O contexto e a chantagem, por Fernando Horta

O que significa o “aumento de popularidade” de Bolsonaro? Nada. Absolutamente nada para nós. Está em curso a maior ferramenta de chantagem das elites brasileiras.

O presidente Jair Bolsonaro participa da solenidade de posse do diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem

O contexto e a chantagem

por Fernando Horta

Vi muita gente tentando explicar o ganho de aprovação do governo fascista de Bolsonaro. Primeira capa da Folha estampa que a aprovação dele “é a maior em todo o período”. O pessimismo tomou conta de todos que tenham qualquer traço de humanidade. E junto com o pessimismo, vieram algumas análises totalmente equivocadas a respeito da pesquisa.

O que significa o “aumento de popularidade” de Bolsonaro? Nada. Absolutamente nada para nós. Está em curso a maior ferramenta de chantagem das elites brasileiras. É mais importante compreender o PORQUÊ de a Folha colocar tal informação na primeira página, do que a informação em si. Contexto e chantagem. É disso que se trata.

Em primeiro lugar há que se ressaltar a metodologia da tal pesquisa. Foi feita com pouco mais de duas mil pessoas, entrevistadas por telefone em dois dias. Há meios estatísticos de se validar amostras pequenas, mas há também meios estatísticos de se esconder eventual deformação da amostra. Pesquisa são produto comercial, que adquirem valor ainda maior se forem feitas para medir questões de enorme interesse político. Eis o caso.

Vamos admitir que está tudo bem com a metodologia. É preciso contextualizar a pesquisa. Juntamente com a pesquisa, oito notícias importantes apareceram nos jornais. Primeiro, Paulo Guedes anunciou que vai privatizar “cinco ou seis” grandes empresas públicas. Em seguida o MP do Rio de Janeiro passou a investigar Carlos Bolsonaro que, ao que parece, é um “vereador adido diplomático em Brasília”. Ainda, o cerco se fecha sobre o esquema de “rachadinha” que enriqueceu o clã por décadas. Os filhos e as ex-mulheres-laranjas de Bolsonaro entraram na mira da justiça. O STJ pede revogação da prisão domiciliar do Queiroz e Gilmar Mendes deixa o papagaio mais um tempo em casa. Tudo isso no campo jurídico. Jurídico-político, claro.

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Ao mesmo tempo o Ministério da Economia se desfaz. O time dos ultra-liberais, que tinha em Mansueto (o homem que criou a mentira das “pedaladas fiscais” contra Dilma) o grande nome, abandonou o barco e eles saíram dizendo para todos que “a economia não vai entregar nada”. Ou seja, a gestão Paulo Guedes naufraga até na visão “dos de dentro”. Na tentativa de conter o tsunami que se avizinha pós-pandemia, os militares passaram a lutar por um plano populista de recuperação. Essencialmente baseado na intervenção maciça do Estado. Crédito, obras públicas, controle do mercado e etc. Para os liberais, tanto Bolsonaro, quanto o plano militar são o inferno na sua terra ideológica. Eles estão fora.

Guedes segura a batuta ainda por puro interesse argentário. Aliás, também foi noticiado que os tribunais superiores travaram as investigações de seus crimes. Na mesma onda das decisões político-jurídicas.

Então recapitulemos. Os filhos de Bolsonaro são atacados pela Justiça e Guedes é mantido intocável. Isso no momento em que Bolsonaro ameaçava um golpe no STF, como publicou a Piauí. As mesmas instituições que por décadas esconderam os crimes de FHC, Serra, Aécio e Alckmin e que promoveram devassas ilegais contra todos os petistas, voltam a utilizar dois pesos e duas medidas e fazer a política das togas e dos martelos.

Por outro lado, a imprensa passou quase 60 dias batendo em Bolsonaro. De repente, parou. Nos quase 60 dias de marteladas (não muito incisivas) o fascista perdeu apoio incessantemente. Era preciso que a Globo e os outros veículos monopolistas mostrassem a sua força frente à internet. Junto com o avanço das agressões da mídia monopolista brasileira, vieram as decisões de controle, banimento, prisão e desmonetarização dos canais de redes sociais que o bolsonarismo usava. Olavo de Carvalho foi atingido em cheio e parece que o blogueiro do Terça Livre passou a quarta preso.

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Tão logo Bolsonaro calou a boca, a imprensa parou o ataque. Agora, ela apresenta os termos da chantagem.

