O Cristo Negro e a invisibilidade dos afro-peruanos, por Luis Gustavo Reis e Eduardo Bonzatto 

Para além da cordilheira dos Andes e da exuberante cidade de Machu Picchu, a história do Peru está intimamente ligada à da África e dos seus descendentes.

Aquarela de Pancho Fierro representando negros peruanos no século XIX.

O Cristo Negro e a invisibilidade dos afro-peruanos

por Luis Gustavo Reis e Eduardo Bonzatto 

No Peru, quem não tem o sangue dos incas tem o sangue dos mandigas

(Ditado popular)

Em 7 de novembro de 2009, o então presidente do Peru, Alan García, pediu perdão aos afro-peruanos pelos anos de opressão e discriminação sofridos ao longo da história do país. Em cerimônia solene, o mandatário disse: “Declaramos à população afro-peruana um histórico pedido de perdão pelo abuso, pela exclusão e pela discriminação perpetrados contra ela desde a era colonial até o presente.” Foi a primeira vez que um dirigente político se desculpava aos seus nacionais pelos horrores causados pelo racismo.

Embora importante, o ato esvaziou-se nele mesmo. O Aliança Popular Revolucionária Americana (APRAP), partido de centro-esquerda, que governava o Peru e ao qual Alan García era filiado, nada fez para minimizar ou combater o racismo, tão menos considerou as inúmeras sugestões de diferentes setores da sociedade engajados na luta antirracista.

O pedido de desculpas apagou-se no tempo e na memória dos peruanos. Mas a fala de Alan García possibilita algumas reflexões: afinal, há negros no Peru? Se há, como esses negros estão inseridos na sociedade peruana? Qual é a contribuição desse grupo para o país?

Para além da cordilheira dos Andes e da exuberante cidade de Machu Picchu, a história do Peru está intimamente ligada à da África e dos seus descendentes. Os primeiros africanos que desembarcaram no Peru eram integrantes do exército de Francisco Pizarro, espanhol que iniciou a conquista da região em 1532. Pizarro recrutou africanos escravizados para conquistar a população indígena e derrotar o Império Inca, um dos mais poderosos do período. Conta a tradição popular que os indígenas ficaram perplexos ao ver os negros e começaram a esfregar a pele deles para remover a cor, tal era seu estranhamento com aqueles seres humanos que jamais tinham visto até então.

A medida que a colonização espanhola avançava sobre o agora Vice-Reinado do Peru, marcada por intensas guerras civis, a população indígena sucumbia e quase foi dizimada. Com isso, reduzia-se drasticamente a mão de obra disponível. Para resolver a carência de trabalhadores, os espanhóis recorreram ao braço africano e importaram mais de 100 mil desafortunados para trabalhar nas minas de ouro, prata e esmeralda que reluziam no território conquistado dos incas. O trabalhador africano também foi usado nas lavouras, fazendas, como serviçais domésticos, artesãos, mestre de obras, aguadeiros e em diversas atividades manuais.

O domínio espanhol logrou êxito. Entre os séculos XVI e XVII, o Peru figurava entre as colônias mais ricas do Novo Mundo, e um dos principais portos de desembarque de africanos traficados pelo infame comércio escravista. Calcula-se que cerca de 700 mil africanos desembarcaram no Peru e no México durante a vigência do tráfico transatlântico negreiro, provenientes de Angola, Senegâmbia, Serra Leoa e Costa dos Escravos, atual Benin.

Para se ter uma ideia do que o número de escravos significou, a presença africana era de tal magnitude que os espanhóis consideravam Lima (atual capital do Peru) uma cidade negra. Cerca de 60% da população da cidade era negra e quase todos os aspectos da vida urbana tinham traços africanos. Não é por acaso, portanto, que um dos santos mais populares do Peru é negro, chamado Martinho de Porres.

Nascido em Lima em meados de 1579, Martinho era filho de africana liberta e um nobre espanhol. Na adolescência, entrou para Ordem dominicana e realizou diversos trabalhos eclesiásticos que seus pares rejeitavam. No convento, era admirado pela sua dedicação aos mais pobres, pelo empenho em curar enfermos, pela retidão religiosa e, sobretudo, por tratar todos de maneira igual – leigos ou religiosos, brancos ou negros, escravos ou livres. Tinha predileção pelos marginalizados, mas qualquer pessoa que o procurasse para assuntos religiosos ou medicinais, o empenho era o mesmo. Após sua morte, passou a ser reverenciado por diferentes grupos até ser canonizado em 1962. Atualmente, não há católico peruano que não devote préstimos a San Martín de Porres, o santo negro.

Por falar em devoção, a tradicional Festa do Senhor dos Milagres, uma das maiores da América Latina, leva multidões às ruas do Peru para celebrar a imagem do El Cristo Negro. Pintado por um escravo no século XVII, a imagem do Cristo Negro (como é conhecido) resistiu a infiltrações de água, a diversas tentativas de destruição por detratores e a sucessivos terremotos que assolaram o Peru (um deles, inclusive, derrubou a senzala onde o Cristo estava pintado, mas manteve a imagem intacta). Esses eventos, somados a diferentes “graças alcançadas” por seus devotos, originou um culto que, restrito aos escravos num primeiro momento, ganhou milhares de adeptos no decorrer dos séculos.

Do escravo que pintou o mural nada sabemos, apenas que era um negro proveniente de Angola, analfabeto e habilidoso. Ninguém se ocupou em registrar seu nome, sua história, perdido no tempo e no espaço. Mas sua obra sobreviveu ao ostracismo, e atualmente tramita no Congresso peruano um projeto para tornar El señor de los milagros, o Cristo Negro, padroeiro do Peru.

