O apelo político do PSDB depende da deseducação política, por Luis Felipe Miguel

O apelo político do PSDB depende da deseducação política

por Luis Felipe Miguel

Seria hipocrisia dizer que estou surpreso, mas o fato é que a desfaçatez do PSDB nesta campanha é admirável.

O PSDB é o partido que tramou a derrubada da presidente Dilma desde o minuto em que ela foi reeleita (talvez até antes). Que colocou Temer no poder. Que idealizou, promoveu e sustentou as reformas antipovo. Que lutou para pegar o máximo de cargos no governo golpista e, aliás, continua com eles (Aloysio Nunes Ferreira, por exemplo, continua vice-presidente do PSDB nacional e continua ocupando o Ministério das Relações Internacionais). E agora quer dizer que não tem nada a ver com a destruição do país.

Que destruição, aliás? Alckmin diz lamentar o estado em que nos encontramos, mas não diz nada sobre as políticas que seu partido desenhou, apoiou e continua apoiando. É como se o Brasil estivesse sob algum flagelo bíblico e não sofrendo os efeitos do ajuste neoliberal. Lamentar os sofrimentos dos mais pobres, o desemparo dos trabalhadores, as deficiências dos serviços públicos e não relacioná-los com as reformas de Temer é simplesmente mentir. Alckmin defendeu todas elas. A bancada tucana deu apoio unânime à emenda constitucional que congelou o investimento público, um único voto contrário à reforma trabalhista e ampla maioria à terceirização irrestrita. Não vi nenhuma autocrítica, muito menos um anúncio de que eles se dispõem a rediscutir estas questões.

O que me leva ao outro ponto: o apelo político do PSDB depende centralmente da deseducação política. Depende de um eleitorado capaz de acreditar que as meninas do Pará vão ganhar hospitais federais perto de casa sem que o teto do gasto público seja revogado. Que, de preferência, nem saibam ou não entendam o que é o teto do gasto público.

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É a mesma deseducação política que alimenta o eleitorado do Bozo, seduzido por soluções infantis e viciado na ausência de raciocínio. O que impõe a Alckmin uma duríssima tarefa: produzir um eleitor com discernimento suficiente para ver que Bozo é uma farsa, mas não tanto a ponto de ver que Alckmin é igual a ele.

Não sei se isso é possível. Talvez não seja. Por isso Alckmin corre o sério risco de ser o primeiro tucano a ficar em quinto lugar numa eleição presidencial.

Luis Felipe Miguel – Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades. Pesquisador do CNPq. Autor de diversos livros, entre eles Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Feminismo e política: uma introdução (com Flávia Biroli; Boitempo, 2014).

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