O capitalismo de vigilância e o passado medieval à nossa frente, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Foi a Internet transformada no instrumento politico e religioso virtual através do qual os americanos renunciaram à Reforma Protestante?

O capitalismo de vigilância e o passado medieval à nossa frente

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Terminei de ler a introdução do livro de Shoshana Zuboff. Pelo que entendi, o capitalismo de vigilância, se carateriza pela exploração unilateral de informações produzidas pelos usurários de internet.

As empresas que exploram esse negócio lucrativo sem pagar o usuário pela informação coletada, sabem o que nós queremos, pensamos e desejamos. Mas nós não sabemos como nossos perfis são definidos, utilizados e comercializado.

“This new market form is a unique logic of accumulation in which surveillance is a foundational mechanism in the transformation of investiment into profit. Its rapide rise, institutional elaboration, and significant expansion challenged the tentative promise of the inversion and its advocacy-oriented values. More generally, the rise of surveillance capitalism betrayed the hopes and expectations of many ‘netizens’ who cherished the emancipatory promise of the networked milieu.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p. 53)

Tradução:

“Essa nova forma de mercado é uma lógica única de acumulação, na qual a vigilância é um mecanismo fundamental na transformação de investimento em lucro. Seu rápido crescimento, elaboração institucional e expansão significativa desafiaram a prometida tentativa de inversão e seus valores orientados à autonomia. De maneira mais geral, a ascensão do capitalismo de vigilância traiu as esperanças e expectativas de muitos internautas que acalentavam a promessa emancipatória do ambiente em rede.”

A autora esclarece que:

“…Under this new regime, the precise moment at which our needs are met is also the precise moment at which our lives are plundered for behavioral data, and all for the sake of others’ gain. The result is a perverse amalgam of empowerment [of companies that collect and exploit information] inextricably layered with diminishment [of internet users]. In the absence of a decisive societal response that constrains or outlaws this logic of accumulation, surveillance capitalism appears poised to become the dominant form of capitalism in our time.” (The Age of Surveillance Capitalism, Shoshana Zuboff, PublicAffairs, New York, 2019, p. 53)

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Tradução:

“… Sob esse novo regime, o momento exato em que nossas necessidades são atendidas também é o momento exato em que nossas vidas são saqueadas por dados comportamentais e tudo em prol do ganho de outras pessoas. O resultado é um amálgama perverso de empoderamento [das empresas que coletam e exploram informações] inextricavelmente mesclado com rebaixamento [do usuário de internet]. Na falta de uma resposta social decisiva que restrinja ou proíba essa lógica de acumulação, o capitalismo de vigilância parece prestes a se tornar a forma dominante de capitalismo em nossos dias.”

Na Idade Média, a principal fonte de poder e controle era a confissão. As pessoas contavam seus pecados (e desejos) aos padres. Ninguem sabia como eles utilizavam o conhecimento que adquiriam dessa forma.

Me parece evidente que qualquer pedaço de informação politicamente sensível obtida através da confissão podia ser utilizada contra a vontade do informante com violação do dever de sigilo do padre.

Se o poder da Igreja, do Feudo ou do Reino estivesse em perigo o padre poderia obter vantagens utilizando a informação colhida. Vida, segurança e riqueza eram objetos importantes de cogitação teológica.

Zuboff diz que o capitalismo de vigilância é um fenomeno sem precedente. Eu posso concordar com essa afirmação. Mas também digo que é possivel ver nesse fenomeno algumas características medievais que não existiam nos EUA, país predominantemente protestante (em que a confissão não é praticada).

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Sobre a medievalização da vida cotidiana patrocinada pelo neoliberalismo vide https://jornalggn.com.br/blog/fabio-de-oliveira-ribeiro/observacoes-sobre-o-neo-feudalismo-hayekiano/.

Ao longo dos dois primeiros capítulos da primeira parte do seu livro, Shoshana Zuboff usa metáforas medievais. Ela chega a mencionar autores que se referem à medievalização da vida cotidiana promovida pelo neoliberalismo em virtude da redução de direitos, hierarquização da sociedade, esvaziamento da democracia e aumento do abismo entre ricos e pobres. Todavia, ela se recusa a admitir que a maioria da população reverteu ou pode reverter à condição servil.

Zuboff acredita que os benefícios de décadas de individualização moderna impedem a implantação de uma nova sociedade feudal. Talvez ela esteja enganada. Talvez não. O tempo dirá a verdade. Nada está definido.

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