O celular e a valorização do valor, uma tragédia antropológica, por Álvaro Miranda

Embora pareçam e sejam tratados como tais, os trabalhadores não são coisas como máquinas e não podem ser equiparados a estas

O celular e a valorização do valor, uma tragédia antropológica

por Álvaro Miranda

“Ecce Homo…” Somente o fone do aparelho do telefone fixo podia (e pode) estar ou não fora do gancho. Hoje, nós, seres humanos, é que estamos fora do gancho do controle de nossas próprias vidas. Eis aqui nas nossas mãos, nesse exato momento, nós que nos sentimos “empoderados” por tantas tecnologias, o melhor exemplo para oferecer uma interpretação, de forma simples, sobre o que é a VALORIZAÇÃO DO VALOR.

Não à toa esse “gadget” como terrível e monstruoso ícone da nossa contemporaneidade, tanto mais por termos nos apaixonado por ele por seu suposto valor de uso, mas que, na verdade, condensa seu valor de troca para transformar os indivíduos em valores de uso de forças políticas e marqueteiras poderosas que sequer conhecemos.

GRAVÍSSIMO O PROBLEMA. Questão que nos empareda inevitavelmente para uma decisão: socialismo ou barbárie mesmo! Concordemos ou não com ele em várias coisas, mas nisso István Mészáros tem razão. Eu complementaria dizendo que vivemos uma verdadeira tragédia antropológica e ainda fazemos festa, posando para essas telas, gargalhando diante da iminente queda no abismo.

Interpretando grosso modo sem rigor científico e até de maneira muito esquemática e superficial, não tão bem, portanto, como outros fariam: a VALORIZAÇÃO DO VALOR que tanto falamos aqui nada mais é do que o processo de busca por mais valia, mais lucro, mais transformações tecnológicas como motor que retroalimenta a busca de mais lucro pela obtenção de mais valia, o que implica mais exploração do assalariados e mais destruição da natureza.

Tem a ver, dentre outras coisas, com o ROUBO DO TEMPO DOS TRABALHADORES, roubo de suas energias intelectuais, roubo de sua liberdade de viver com mais plenitude porque significa roubo também de suas potencialidades intelectuais, artísticas, emocionais e afetivas. Ninguém pode se “desenvolver” como pessoa livre se é obrigado, na maior parte do tempo de sua vida, a trabalhar para sobreviver produzindo lucro para os outros. E mais: relacionando-se pessimamente com seu trabalho (porque este se tornou abstrato) e até o odiando, muitas vezes.

VALORIZAR O VALOR É A MISSÃO DO CAPITAL, essa a essência da nossa sociedade. Valorizar o valor tem a ver com o interesse mais no VALOR DE TROCA das mercadorias do que no seu VALOR DE USO. Aliás, a valorização do valor transforma, por exemplo, a força de trabalho dos assalariados em valor de uso dos donos do capital para valorizar o valor. Transforma o ser humano em coisa, mas uma coisa muito especial, diferente da máquina, pois esta jamais cria valor. Máquinas são criadas por seres humanos.

Portanto, muito cuidado quando ouvirem a palavra PRODUTIVIDADE, avaliar quem está falando, em que contexto e com quais intenções. Obviamente, ela não se confunde com QUANTIDADE DE PRODUÇÃO, e a Ford, indo embora do Brasil, exemplifica isso, ao diminuir sua produção aqui, porém, buscando a valorização do valor. Lembro também, repito, que só o trabalhador produz valor, não as máquinas, uma vez submetido e algemado no processo de roubo do seu tempo pelo capital, que busca mais valia para produzir mais valor e obter mais lucro.

A mais valia tem a ver com o TEMPO SOCIALMENTE NECESSÁRIO para produzir a coisa. Tem a ver com o mais trabalho do assalariado, MAIS TRABALHO DE GRAÇA dele para o capitalista em face de cálculos convencionais do tempo médio e da fixação da jornada de trabalho mediante institucionalidades jurídicas sancionadas pelo estado.

Grosso modo resumindo, se, pelo salário, o sujeito trabalha oito horas diárias, mas gasta apenas duas horas (como tempo médio social necessário) para produzir a coisa, tempo, inclusive, suficiente para reproduzir suas condições de subsistência, significa que ele está trabalhando mais tempo de graça se o seu salário dá somente para ele comprar o mínimo para ele sobreviver. Afinal, de acordo com a lógica do capital, o cara tem que estar pelo menos vivo para trabalhar. Muitos relacionam isso com PRODUTIVIDADE.

