O bolsonarismo, as milícias e a pós-verdade, por Tania Maria de Oliveira

No Brasil, o bolsonarismo elevou à enésima potência a capacidade de desvirtuar fatos, para fazer valer sua narrativa.

O bolsonarismo, as milícias e a pós-verdade

por Tania Maria de Oliveira

“As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”.
 (Friedrich Nietzsche)

O termo “pós-verdade”, com a definição adotada na última década, sobretudo na eleição de Donald Trump e o processo do Brexit, foi usado pela primeira vez em 1992, pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich, de acordo com o registro do departamento da Universidade de Oxford, responsável pela elaboração de dicionários. Uma forma razoavelmente simples de explicar o neologismo, é a prevalência da versão artificialmente construída sobre o fato, histórias fabricadas a partir de determinados contextos para parecerem verdades, com vistas a atingir objetivos específicos.

A forma de comunicação pelas chamadas redes sociais potencializa o uso do fenômeno da pós-verdade. No Brasil, o bolsonarismo elevou à enésima potência a capacidade de desvirtuar fatos, para fazer valer sua narrativa.

Nas eleições de 2018, tínhamos um candidato que é pai de cinco filhos com três mulheres diferentes, nem todos oriundos de casamentos. Esse era Jair Bolsonaro. Seu adversário principal, Fernando Haddad, é casado há mais de 30 anos com a mesma mulher, e pai de dois filhos com ela. No entanto, foi o primeiro quem se consolidou como candidato da família cristã. A explicação do evidente paradoxo pode ser encontrada na comunicação, como a informação alcançava a ponta, o eleitor. As fake News são a amostra da pós-verdade na interlocução e influência via redes sociais.

A busca do bolsonarismo pelo controle da verdade por meio da comunicação em redes continuou após a eleição e, recentemente, atingiu seu apogeu. Premidos pelo que pode ser considerado o calcanhar de Aquiles da família Bolsonaro – a ligação com as milícias –, iniciaram um processo de tentar envolver a esquerda em idêntica acusação, na evidente intenção de fazer disputa de narrativa, não a partir de fatos, mas de fantásticas criações desviantes.

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No último dia 12 de fevereiro, durante audiência da Câmara dos Deputados, sobre a PEC que autoriza a prisão em segunda instância, o ministro e ex-juiz Sérgio Moro lançou a pérola de que o grupo de oposição que fez a redação de seu pacote – alcunhado erroneamente de “anticrime” – retirou as milícias do texto, favorecendo-as.

A fala tentou rebater a acusação de que não investiga as milícias para proteger a família do presidente, mas o fato concreto é que não cabe nominar organizações criminosas em lei, senão em um erro grotesco de técnica legislativa. Além disso, na redação sugerida pelo ministro, a pena para as milícias seria menor. Ainda assim, Moro deu a partida para a narrativa de pós-verdade que intenta unir milicianos à esquerda.

Ato contínuo, a morte de Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão da PM do Rio de Janeiro, conhecido como Capitão Adriano, vem a ser o mais incrível episódio de pós-verdade já produzida pelo bolsonarismo.

Foragido há um ano, acusado de comandar a mais antiga milícia do Rio, o ex-militar tem um longo histórico de ligações com Flávio Bolsonaro, senador e filho do presidente da República, e com toda a família, tendo recebido homenagem de pai e filho, em seus respectivos mandatos, como um policial exemplar, mesmo após condenações por crimes.

O fato de Adriano Nóbrega ter sido morto pela Polícia Militar da Bahia, estado governado pelo Partido dos Trabalhadores, foi o mote que o bolsonarismo precisava para criar uma versão estapafúrdia e sem qualquer base de veracidade, de ligação e interesse do partido e do Executivo local na morte do miliciano.