O fato de a tal pesquisa ter saído na capa da Folha é bastante elucidativo. A grande imprensa está dizendo a Bolsonaro: “nós ainda podemos te sustentar ou te fazer cair”. Ao mesmo tempo. O nosso judiciário-político passa a fazer aquilo que desde 1988 faz bem: proteger as elites, assegurar seus projetos de poder e afastar as “ameaças”. A velha e boa luta de classes que o velhinho barbudo lá no século XIX denunciava.

O que está em curso é a maior focinheira que já se tentou colocar no fascista. As elites apertam juridicamente onde mais lhe dói, oferecem trégua no campo da comunicação, retomam a hegemonia através do ataque e banimento das redes fascistas e apresentam em primeira página o resultado da trégua: “a popularidade de Bolsonaro é a maior desde o início do seu governo”.

Pouco importa o resto. Todas as análises que não levarem em conta isto estão totalmente erradas. Sou dos que defendem que a eleição de Bolsonaro se deu por vilania e ignorância. Ou o voto dos perversos que enxergam nele a si mesmos, ou os ignorantes que não enxergam nada. A pandemia, contudo, tem mostrado que os efeitos práticos da vilania ou da ignorância são os mesmos e por isso, coloco-os todos no mesmo balaio dos culpados.

Vi muita gente escrevendo como “merecemos” o fascista e toda sua imoralidade e desumanidade. Muita gente dizendo que “o povo não aprende” e, de fato, isso, agora, tem pouca importância. Se a pesquisa está certa ou errada também importa pouco. O que se deve ter em mente é o contexto e a chantagem. Para o capital não é interessante destruir Bolsonaro porque abre-se porta inconteste para Lula. Na visão deles – porca e macabra – Bolsonaro é melhor do que Lula. Melhor por ser ignorante e incapaz. A violência que o fascismo dirige contra o povo pouco lhes importa. Lula sim é o alvo.

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O “alvo”, porém, não pode ser descartado. Afinal, é através do balanço das forças que a balança mostra a sua eficácia. Além de acenar com a prisão dos filhos de Bolsonaro, com a destruição possível de sua popularidade e com a possibilidade de ataques incessantes ao fascismo, o complexo oligárquico composto pela mídia monopolista e o judiciário-político guarda na manga a carta Lula. Os julgamentos da suspeição marcados para antes da aposentadoria de Celso de Melo são uma espada no pescoço do fascista. Se ele resistir o mundo lhe cairá sobre a cabeça, e Lula lhe cairá na eleição. A chantagem é construir o inferno para Bolsonaro.

Caso o fascista se cale, ouça Guedes em tudo e se submeta, seus filhos serão poupados, Lula será mantido inelegível e Bolsonaro poderá sonhar com a reeleição.

E tudo isso foi dito na capa da Folha de São Paulo. Basta saber ler.

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12 comentários

  1. A questão principal é a destruição do serviço público, acredito que o ultimo trabalho sujo do tchutchuka antes de pegar o avião…….é disso que se trata…..o botafogo, a despeito da desgraça que se abate sobre o povo brasileiro, está cobrando o envio da proposta do governo ou votará a que já está no lupanar….qual o interesse e pressa desse bando em votar propostas recessivas em pleno sofrimento do povo, com mortes, desemprego e desalento, é incompreensivel, ou não……
    Não sou trouxa em acreditar em pesquisas dos adoradores do rentismo podre, a metodologia pode estar certa ou meio certa, mas o viés, ideologico sempre está lá escondido nas perguntas….assim como os simpaticos à esquerda, entretanto, os da direita servem a isso, construir a narrativa, manipular, desconstruir a personagem, a idéia e o ideal, quem se mistura com gente podre, podre é……

  2. Aceita que dói menos. Não é coincidência, a volta de um Paulista ao Poder, depois de 90 anos de NecroPolítica de Estado Ditatorial Caudilhista Absolutista Assassino Esquerdopata Fascista. O Fascismo Esquerdopata e todos seus Factóides, Satélites, Lacaios, Nepotismo Pária vai finalmente sendo enterrado. ADEUS !! Não deixarão saudades. Deixarão apenas um rastro de destruição, atraso, mediocridade e caos. ADEUS Tancredo Neves, Gaspar Dutra, Eugênio Gudin, Aécio Neves, Bejo Vargas, João Jango Goulart, USP, Justiça do Trabalho todo seu Parasitismo e Cancros Cancerígenos, Luiz Carlos Prestes, Sindicalismo Pelego, Ditadura de Federações Corporativistas, UNE, OAB, Juscelino Kubscheck, Gregório Fortunato, Ivete Vargas, Lutero Vargas, Aécio Neves, Climério Euribes, Leonel Brizola,…ADEUS PARA NUNCA MAIS !!!! ” Liberdade., Liberdade…Abra as Asas sobre Nós…” Do Povo, pelo Povo, para o Povo “.

