21 de maio de 2026

O colapso da marinha portuguesa sob a União Ibérica, por Luiz Melchert

A União Ibérica não foi apenas uma anomalia política, mas o ponto de inflexão na história marítima de Portugal.
The Sun Sets Sail – Rob Gonsalves

O colapso da marinha portuguesa sob a União Ibérica

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

A grandeza marítima de Portugal, consolidada no século XVI, começou a ruir não por causa do mar, mas por causa da terra. A morte de D. Sebastião em Alcácer-Quibir, em 1578, deixou o trono sem herdeiro direto e mergulhou o país numa crise dinástica que terminaria por entregar o império português a uma potência estrangeira.

Com a aclamação de Felipe II da Espanha como Felipe I de Portugal, em 1580, o reino passou a integrar a chamada União Ibérica, sob uma monarquia comum que duraria sessenta anos. Oficialmente, Portugal manteve suas leis, moeda e administração; na prática, porém, sua marinha — o maior instrumento de sua soberania — foi incorporada à estratégia naval de Madri.

A frota portuguesa a serviço de Madri

O domínio espanhol transformou a frota portuguesa num braço auxiliar das guerras de Felipe II. Navios construídos em Lisboa, Setúbal e Goa, com tripulações experientes, foram usados nas campanhas do Mediterrâneo e do Atlântico Norte, sobretudo na tentativa de invasão da Inglaterra em 1588.

A participação lusitana na Invencível Armada foi desastrosa. Muitos dos melhores navios de Portugal — galeões e naus de longo curso — foram mobilizados para a frota espanhola e jamais regressaram. A derrota, diante da artilharia e da manobra inglesas, significou mais do que uma tragédia militar: foi o início da desarticulação do poder naval português.

Com a perda de embarcações, marinheiros e mestres de estaleiro, Lisboa deixou de ser o centro construtor e articulador do Atlântico. A Coroa espanhola concentrou seus esforços na defesa do próprio comércio de prata americano, relegando o império português — de Goa ao Brasil — à própria sorte.

O abandono dos arsenais e a obsolescência técnica

A subordinação à Espanha levou ao abandono dos arsenais de Lisboa e Goa e à dispersão de técnicos navais. Os estaleiros, que haviam sido referência na Europa pela engenharia das naus de alto bordo e dos galeões reforçados, ficaram sem recursos e sem comando.

Ao mesmo tempo, as novas potências marítimas — Holanda e Inglaterra — inovavam em hidrodinâmica e artilharia naval. Enquanto os navios holandeses se tornavam mais rápidos e manobráveis, os portugueses continuavam presos a modelos do século anterior, desenhados para navegação de longo curso, mas vulneráveis em combate.

A decadência técnica foi acompanhada de um colapso econômico. Sob o domínio espanhol, o comércio ultramarino português foi centralizado em Sevilha e Cádiz, e os portos de Lisboa e Porto foram marginalizados. O que fora uma rede atlântica autônoma tornou-se um apêndice da rota espanhola da prata americana.

A perda da autonomia e o início da dependência

A União Ibérica, ao fundir os dois impérios, também fundiu seus inimigos. Holandeses, ingleses e franceses, até então respeitosos dos limites lusitanos, passaram a atacar as colônias portuguesas como se fossem espanholas. O resultado foi devastador: entre 1595 e 1640, Portugal perdeu posições estratégicas em Angola, no Nordeste brasileiro e nas Índias Orientais.

Com a metrópole esgotada, as colônias foram forçadas a improvisar a própria defesa — um processo que, ironicamente, iniciaria a autonomia náutica brasileira. Enquanto Lisboa encolhia, o Rio de Janeiro, a Bahia e Pernambuco começaram a construir embarcações próprias para defesa, comércio e contrabando.

Quando a Restauração da Independência, em 1640, devolveu o trono a D. João IV, Portugal reencontrou-se dono de um império formalmente vasto, mas sem marinha, sem estaleiros ativos e sem domínio tecnológico. A prioridade passou a ser reconstruir — e a reconstrução se fez, em grande parte, com os recursos e a madeira do Brasil.

Da reconstrução à oportunidade perdida

A retomada portuguesa no século XVII contou com a ajuda de técnicos estrangeiros — sobretudo holandeses e franceses — e com o esforço das colônias. Foi o Brasil, com suas madeiras de lei, que forneceu o material para a nova frota. Dali sairia, em 1663, o monumental Padre Eterno, o maior galeão do Atlântico Sul, orgulho da engenharia naval luso-brasileira.

Mas o mesmo episódio revelou o medo da metrópole. Em vez de consolidar uma base naval no Brasil, Lisboa reagiu com proibições e controles. Temia que a autonomia colonial ameaçasse sua centralidade econômica. Assim, o impulso de reconstrução converteu-se em repressão industrial — a asfixia da construção naval brasileira que, um século depois, se agravaria sob D. João V e culminaria nas políticas pombalinas.

Conclusão: um império órfão de mar

A União Ibérica, portanto, não foi apenas uma anomalia política, mas o ponto de inflexão na história marítima de Portugal.
De nação que dominava as rotas oceânicas, Portugal transformou-se em dependente de frotas estrangeiras. E o Brasil, que nascera como parte do império marítimo, passou a ser o herdeiro não reconhecido dessa tradição — primeiro por necessidade, depois por vocação.

A frota que reconquistou Luanda em 1648, sob o comando de Salvador Correia de Sá e Benevides, já partiu do Brasil, com embarcações e tripulações locais. Era o prenúncio de uma nova lógica: o império português podia continuar existindo, mas a alma náutica havia mudado de lado do Atlântico.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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