e contra a privação de liberdade que era imposta aos internos. Privação essa que ela mesma experimentou, ao ser presa no Hospital, diante dos pacientes, enfermeiros e colegas médicos, sob a acusação de “comunismo”. Como se sabe, Nise foi levada para o DOPS, situado no Centro do Rio, e depois para a Casa de Detenção Frei Caneca, para sobreviver por dezesseis meses na prisão³. Foi na prisão que Nise conheceu Olga Prestes e Graciliano Ramos, uma experiência radical que marcaria toda a sua vida futura, manifestando-se inclusive no combate frontal a toda e qualquer tipo de tortura, fosse física ou psicológica, assim como às restrições ao direito de existência, seja ela qual fosse.

Enfim, Nise acreditava que o próprio “estado do ser” denominado de loucura poderia ser considerado como uma busca, um esforço da alma em existir e em se organizar diante de um mundo imerso em terríveis ambiguidades e irracionalidades. Segundo ela, as formas das mandalas, desenhadas e pintadas pelos seus pacientes, nada mais seriam do que o esforço em se organizar e conseguir dar unidade ao psiquismo estilhaçado pelo atravessamento brutal, de uma realidade percebida como hostil. Assim, as expressões da arte, cuja potência e os efeitos curativos Nise tão bem soube utilizar em vida, na clínica, podem ser compreendidas como pujantes movimentos de cura e transformação. A cura como mudança do “estado do ser” que, quem sabe (?), poderá ser experimentado com mais alegria. A cura como modificação da alma, como uma boa mudança, de um estado psíquico para outro, melhor e mais bem posicionado frente à lida diária com as aporias insolúveis das complexas relações entre as pessoas e o mundo. Tais processos, de potencialização da vida, têm grandes chances de dar certo, com um genuíno acolhimento, não só das diferenças relativas aos modos de expressão e de existência entres os seres, mas principalmente através do verdadeiro cuidado com o outro.

Concluindo, a partir de um pensamento de Foucault que retrata bem o que vivemos nos dias atuais, além de ser bastante afinado com as práticas e ideias de Nise da Silveira, arriscaria dizer que o ato de apegar-se demasiadamente a si mesmo talvez seja o primeiro sinal da verdadeira loucura: É possível que os homens, apegando-se a si mesmos demasiadamente e descuidando, portanto, das relações e de tudo aquilo que gira fora do eixo dos seus próprios narcisismos, mas dentro do seu império de certeza de controle, tenham determinado, por fim: “o erro como verdade, a mentira como realidade, a violência e a feiúra como beleza e justiça”. (1978: 24).

NOTAS:

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[1] Foi o paciente Luiz Carlos, quem nomeou o método terapêutico de Nise da Silveira como uma “emoção de lidar”, referindo-se ao contato com os materiais utilizados em atividades artísticas, tais como a lã, ou o veludo, material este com que Luiz confeccionou um “gato macio” que lhe causava uma “grande emoção de lidar”.

[2] Esse ensaio se inspira num artigo publicado em 2014 na Revista Ensaios Filosóficos (UERJ), no qual analiso algumas das fictícias correspondências de Nise com o filósofo Benedictus de Spinoza (essas, contidas no livro Cartas a Spinoza, de Nise da Silveira): Link: http://www.ensaiosfilosoficos.com.br/Artigos/Artigo10/00_Revista_Ensaios_Filosoficos_Volume_X.pdf

[3] Nise foi presa em 1936, dentro do Hospício Nacional de Alienados, onde hoje funciona parte do campus da UFRJ e o IPUB, na Urca. Em junho de 1937, portanto um ano e meio depois de sua prisão, Nise foi libertada da cadeia. Sua anistia política ocorreu somente no ano de 1944 e sua reintegração ao serviço público ocorreu em 17 de Abril deste mesmo ano. A partir deste momento, Nise passaria a trabalhar no Engenho de Dentro, no Centro Psiquiátrico Pedro II, local onde desenvolveu os seus inovadores métodos de trabalho com pacientes esquizofrênicos baseados no setor de Terapia Ocupacional do Hospital (2008:79). Detalhes preciosos sobre grande parte da história de Nise da Silveira podem ser encontrados no livro Nise Arqueóloga dos Mares (2008. E + A edições do autor) elaborado e publicado pelo jornalista Bernardo Carneiro Horta – um amigo e também discípulo de Nise da Silveira – que contou, no percurso da confecção desse livro, com a ajuda e a colaboração de pessoas muito próximas a Nise.

Referências bibliográficas:

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FOUCAULT, M. História da Loucura. São Paulo. Ed. Perspectiva. 1978.

HORTA; B. Nise. Arqueóloga dos Mares. Rio de Janeiro. Ed. E + A edições do autor. 2008.

SILVEIRA. N. Casa das Palmeiras. A Emoção de Lidar. Uma Experiência em Psiquiatria. Rio de Janeiro. Ed. Alhambra. 1986.

 

Lucio Lauro B. Massafferri Salles – Professor e Psicólogo, Doutor e Mestre em Filosofia pela UFRJ, Especialista em Psicanálise pela USU, foi Supervisor no Instituto Municipal Nise da Silveira. Atualmente realiza estágio de Pós-Doutorado em Filosofia na UERJ.

 

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