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  3. Horta, não sei não cara. Tá muito estranho, mesmo nestas terras onde o estranho é natural. Sou chapeador e trabalho no meio de gente bolsonarista ou não. Há um silêncio político, que ao mesmo tempo é pesado e otimista do lado fascista da empresa. E, sinceramente, já passei dos cinquenta, nunca vi tanto torcida pra um presidnete como o da galera maquiavélica que a apoio o maluco. Na minha modesta opinião, nós estamos no mesmíssimo patamar pré eleição 2018. Ou seja, querem tudo, menos o Lula. Acho que isso aqui não tem jeito. Ainda vão conseguirem fincar uma bandeira americana em cada repartição pública destas terras tupiniquim.

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  4. O autor se esmera em negar a realidade que o incomoda. A Globo nem se fala. A turma da Folha/UOL bate diariamente no governo, o culpa pela pandemia etc. Para citar apenas um exemplo, dias desses o Marcelo Leite perguntava onde eles estão errando em sua missão de colocar o povo contra o genocida. A pesquisa, também, foi feita logo após o número mágico das 100 mil mortes.

    O que acontece é que a visão das ruas é muito diferente, se o autor deixasse sua torre de marfim e andasse por aí saberia bem. Em nenhum lugar do mundo o povo exigiu a saída de algum mandatário por causa da pandemia, não seria no Brasil que isso aconteceria. Os governadores assumiram a luta, fecharam empresas e quebraram muitas delas para depois abrir enquanto continua morrendo gente… como Bolsonaro disse que aconteceria. Quem viu sua pequena empresa (ou a do irmão, do amigo etc) quebrar ou ficar a perigo virou mais Bolsonaro do que talvez já fosse. São milhões nessa situação, eles têm família, essas vozes se espalham. Muitos dos que ganharam o auxílio também passaram a simpatizar com o presidente.

    E por aí vai. Veja o que diz aqui mesmo o comentarista Fel, que não vive no mundo encantado do autor. O que está acontecendo é bastante lógico, só não vê quem não quer.

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    • Amigo meu, mais rico de anos lembrava de uma situação constrangedora quando ele, participando de um comício de Adolf, aquele mesmo, em uma praça após o anschluss da Áustria, praça ruas empilhada de otários, descobriu nos anos pós guerra ao comentar o fato que ele era o “único” no evento.
      Os povos são iguais, por sorte a “Horta” aponta outro olhar, isto permite que futuramente na praça não sejamos os únicos envergonhados negacionistas.

  5. O conformismo e o pessimismo do brasileiro, a cumplicidade da mídia e dos tribunais de justiça é tudo que a máfia bolsonarista e os defensores do fascismo querem. Temos que combater essas pragas, lutar contra a injustiça social e em favor da ciência, da educação e da cultura como lutamos pelo pão de cada dia. A luta pela democracia deve ser uma necessidade vital como o ato de respirar.

  6. Excelente análise do Fernando Horta!!!
    Sem dúvida a mídia tradicional brasileira vive um dilema: “Como preservar a política liberal de Guedes em um governo escancaradamente fascista?” Não que a elite brasileira também não o seja, ela é seccionista, racista, antidemocrática, anti-operaria … mas prefere atuar na “surdina” e manter se deitada eternamente em berço esplêndido …

  7. Três coisas:

    a) quando o autor desmerece as análises anteriores e diz que apenas as suas são as corretas, ele se mostra como incapaz de analisar um fenômeno complexo e multidimensional como é bolsonarismo;
    b) pra nós, de esquerda, o Datafolha só funciona quando favorece os nossos candidatos;
    c) há o famoso 30% dos apoiadores do bolsonaro. Se eles fossem permeáveis à imprensa tradicional como foi o antipetismo, não acredito que ele teria essa aprovação!

    ao autor do texto, mais cautela

  8. + comentários

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