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Em aplicação direta do comezinho ditado popular segundo o qual “a melhor defesa é o ataque”, Flávio Bolsonaro se mostra em busca de quem teria executado seu amigo miliciano, fazendo postagens de “quem matou Adriano?” e chegando ao requinte de divulgar, nesta terça-feira (18), um vídeo no twitter expondo a autópsia do ex-capitão  – vídeo que em seguida se mostraria falso – e fazendo diversas afirmações sobre tortura, execução sumária, queima de arquivo. Seu pai, o presidente, em reforço, afirma que pediu uma perícia independente: “Já tomei as providências legais para que seja feita uma perícia independente. Sem isso vocês não têm como buscar até, quem sabe, quem matou a Marielle. A quem interessa não desvendar a morte da Marielle? Uma perícia independente vai dizer se ele foi torturado, se não foi, a que distância foram os tiros, e tinham dezenas de pessoas cercando a casa. A conduta não é essa, a conduta é cercar e buscar negociação para se render”.

No esforço para criar uma versão factível que os afaste das suspeitas sobre a morte do ex-capitão, os Bolsonaros, pai e filho, apostam no esquecimento coletivo de que nunca colocaram em dúvida a palavra de policiais militares em suas ações, nem mesmo as que terminam em morte de civis; que sempre foram defensores da excludente de ilicitude, que autoriza a polícia a matar sem investigação; que defendem a tortura; que são entusiastas da máxima de que “bandido bom é bandido morto”.

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Esqueçamos, pois, como eles pensam de fato, porque a questão agora é virar o jogo. É saírem das cordas das suspeitas de estarem envolvidos com a morte de um ex-policial que, assim como Fabiano Queiroz, convivia de perto com a família, e possuía informações que a sociedade não sabe e não saberá. Virar o jogo implica proclamar que a esquerda é quem tem ligação com as milícias, por mais bizarra e estúpida que possa parecer – e seja de fato – a afirmação.

É uma espécie de ditadura da palavra, de quem se imagina com o poder de dizer o que são os fatos, moldá-los e modificá-los ao seu bel prazer, para que se transmutem no que lhes interessa.

Nessa guerra, não basta apenas contraditar, porque não estamos na seara da disputa democrática de ideias. A tarefa política de quem defende a adoção de critérios éticos-morais no debate público é cada dia mais desafiante e requer, sobretudo, aprendizado. A consciência de que precisamos forjar novas ferramentas para enfrentar o cinismo militante, eleito à categoria de narrativa, representado pelo bolsonarismo.

Tania Maria de Oliveira é da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia.

 

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3 comentários

  1. Quem não assistiu o documentário Privacidade Hackeada, o faça. Este documentário desnuda a prática de manipulação de massas de forma pedagógica.
    Quem quiser aprofundar mais, pode estudar o livro Subliminar, de Leonard Mlodinov.
    A esquerda, por sua vez, precisa criar equipes com conhecimento das técnicas para poder criar ações para bloqueio às medidas do retrocesso em marcha.

  2. Para se alterar os fatos é preciso monitorar as pessoas envolvidas…
    e o governo tem todas as ferramentas necessárias à sua disposição

    e o que está sob vigília não são as mentiras do governo, são as verdades de cada cidadão, de cada político, de cada prefeito, governador ou secretário

    dediquem mais atenção ao caso Adriano e percebam como é possível manter todas as outras mentiras vivas eliminando-se apenas uma delas

    a mentira sempre reduz ou transfere a culpa em países com população monitorada

  3. Para se alterar os fatos é preciso monitorar as pessoas envolvidas…
    e o governo tem todas as ferramentas necessárias à sua disposição

    e o que está sob vigília não são as mentiras do governo, são as verdades de cada cidadão, de cada político, de cada prefeito, governador ou secretário

    dediquem mais atenção ao caso Adriano e percebam como é possível manter todas as outras mentiras vivas eliminando-se apenas uma delas

    a mentira sempre reduz ou transfere a culpa em países com população monitorada

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