O ardil semiótico de Trump: o “Big Stick” como farsa, América Latina e “No Kings”
por Wilson Roberto Vieira Ferreira
Se no futebol brasileiro há o velho ditado de que, em tempos de crise na Seleção, basta chamar o Chile para levantar o moral, na política externa dos Estados Unidos sob governos republicanos parece haver uma máxima semelhante: quando a popularidade despenca, chama-se a América Latina. Com bravatas militares, ameaças de intervenção e o velho “big stick” de Roosevelt em punho, Donald Trump reedita a cartilha diversionista de seus antecessores — transformando crises internas em espetáculo geopolítico, enquanto jornalistas se perdem na encenação cinematográfica e o verdadeiro jogo de poder acontece nos bastidores. Enquanto os protestos “No Kings” nos EUA tentam salvar as aparências da “maior democracia do planeta” com o ardil semiótico de figurar Trump como um mero psicopata político que abduziu a “democracia”. E não um subproduto de um sistema eleitoral elitista.
No meio dos boleiros e comentaristas de futebol daquelas indefectíveis mesas redondas de final de domingo há um provérbio irônico: “se a seleção brasileira está em má fase, chama o Chile!”, para se referir ao histórico de vitórias sobre aquela seleção como forma de levantar o moral dos jogadores do time canarinho. E reverter a má fase.
Parece que também para os governos republicanos nos EUA há uma estratégia diversionista parecida: se o governo está em má fase na opinião pública, chama a América Latina! Ou em termos mais diretos: arrume uma invasão, uma guerra ou, pelo menos, brade o “big stick” (o “grande porrete” de Roosevelt) para a América Latina.
Por exemplo, em 1983, dias depois de uma explosão em uma instalação militar americana no Líbano ter matado mais de 240 soldados americanos, o presidente Ronald Reagan desfechou a “Operação Fúria Urgente” – Reagan ordenou a invasão ilha de Granada alegando ameaça aos cidadãos americanos na nação caribenha em função da tomada do poder por um governo supostamente comunista apoiado por Cuba e União Soviética.
E agora, em meio a protestos que estão levando multidões às ruas contra Trump, a política dos tarifaços começar a revelar a sua inutilidade com o aumento da inflação dos EUA e o “pacto de paz costurado por Trump” em Gaza que já começa a apresentar toda a fragilidade, o mandatário republicano coloca a América Latina na mira: depois de bombardear barcos em águas internacionais, Trump ameaça ordenar operações por terra contra narcotraficantes.
E já ordenou que o maior porta-aviões do mundo (o USS Gerald Ford) rume em direção ao Caribe.
Até aqui o “Make America Great Again” se restringe apenas a repetir como farsa as antigas “Doutrinas Monroe” (aquela que resume a AL ao quintal geopolítico dos EUA) e o “Big Stick” de Roosevelt (“fale manso e carregue um grande porrete”).
Para cada ordem, bravata ou medida presidencial assinada por Trump, devemos sempre ter em mente a síntese do diversionismo na comunicação alt-right feita por Steve Bannon: “Flood The Zone!”, inunde a mídia de acontecimentos e notícias tão desconexas que deixe os jornalistas atordoados. Preocupados muitos mais com o acessório do que com o essencial.
Donald Trump chegou à presidência combinando duas qualidades que adquiriu em sua carreira: a habilidade adquirida no jogo duro do mercado imobiliário novaiorquino de transformar crises em um balcão de negócios e o feeling midiático conseguido na participação em filmes, anúncios de fast food e protagonista do reality “O Aprendiz”. Se o mercado imobiliário o tornou rico, a televisão tornou-o famoso.

Um exemplo dessa estratégia diversionista “Flood The Zone” são as alegadas motivações políticas de Trump ao impor um tarifaço ao Brasil – STF, anistia a Bolsonaro, o totalitarismo de Xandão etc. No final, a crise político-diplomática revelou-se um balcão de negócios: colocar as terras raras brasileiras na mesa de negociação.
Estratégia diversionista para manter jornalistas ocupados em falsos debates. Enquanto o mais importante acontece em outra cena.
Ocupando o segundo lugar em reservas mundiais de terras raras (crucial para as Big Techs que financiaram Trump), o Brasil entra como objeto da preocupação geopolítica: a China domina o jogo com a tecnologia e infraestrutura para agregar valor aos minérios raros. Para os EUA, é crucial que o Brasil não lance mão da sua riqueza com o know how chinês.
Não porque os EUA queiram, eles mesmos, processar industrialmente os metais – segundo o analista político Bertrand Arnaud, os Estados Unidos não têm nem vão ter a menor condição de competir com a China. Além de faltar-lhes os próprios recursos, faltam-lhes a tecnologia, a mão de obra qualificada, o ecossistema propício, o volume de investimentos, as condições sócio-culturais… Não só no momento, mas nas décadas vindouras. Portanto, tudo o que Trump faz é blefar.
Isto sim, na verdade os EUA querem é apenas manter o Brasil de mão amarradas ao impor a cessão das terras raras como moeda de troca do recuo na imposição das tarifas e sanções. Sem falar na regulamentação das Big Techs e dos data centers em território brasileiro.
É sincrônico que a escalada das ameaças ao “narco-terrorismo” da América Latina aconteça às vésperas do encontro com Lula às margens da cúpula na Malásia. É o modus operandi trumpista: gerar crises para criar mais dificuldades no balcão de negócios. E oferecer facilidades.