Não são, portanto, os capitalistas que oferecem condições para se produzir coisas, nem são espécie de forças benemerentes como tios “patinhas” nadando em piscinas de cédulas e moedas de mansões-cofres, de onde retiram dinheiro para comprar tecnologias e contratar trabalhadores em troca de salários. Eles só conseguem fazer investimentos depois que já houve, em algum momento, a valorização do valor e, portanto, alguma EXPLORAÇÃO DO TRABALHO HUMANO.

Embora pareçam e sejam tratados como tais, os trabalhadores não são coisas como máquinas e não podem ser equiparados a estas, ISSO TEM QUE SER ENFATIZADO, pois não são elas, as máquinas, que criam valor, mas sim o trabalho humano no roubo de tempo dos assalariados praticado pelo capital. Vejam: ROUBO PRATICADO PELO CAPITAL, que é uma relação social, um modo de viver, um modo de produção, não sendo sinônimo de riqueza material.

Nesse sentido, engana-se quem acredita que o capitalismo seria a culminância de uma espécie de aprimoramento de utilidades, uma evolução “civilizatória”, pois a valorização do valor tem a ver com o valor de troca, aquilo que dá lucro, e não com a tecnicidade para fins de um “design” de valor de uso das coisas para o bem estar ou a felicidade das pessoas.

Claro que o valor de uso das coisas é sempre “inevitável”, desde tempos remotos em outros tipos de sociedade, em outras maneiras de dominação de seres humanos sobre outros seres humanos. Mas esse “valor de uso” teria que ter outro nome, como parte dos complexos referentes ao metabolismo do ser humano com a natureza.

Daí, em face de tudo que disse acima, lembremos que a PRODUÇÃO DA OBSOLESCÊNCIA é necessária no capitalismo em muitos artefatos para que a circulação se dê com maior velocidade, uma vez que a produção não vive sem a circulação. A velocidade da circulação faz parte da valorização do valor num encadeamento com o roubo de tempo do trabalhador no âmbito da produção.

QUEM TEM A IDADE DE 30 ANOS HOJE talvez não consiga imaginar, mas nós, que nascemos em meados do século passado, sabemos que vivíamos muito bem sem celular. Não havia uma demanda da sociedade por algum artefato com esse valor de uso como a telefonia móvel. Não sentíamos falta porque não existia e nem clamávamos por sua existência.

Se a coisa em si nos oferece determinadas utilidades, esse é outro nível do debate sobre o tema, como já disse. A colher ou o garfo, por exemplo, são da forma que são desde quando? Precisaram ser submetidas a algum processo de robotização ou algoritmos, ou alguma engrenagem mecânica ou elétrica?

Já perceberam que muitas coisas que usamos hoje são do século XIX e não precisaram se modificar substancialmente ou serem substituídas? A não ser em situações excepcionalíssimas, para que precisaríamos de um prato que usássemos no almoço com alavancas mecânicas, algo tipo elevador que o elevasse da mesa para perto da boca do comensal?

Basta apenas aqui reforçar que a produção da obsolescência é um exemplo emblemático da valorização do valor que cria o valor de uso encarnado no aparelho celular. Artefato esse para o qual é mais importante o valor de troca e, portanto, visando à valorização do valor – mais importante, enfim,  do que as utilidades como valor de uso. Como disse, vivíamos muito bem sem celular. Por que não vivemos bem sem ele hoje? O que mudou em apenas três décadas? Vive-se com o mesmo celular durante quanto tempo sem precisar trocá-lo por outro?

Mas a questão, claro, não é só gastar dinheiro para ter que trocar de celular. O troço é muito mais grave por conta das relações que se estabelecem a partir do “gadget”, aprofundando a escravidão contemporânea em “lives” de liberdade.

Para concluir, abordando a questão de forma diferente, por exemplo, de como abordou recentemente Richard Stallman em entrevista ao “El País Brasil”, para quem os celulares nos fizeram regredir dez anos em termos de privacidade: na verdade, estamos regredindo séculos em termos antropológicos a uma velocidade absurda.

Evidente que não se trata, aqui, de um ódio à “tecnologia” em si, mas a questão de saber sobre quem é o dono dela, o que e como fazer com ela. Se a IDEIA DE ESTADO É UM FETICHE, em última instância, e é mesmo, escondendo as tramas que o fazem parecer “representante” da sociedade, o que dizer do salve-se quem puder dessa parafernália privatista do egoísmo e do individualismo, supostamente neutralizados pelo que se costuma chamar de “redes sociais” – e que vai abrindo diversos abismos apenas para adiar o tempo de quem pode, pode, quem não pode…?

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