19 de junho de 2026

Pentágono quer minérios brasileiros, por José Manoel Gonçalves

Engenheiros alertam Lula sobre risco de perda de soberania mineral diante da pressão do Pentágono por terras raras brasileiras.
Shutterstock

O Pentágono busca garantir acesso aos minérios brasileiros essenciais para tecnologia militar avançada.
Brasil detém 21 milhões de toneladas de terras raras, com reservas no oeste paulista e Goiás.
Clube de Engenharia alerta para política nacional que controle extração, refino e uso desses minérios.

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Pentágono quer minérios brasileiros

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por José Manoel Ferreira Gonçalves

A soberania tecnológica exige minérios sob controle nacional

O Pentágono acordou. Não com bom senso, mas com fome. Washington descobriu que os  equipamentos militares de ponta, os drones furtivos, os mísseis guiados por satélite e os  radares de última geração dependem de elementos que o solo norte-americano  simplesmente não possui. Terras raras. Neodímio, lantânio, disprósio. Nomes estranhos  que traduzem poder real. O Brasil detém a segunda maior reserva do planeta, concentrada  sobretudo no oeste paulista e em Goiás. Agora, o Departamento de Defesa dos Estados  Unidos estuda formas de assegurar o fornecimento desses minerais. Leia-se: estuda formas  de tirá-los daqui sem pagar o preço da soberania.

A carta do Clube de Engenharia ao presidente Lula, divulgada em maio de 2026, chega em  momento preciso. Os engenheiros alertam: qualquer política de exportação irresponsável  transformará o subsolo brasileiro em mero depósito de matéria-prima para a indústria  estrangeira. O texto é técnico, mas a mensagem é política. E é urgente. A soberania  tecnológica exige minérios sob controle nacional. Não há outro caminho.

O mapa do subsolo e a pressão externa

Os dados são robustos. O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de terras raras em  reservas conhecidas. O Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo  identificou jazidas de alto teor em Serra Verde, no Goiás, e em novos pontos do interior  paulista. A China domina 60% da produção mundial e praticamente toda a cadeia de refino.  Os Estados Unidos, após décadas de negligência, tentam reconstruir uma indústria que  abandonaram nos anos 1990. Não conseguem. A Mountain Pass, única mina ativa em  território norte-americano, envia seus minerais para a China justamente para refino. A  dependência é total.

Foi nesse vácuo que o Brasil entrou no radar estratégico do Pentágono. Documentos do  Departamento de Defesa, analisados por agências de inteligência econômica, tratam as  terras raras brasileiras como item de segurança nacional para os Estados Unidos. Não para  o Brasil. Essa inversão de valores é o cerne do problema. O subsolo de um país torna-se  prioridade militar de outro, sem que o primeiro tenha sequer definido o que pretende fazer  com seu próprio patrimônio.

Engenheiros contra a dependência

O Clube de Engenharia não propõe fechar as fronteiras. Propõe inteligência. A entidade,  fundada em 1954 e com tradição de atuação em políticas públicas, defende a criação de  uma política nacional integrada para terras raras. Isso significa mapeamento completo,  investimento em pesquisa mineral, desenvolvimento de tecnologia de refino e articulação  com a indústria de alta complexidade. Significa, acima de tudo, que o Brasil deve decidir o  que produz, para quem vende e em que condições.

A experiência recente é desanimadora. O projeto Serra Verde, em Goiás, opera com capital  australiano. A produção vai para o exterior em estado bruto ou semirrefinado. O emprego  gerado é local, mas o valor agregado foge. O mesmo padrão que historicamente moldou a  economia de extração no Brasil. Ferro, soja, minério de manganês. Agora, terras raras. A  repetição do modelo não é coincidência. É escolha. Ou melhor, é omissão.

O que está em jogo

As terras raras não são commodities comuns. Sem elas, não existem turbinas de  aerogeradores de alta performance, motores de veículos elétricos, sistemas de defesa  antimísseis ou os processadores de inteligência artificial que prometem redefinir a guerra  moderna. Quem controla essa cadeia controla o século XXI. Quem apenas exporta minério  exporta riqueza e importa subalternidade.

A União Europeia já moveu peças nesse tabuleiro. O Critical Raw Materials Act, aprovado  em 2023, estabelece metas de extração, refino e reciclagem interna. A China restringe  exportações de gálio e germânio desde 2023, em resposta às sanções tecnológicas  ocidentais. Os Estados Unidos tentam reconstituir parcerias com a Austrália e o Canadá. E  o Brasil? O Brasil ainda discute se deve ou não ter uma política. Enquanto isso, empresas  estrangeiras avançam no licenciamento de novas áreas.

Minérios que não podem virar encomenda

A resposta não está na retórica nacionalista vazia. Está em decisões concretas. O governo  federal precisa centralizar o tema em um órgão com poder de coordenação, como a  Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos ou uma recriada Secretaria de Política  Industrial. O BNDES deve financiar a pesquisa e o refino, e não apenas a extração. A  Finep deve destinar recursos para a metalurgia de precisão. As universidades federais, em  especial a USP, a Unicamp e a UFRJ, já possuem grupos de pesquisa atuantes. Falta  articulação. Falta dinheiro. Falta, sobretudo, decisão política.

A carta dos engenheiros ao presidente Lula é um sinal. Mas sinais precisam de respostas. O  Brasil não pode repetir o erro do pré-sal, descoberto na década de 2000 e só parcialmente  nacionalizado após anos de debate estéril. As terras raras exigem velocidade diferente. O  mercado global não espera. Os compradores externos já negociam. E a janela de  oportunidade, como toda janela, um dia se fecha.

A hora de decidir

A soberania tecnológica exige minérios sob controle nacional. Essa frase não é slogan. É  diagnóstico. O Brasil possui o recurso, o conhecimento técnico acumulado e a escala  geográfica para ser protagonista. O que não possui é ainda a vontade política de  transformar potencial em realidade. O Clube de Engenharia fez sua parte. Agora cabe ao  governo, ao Congresso e à sociedade decidir se o subsolo brasileiro servirá ao país ou a  planilhas de compras do Departamento de Defesa norte-americano. A escolha é simples.  As consequências, definitivas.

José Manoel Ferreira Gonçalves – Engenheiro, advogado, jornalista e cientista político. Pós-doutor em Sustentabilidade e Transportes pela Universidade de Lisboa, ocupa a cadeira nº 13 da Academia Mackenzista de Letras. É autor de 18 livros que transitam entre engenharia, política, sustentabilidade e ética pública. Foi professor, pesquisador, colaborador em órgãos ambientais e repórter da Rádio Jovem Pan. Fundador da FerroFrente, Frente pela Volta das Ferrovias e da Água Viva, Associação Guarujá Viva. Coordenador Licenciado do EPD-Movimento Engenheiros pela Democracia e do SOS Planeta.

Fontes: Clube de Engenharia, carta ao presidente Lula (maio 2026); Instituto de Pesquisas  Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT); relatórios do Departamento de Defesa dos  Estados Unidos sobre cadeias de suprimento de terras raras (2023-2025); dados da Agência  Nacional de Mineração (ANM); Critical Raw Materials Act da União Europeia;  documentação do projeto Serra Verde (Goiás); análises do Serviço Geológico do Brasil  (CPRM).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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