Habilidoso também era o famoso pintor Francisco Pancho Fierro Palas, um negro que viveu no Peru na primeira metade do século XIX. Pancho tem uma produção robusta, pintou mais de 1200 aquarelas sobre variados temas do cotidiano, todas elas preocupadas em mostrar, sobretudo, que os escravos foram fundamentais para a formação da sociedade peruana. Segundo a historiadora Maribel Arrelucea Barrantes, “quando pensamos em escravos, só nos vêm à mente escravos na lavoura, de pés acorrentados e constantemente surrados”. No entanto, continua Barrantes, “A escravidão em Lima era mais descontraída, mais maleável. Acho que Pacho Fierro queria nos mostrar a alegria de que a população africana era capaz. Ele nos mostra pessoas interagindo, morando juntas, se divertindo.” Pancho Fierro está entre os maiores pintores peruanos de todos os tempos e sua obra é referência para os estudiosos que almejam compreender o Peru do século XIX.

Foi no século XIX, inclusive, que centenas de negros serraram fileira nos exércitos de Simón Bolívar e José de San Martín, considerados os heróis da Independência, e impulsionaram a libertação peruana do domínio espanhol. Apesar de lutarem ao lado dos próceres, nenhum deles foi reconhecido como artífice da libertação nacional e seus feitos foram apagados na história. A propósito, quem se recorda da negra Micaela Bastidas, que, junto com Túpac Amaru II, protagonizou a mais importante rebelião no Peru do século XVIII, antes mesmo de Simón Bolívar e San Martín? O que dizer de Antonio Oblitas, escravo que lutou ao lado de Micaela e Túpac, um dos maiores estrategistas do período colonial peruano? Por fim, quem se lembra dos negros trucidados na linha de frente dos exércitos de Bolívar e San Martín, traídos pelos generais logo após a independência?

Findada a Guerra de Independência, a promessa de abolição da escravidão feita por Bolívar e San Martín virou letra morta. Os generais não moveram uma palha em prol da emancipação dos escravizados, até porque eles mesmos eram escravistas. Somente em 1854 a escravidão foi abolida no país.

O fim do colonialismo espanhol não representou a emancipação dos negros, que foram excluídos da república nascente. O Peru passou a ser governado por herdeiros de espanhóis, que lhes legaram suas ideias sobre a inferioridade dos negros. A segunda metade do século XIX, portanto, que deveria cultivar os valores transmitidos pela obra de Pancho Fierro, se tornou um século em que o racismo, a discriminação e outras formas de exclusão avançaram a passos largos em todas as regiões, inclusive em Lima – a chamada “cidade negra”.

Somado ao avanço das ideias racistas, o país recebeu um fluxo gigantesco de imigrantes italianos, chineses, alemães e espanhóis, que ocuparam terras, desabrigaram os antigos moradores, sobretudo os negros, e os espremeu em bolsões de miséria espalhados pelo interior do país. A miscigenação no decorrer do século XX se encarregou de tornar os negros ainda mais invisíveis, já que o processo não significou uma valorização da negritude, mas sim a negação de qualquer traço que remetesse a esse grupo.

A guerra civil que arrasou o Peru entre 1980 e 2000, patrocinada pelo Estado e pelo grupo maoísta Sendero Luminoso não poupou ninguém. A maioria dos mortos, segundo o relatório da Comissão Verdade e Reconciliação, era composta de falantes do quéchua, isso é, majoritariamente indígenas e camponeses negros.

Entre os mortos está María Elena Moyano, uma das ativistas negras mais emblemáticas do país, responsável por pressionar Alan García em seu histórico pedido de perdão. Elena Moyano, que discordava dos métodos e da forma truculenta com que o sendero tratava os camponeses, foi barbaramente assassinada por membros da guerrilha em 15 de fevereiro de 1992. Não bastassem os tiros na cabeça e no tórax, teve o corpo arrastado pelas ruas e, em seguida, dinamitado. Dias após ter partes do corpo sepultadas, os senderistas explodiram seu túmulo para que não restasse vestígio da ativista.

A tentativa de apagamento dos negros no Peru segue ativa no período contemporâneo. Apesar dessa iniciativa, não há como esconder a herança negra na festa popular, na música, na religiosidade, nas artes, nos esportes e em diferentes aspectos da sociedade. Embora o fenótipo dos peruanos seja majoritariamente indígena, os negros estão distribuídos em diferentes regiões do país, ainda que não sejam visíveis aos turistas que transitam por Lima, Cuzco ou Machu Picchu.

Atualmente, a população afro-peruana está entre 600 mil e 3 milhões de pessoas, a depender de quem faz a contagem. Isso representa entre 2% e 10% da população total. No Peru, assim como no México, o censo federal não prevê uma categoria para os afrodescendentes – isso significar dizer que os negros não existem oficialmente.

Embora o recenseamento não pareça relevante, suscita questões interessantes: se os negros não existem oficialmente, como pode existir racismo contra eles? Se eles não são computados legalmente, a quem o presidente Alan García dirigiu seu pedido de perdão em 7 novembro de 2009?

A presença negra no Peru poderia passar desapercebida na imagem que o país projeta para o mundo. Todavia, ela não pode ser silenciada e nem apagada. Nos Andes, os negros encontraram sua voz em diferentes aspectos da sociedade e estão gritando alto para que o mundo os ouça.

Luis Gustavo Reis é professor e editor de livros didáticos

Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB)

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