8 de junho de 2026

Sucateamento ferroviário rouba 80 bilhões, por José Manoel Gonçalves

Cálculo simples e brutal: 8 mil quilômetros destruídos multiplicados por 10 milhões por quilômetro resultam em 80 bilhões de reais de prejuízo
Reprodução

Sucateamento da malha ferroviária no Brasil causou prejuízo de 80 bilhões, com 8 mil km abandonados e queda no transporte.
Malha Sul e Oeste, operadas pela Rumo, perderam trilhos e capacidade; recuperação estimada em 89,2 bilhões ao longo de 57 anos.
Governo propõe divisão da Malha Sul; estados rejeitam e pedem concessão integrada para evitar perda logística e custos maiores.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Sucateamento ferroviário rouba 80 bilhões

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

por José Manoel Ferreira Gonçalves

Quem paga o sucateamento da malha?

O Brasil assiste a um dos maiores escândalos de infraestrutura da sua história recente. A malha  ferroviária nacional sofreu um desmonte sistemático ao longo de três décadas. Agora, a conta  chega. E ela é altíssima.

A Malha Sul, concessionada à Rumo em 1997, abrangia cerca de 7.220 quilômetros de trilhos.  Hoje, metade dessa extensão está inoperante. No Rio Grande do Sul, a situação beira o colapso.  Dos 3.800 quilômetros originais, restavam 1.600 em 2023. Após as enchentes de 2024, apenas  921 quilômetros permaneceram ativos. A Rumo transportou 14 milhões de toneladas em 2011.  Em 2025, o volume caiu para menos de 3 milhões. A velocidade média dos trens no estado é de  21 quilômetros por hora. É a quarta pior do país.

A Malha Oeste, que liga Corumbá no Mato Grosso do Sul a Mairinque em São Paulo, já foi  um dos corredores mais importantes do país. A Rumo pediu a devolução antecipada em 2016,  alegando inviabilidade. Desde então, trilhos foram removidos, estações abandonadas e  comunidades inteiras perderam o acesso ao modal. O governo federal estima que a recuperação  da linha exigirá 89,2 bilhões de reais ao longo de 57 anos. A devolução de um trecho sucateado  custa mais caro que a construção de uma ferrovia nova.

A conta do sucateamento ferroviário rouba oitenta bilhões do país. Esse valor emerge da soma  dos prejuízos acumulados. Seis mil quilômetros da Malha Sul e dois mil da Malha Oeste foram  deixados em estado de abandono. O custo médio de recuperação por quilômetro supera os 10 milhões de reais. O cálculo é simples e brutal. Oito mil quilômetros destruídos multiplicados por 10 milhões por quilômetro resultam em 80 bilhões de reais de prejuízo ao erário.

O material rodante desapareceu. Vagões enferrujam em pátios de Canoas e Passo Fundo.  Locomotivas antiquadas não operam. Trilhos, fixadores e dormentes foram retirados e levados  para outros estados. A ANTT autorizou o remanejamento, mas a reposição nunca ocorreu. O  Ministério Público Federal já cobra providências. O procurador Osmar Veronese ameaça multas  diárias caso a retirada de peças continue. A Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul  estima que uma ação judicial pode exigir até 20 bilhões de indenização por danos morais e  materiais.

O governo federal propõe dividir a Malha Sul em três concessões distintas. Os estados do Sul  rejeitam o plano. A Comissão Interestadual para Assuntos Ferroviários da Malha Sul alerta que

a fragmentação compromete a integração logística. O secretário catarinense Beto Martins  denuncia o risco de que apenas um dos três trechos atrai interessados. O Codesul entregou ao  Ministério dos Transportes um documento técnico pedindo a concessão integrada. A proposta  federal ignora o passivo acumulado e não exige indenização pela devolução de trechos  sucateados.

A Ferrovia Centro-Atlântica, operada pela VLI, oferece um contraponto. A empresa devolverá  3.200 quilômetros de trilhos antieconômicos e pagará cerca de 20 bilhões de indenização. A VLI  ainda investirá entre 12 bilhões e 15 bilhões na malha remanescente. Esse modelo deveria nortear  as negociações com a Rumo. Mas o governo parece mais inclinado a facilitar a saída da  concessionária do que a cobrar o prejuízo causado.

A ferrovia é o modal mais eficiente para o transporte de cargas. Um trem carrega o equivalente  a 400 caminhões. O custo por tonelada-quilômetro é 30% menor que o rodoviário. O Brasil,  porém, depende das estradas para 65% do transporte doméstico. Rodovias como a BR-277, a  BR-101 e a BR-163 já operam no limite. A falta de investimento ferroviário sufoca a  competitividade nacional. O agronegócio paga o preço. A indústria paga o preço. O feijão e o  arroz chegam mais caros na mesa do trabalhador.

A devolução de uma malha sucateada não pode ocorrer sem reparação. O poder concedente  tem o dever de fiscalizar. A ANTT tem a obrigação de punir. O Tribunal de Contas da União  precisa apurar responsabilidades. A sociedade brasileira exige transparência. Oito mil  quilômetros de ferrovias destruídas representam um crime contra o desenvolvimento. Oitenta  bilhões de reais não podem evaporar sem explicação. O país precisa de trilhos. Não de desculpas.

O roubo de oitenta bilhões exige resposta

A história das concessões ferroviárias no Brasil é um manual de erros. A privatização da malha  em 1997 prometia modernização. O resultado foi o oposto. A concessionária reduziu  investimentos, abandonou trechos e retirou equipamentos. O contrato vence em fevereiro de  2027. O governo discute a renovação ou a relicitação. Em nenhum momento, porém, se fala em  punir quem destruiu o patrimônio público.

O Brasil precisa recuperar sua malha ferroviária. O plano federal prevê oito leilões e 140  bilhões de reais em investimentos. Mas sem cobrar o passivo, o governo legitima o prejuízo. A  sociedade não pode aceitar que bilhões se transformem em pó de ferrugem. O sucateamento  ferroviário é um roubo declarado. E roubo precisa de punição e, acima de tudo, reparação.

José Manoel Ferreira Gonçalves – Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 19 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública. Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador Licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados