O coelho que Beijing me deu
por Iara Vidal
Nesta quarta-feira, 23 de setembro, começou oficialmente o outono na China. E Beijing entra em uma das épocas mais simbólicas do ano: estamos às vésperas do Festival do Meio Outono, também conhecido como Festival da Lua, e do Dia Nacional da China, que inaugura a famosa Semana Dourada.
É um período em que a cidade muda de ritmo. As famílias se reúnem para contemplar a lua cheia, compartilhar os tradicionais bolos da lua e celebrar vínculos de afeto e pertencimento que atravessam gerações. Poucos dias depois, as ruas ganham as cores vermelhas do Dia Nacional, uma das maiores celebrações do calendário chinês.
Foi nesse clima de passagem — entre uma estação e outra, entre memória e celebração — que ganhei um presente muito especial: um Senhor Coelho (Tu’er Ye, 兔儿爷), uma das figuras mais queridas da cultura popular de Beijing.
Mas, como quase tudo que é importante na vida, ele chegou até mim por meio de outra história.
Os presentes que uma cidade estrangeira entrega

O Senhor Coelho veio de outro presente que Beijing me trouxe: minha parceirinha de labuta, Denise Melo.
Curiosamente, nossa história começou meio atravessada. A gente não se bicou muito de cara. Eu não entendia bem aquela figura — e ela também precisou de um tempo para me decifrar.
Até que baixamos nossas respectivas guardas e descobrimos uma afinidade que estava ali, escondida atrás das primeiras impressões.
Eu sabia que construiria amizades por aqui, mas Denise foi uma dessas boas surpresas que a vida coloca no caminho. Aos poucos, virou parte da minha rede de afetos, dessas pessoas que fazem uma cidade estrangeira ficar mais acolhedora e ganhar um pouco de cara de casa.
Sou apaixonada por ela. Uma boneca.
E Denise também é uma das pessoas mais espirituosas e engraçadas que conheço. Ela tem cada história que, às vezes, me pego dias depois rindo sozinha.
Entre os muitos causos que ela já me contou, um deles envolve justamente o significado do Senhor Coelho — e foi essa história que ela trouxe quando explicou por que queria me presentear com um.
O Senhor Coelho segundo Denise
Segundo a tradição, o Senhor Coelho é, na verdade, uma figura feminina. Mas aparece vestido com roupas masculinas, usando uma vestimenta colorida e assumindo uma identidade diferente.
Na interpretação da Denise, portanto, não havia dúvida: o Senhor Coelho é um drag king. 😂
Eu achei essa versão dela maravilhosa.
Porque, de um jeito muito Denise, ela encontrou uma ponte entre uma lenda tradicional chinesa e uma leitura completamente contemporânea, cheia de humor e afeto.
E talvez essa seja justamente a beleza das tradições: elas continuam vivas porque cada geração encontra uma nova forma de se relacionar com elas.
A lua que me fez sentir Beijing
Eu tenho uma relação especial com o Festival do Meio Outono. Talvez porque, para mim, ele deixou de ser apenas uma celebração tradicional chinesa e virou uma memória afetiva de Beijing.
Em 2022, quando ainda vivíamos as marcas da pandemia, o Festival da Lua foi um daqueles dias em que consegui sentir a cidade de uma maneira diferente.
Beijing, que tantas vezes parecia silenciosa e contida naquele período, ganhou outra energia sob a luz da lua cheia.
Naquela noite, saí para jantar com minha querida amiga Xiaomiao Shi, a Isa, uma das pessoas que Beijing me deu de presente. Ela me levou ao Yuebin, o primeiro restaurante privado da República Popular da China, um pequeno espaço em um hutong que carrega parte da história da transformação econômica chinesa.
Depois da comida, da conversa e da cervejinha gelada, caminhamos pelas ruas da cidade. As pessoas olhavam para o céu, fotografavam a lua cheia e celebravam juntas aquele momento.
E eu, que sou incapaz de resistir a uma boa interação humana, encontrei um grupo de senhorinhas dançando sob o luar. Claro que fui dançar também.
Ali estava eu: uma brasileira em Beijing, em plena campanha para Lula, fazendo minha coreografia improvisada de “Faz o L, faz o coração grandão” no meio de uma roda de chinesas que provavelmente não faziam ideia do significado político daquele gesto para mim.
Mas talvez seja justamente essa uma das magias das cidades: elas nos permitem criar memórias que misturam idiomas, culturas, afetos e histórias diferentes.
Naquela noite, olhando para a lua de Beijing, eu entendi um pouco melhor por que essa celebração atravessa tantos séculos.
O Festival do Meio Outono fala de distância e conexão. De pessoas que estão longe umas das outras, mas continuam olhando para a mesma lua.
A lenda da lua, Chang’e e o coelho de jade
O Festival do Meio Outono é uma das celebrações mais importantes do calendário chinês. A data é marcada pela reunião das famílias, pela contemplação da lua cheia e pelo compartilhamento dos tradicionais bolos da lua (yuebing, 月饼).
Uma das lendas mais conhecidas associadas ao festival é a história de Chang’e, a deusa da Lua.
Conta a tradição que, há milhares de anos, existiam dez sóis no céu, causando um calor insuportável na Terra. O arqueiro Hou Yi teria conseguido derrubar nove deles e, como recompensa, recebeu um elixir da imortalidade.
Ele decidiu não tomá-lo para permanecer ao lado de sua esposa, Chang’e. Mas, em uma das versões da lenda, quando Hou Yi estava ausente, Chang’e bebeu o elixir para impedir que ele fosse roubado.
Ao se tornar imortal, foi levada para a Lua, onde passou a viver acompanhada pelo seu coelho de jade.
É dessa história que nasce uma das imagens mais bonitas da cultura chinesa: a lua como símbolo de distância e, ao mesmo tempo, de conexão.
Mesmo separados por milhares de quilômetros, aqueles que olham para a mesma lua compartilham uma espécie de encontro.
Um coelho que atravessou séculos
O Senhor Coelho, o coelho mais popular e querido de Beijing, carrega uma história que atravessa séculos.
Em 2026, ano marcado pelo Cavalo de Fogo no calendário chinês, ele chegou até mim de uma maneira especialmente simbólica: como um presente escolhido pelas mãos de um artesão que dedica sua vida a preservar essa tradição.
Conhecido em chinês como Tu’er Ye (兔儿爷), o Senhor Coelho é uma figura tradicional de Beijing, feita de argila, com corpo humano, orelhas e boca de coelho.
Durante gerações, foi associado à felicidade, à boa sorte e à proteção contra doenças.
Minha pequena escultura veio justamente de um desses guardiões da tradição. Mais do que um objeto decorativo, ela carrega a história de uma arte popular que sobreviveu ao tempo, atravessou mudanças sociais e continua encontrando novos significados na vida contemporânea de Beijing.
O guardião de argila
A tradição do Senhor Coelho está ligada ao Festival do Meio Outono.
Segundo uma antiga lenda, durante uma epidemia que teria atingido Beijing, a deusa da Lua, Chang’e, enviou seu coelho de jade para ajudar a curar os doentes. A partir dessa narrativa nasceu a imagem do Senhor Coelho como uma figura protetora.
Na representação tradicional, ele costuma aparecer usando capacete e armadura dourados e carregando um pilão, instrumento utilizado para preparar medicamentos.
Segundo o artesão Shuang Yan, um dos mestres mais conhecidos na produção do Senhor Coelho — e responsável por criar o meu pequeno guardião, escolhendo cuidadosamente a peça que viria para mim —, a personagem é, na verdade, feminina. A lenda conta que ela teria tomado emprestados o capacete e a armadura de uma divindade de um templo e se vestido como homem para poder ajudar no tratamento dos pacientes.
Durante muito tempo, famílias de Beijing costumavam homenagear o Senhor Coelho durante festivais tradicionais, pedindo saúde e proteção para seus familiares.
Embora muitos desses rituais tenham desaparecido, ele continua sendo um dos símbolos culturais mais queridos da cidade.
A produção das esculturas do Senhor Coelho foi incluída na lista de Patrimônio Cultural Imaterial Nacional da China em 2014.
O processo artesanal envolve diversas etapas: seleção da argila, modelagem, criação das formas, secagem e pintura. Cada peça carrega não apenas uma técnica, mas uma memória transmitida entre gerações.
O presente que guarda uma cidade
O mais bonito é que o meu Senhor Coelho não vem de uma prateleira qualquer. Ele chega até mim pelas mãos da Denise, que escolhe me presentear com uma peça feita por um artesão que conhece essa história por dentro e dedica sua vida a manter viva uma tradição que precisa ser preservada.
Ele não é apenas um objeto. É uma escolha carregada de significado.
Talvez seja por isso que ele chega até mim dessa forma: não apenas como um símbolo de sorte, mas como uma lembrança de que as cidades também nos protegem pelas pessoas que colocam nelas sua memória, seu trabalho e seu afeto.
Beijing me dá uma lua cheia em uma noite de pandemia. Me dá amigas. Me dá histórias.
E agora me dá um pequeno coelho de argila, escolhido com cuidado por um artesão e entregue por uma amiga, para lembrar que, mesmo longe de casa, a gente também encontra lugares onde o coração reconhece um pedaço de pertencimento.
Iara Vidal é pesquisadora independente dedicada ao estudo das interseções entre moda, política e cultura. Jornalista brasileira radicada em Beijing, trabalha como editora na CGTN em Português, emissora do Grupo de Mídia da China (CMG, na sigla em inglês).
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