Enquanto isso, os estressados jornalistas ficam discutindo o tamanho do porta-aviões USS Gerald Ford, quantos aviões, destroyers e helicópteros transporta e quanto soldados cabem… Ficam hipnotizados com toda prestidigitação cinematográfica. Enquanto calmamente Trump faz negócios.
E em discussões inúteis em canais fechados de notícia, com os informantes de pauta de sempre, interpretando o Direito Internacional para responder à questão se os bombardeios letais a barcos no Pacífico e Caribe, que seriam usados para tráfico de drogas, são legais ou não.
“No Kings”: como salvar as aparências do sistema
A grande mídia brasileira sempre tentou salvar as aparências da América, repetindo o clichê de que a Democracia americana é “a maior do mundo”, “modelo” etc.
Quando são obrigados a ter que explicar ao distinto público um sistema que inclui o Colégio Eleitoral, onde a eleição presidencial não é decidida apenas pelo voto popular nacional, em que cada estado tem suas próprias regras para as prévias eleitorais a ênfase em “estados-pêndulo” e a possibilidade de um candidato vencer no voto popular e perder a eleição por falta de votos no Colégio Eleitoral, desconversam e falam que é um sistema “complexo”.

Os protestos contra Trump nos EUA, que estão levando milhares de pessoas às ruas em cidades como Washington, Chicago, Miami, Nova York e Los Angeles, denominados “No Kings” (Sem Reis), também tentam salvar um sistema eleitoral que Trump e a extrema-direita sabem ser frágil e baseado unicamente num velho pacto federativo que desde os séculos XVIII-XIX afunilou o poder em proprietários de terras e escravos.
Trump e a extrema-direita sabem que o sistema eleitoral dos EUA sempre elegeu presidentes com baixo comparecimento de eleitores (o voto não é obrigatório e o sistema é propositalmente desestimulante) e, por isso mesmo, esses “fios soltos” do sistema nunca ficavam expostos à mídia. Com a estratégia de polarização transformando o debate político em pleito plebiscitário, Trump atingiu em cheio o sistema, numa tática deliberada de criar descrença e caos.
O nome “No Kings”, o brand name para turbinar os protestos e virar verbete na Wikipedia (uma das receitas para se fazer uma RPH – Revolução Popular Híbrida – dentro da Guerra Híbrida) quer mais do que protestar contra o Governo. Mas, principalmente, salvar as aparências de um sistema eleitoral elitista que a extrema direita soube muitos bem explorar suas lacunas.
Pelo manifesto “No Kings”, Donald Trump agiria de forma autoritária, como um rei. “O presidente acha que seu governo é absoluto”, diz a página na internet dedicada aos atos.
“Mas na América não temos reis e não recuaremos diante do caos, da corrupção e da crueldade”, completa o texto.
Cínico, Trump faz chacota de tudo e ironiza: “Eu não sou rei, fui eleito!”.
Corroborando com o discurso paranoico e conspiratório do mandatário americano (ele necessita criar um inimigo interno) a mídia informa que os protestos foram organizados por uma “coalizão de esquerda”.
Na verdade, o movimento é organizado pelo Indivisible Project (iniciado em 2016 como reação ao governo Trump) cujo financiamento vem através da ActBlue, Comitê de Ação Política (PAC) e plataforma de arrecadação de fundos do Partido Democrata.
Ou seja, a estratégia semiótica de promoção dos protestos (associar Trump a um “Rei” ou ao clichê de uma personalidade despótica que pretende abduzir a democracia americana) pretende menos denunciar um governo ditatorial e corrupto e muito mais salvar as aparências da “maior Democracia do mundo livre” – faixas, cartazes e slogans se limitam a tipificar Trump como algum tipo de excrescência ou psicopatia política.
E não como a consequência oportunista de um sistema político-eleitoral intrinsicamente elitista.
Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunicação Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.
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conrado francisco paulino
27 de outubro de 2025 8:29 pmBoa! Interessante interpretação da situação atual dos “Estragos Unidos” ( alcunha q está pegando 🥴🤪)
Paulo Dantas
27 de outubro de 2025 10:56 pmGood cop , bad cop , por enquanto god com Brasil e Argentina , bad com Venezuela e Colômbia.
Mas este bom não sei se se sustenta.
Mas Trump é a Semiótica em pessoa , ele comendo panqueca é um discurso semiótico.