O crime da Páscoa, por Laurindo Lalo Leal Filho

Mais um que se soma a tantos outros que vem sendo cometidos pelo atual governo.

O crime da Páscoa

por Laurindo Lalo Leal Filho

A desfaçatez dessa gente não tem limites.

No domingo de Páscoa o governo ocupou a TV Brasil.

Não levou tanques, como é costume em golpes militares.

Preferiu levar charlatães, travestidos de religiosos, para defender a política de assassinato em massa do governo.

Em nota de repúdio, publicada na segunda-feira, a ABI, Associação Brasileira de Imprensa, afirmou que a emissora “usou duas horas de programação para fazer proselitismo do Presidente e das políticas irresponsáveis que ele prega, diante da pandemia do coronavírus”.

Até a mulher do Silvio Santos, não contente com sua rede de TV, foi lá ocupar aquele espaço público.

Sim, um raro espaço público aberto na radiodifusão brasileira, depois de anos de muita luta.

E fechado imediatamente depois do golpe de 2016.

A primeira providência dos golpistas foi acabar com o Conselho Curador da EBC, a Empresa Brasil de Comunicação, controladora da TV Brasil.

E de mais oito emissoras de rádio e duas agências de notícias.

Era esse Conselho que garantia o caráter público da empresa.

Nele estavam representantes de empresários, trabalhadores da comunicação, do Congresso, do Executivo, e de diversos movimentos sociais, garantindo a qualidade e a independência das emissoras.

O Conselho era a voz da sociedade no interior da EBC.

É dessa forma que funcionam as mais consagradas emissoras de rádio e televisão públicas em todo o mundo.

Como a BBC, que em 2022 completará cem anos de existência.

No Brasil, só foi possível colocar no ar uma TV pública de caráter nacional em 2007, com a inauguração da TV Brasil.

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Isso porque iniciativas anteriores foram torpedeadas pela mídia comercial.

O presidente Juscelino Kubitschek, ao tentar dar sequencia a uma iniciativa do governo Vargas, concedendo um canal de TV à Rádio Nacional do Rio de Janeiro, emissora pública, foi ameaçado violentamente por Assis Chateaubriand, dono dos Diários e Emissoras Associados.

O ator e compositor Mario Lago, descreve muito bem, em suas memórias, as ameaças e o recuo de JK.

Mais de meio século depois a história se repetiu.

A mídia comercial não cansava de chamar a TV Brasil de TV Lula ou TV traço, e – sem um pingo de vergonha – pedia seu fechamento.

Curioso o silêncio atual.

O governo destrói a TV pública e ninguém fala nada.

Para isso só há uma explicação: o temor da concorrência.

A TV Brasil, durante um curto espaço de tempo, mostrou que uma outra televisão era possível.

Exibia programas impensáveis na mídia comercial.

Como aqueles dedicados à diversidade sexual ou ao debate sobre a própria televisão.

Para não falar na ampla oferta de programas infantis, vistos hoje só em famílias que podem pagar por eles, na TV por assinatura.

Nos seus últimos momentos saudáveis, o jornalismo da TV Brasil mostrou que a vida no país ia muito além dos noticiários homogêneos e pasteurizados das Tvs comerciais.

Tanto é que sua audiência cresceu.

O golpe de 2016, acabando com o Conselho Curador da EBC, apenas iniciou a destruição desse patrimônio público.

Ela foi se aprofundando até chegarmos ao crime da Páscoa.

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Mais um que se soma a tantos outros que vem sendo cometidos pelo atual governo.

Resta a esperança de que, um dia, seus autores paguem por eles.

(texto de vídeo apresentado no canal do Centro de Mídia Alternativa Barão de Itararé em 14/04/2020)

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1 comentário

  1. Quem viveu décadas a comer do dinheiro público e até a “comer gente” em palavras do próprio, roubar nas NFs de combustível e ainda ensinar os filhos a agir assim, vai esperar probidade de quem pouco liga com o dinheiro do pobre?
    Mas Bolsonaro com estas estratégias toscas de desesperado presta grande serviço à humanidade, já que é quem mais expõe falsos profetas que serão cobrados num futuro bem próximo, após tantas promessas que fizeram e que não vão dar em nada. Nem orações, nem preces, nem jejuns, nem exigir que o vírus saia. Quando muitos seguidores desta turma tiver passado por muitas provações, adoecendo ou vendo parentes, amigos, vizinhos em leitos; com dificuldades com emprego, dívidas ou em seus negócios; vendo filhos em dificuldade pelos mesmos problemas e com relação ao futuro escolar ou profissional – e tudo isto sem que o céus não resolva (já que não perceberam que à César o que é de César e a Deus o que é de Deus) – torcendo ainda para que os próximos inverno e verão não tragam novas dificuldades. O Messias Jair vai ter sobre si bastante pressão desde já, se desgastando para sobreviver aos 2/3 que ainda temos, nesta longa noite de 2020.

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