O dia que meus amigos da esquerda me colocaram em um meme racista, por Cristiane Alves

Dessa vez a questão é racismo estrutural, escrita excludente e reforço de vários estereótipos, mas para além, dessa vez a questão somos eu e você.

O dia que meus amigos da esquerda me colocaram em um meme racista

por Cristiane Alves

Já há alguns anos tenho falado sobre domínio do discurso e de como a esquerda tem introjetado e replicado ostensivamente o pensamento excludente da direita.

Infelizmente vejo esse fenômeno de inteligência reversa se espalhar tão ou mais rápido que o Coronavírus, e de maneira mais letal também.

Sempre que me deparo com uma interpretação coletiva de texto equivocada, venho tentar uma análise também coletiva, como antídoto.

Dessa vez a questão é racismo estrutural, escrita excludente e reforço de vários estereótipos, mas para além, dessa vez a questão somos eu e você.

O texto em voga é uma manchete da Folha de São Paulo publicada em várias plataformas de redes sociais no dia de ontem. Segue:

“Década colocou negros nas faculdades, e não (só) para fazer faxina”

Daqui de onde leio consigo notar uma série de questionamentos. Mas muitos se anteciparam para EXIGIR que no lugar da palavra DÉCADA, viesse a legenda do Partido dos Trabalhadores.

Nesse momento, para muitos amigos, o texto aceitável, reproduzível e viralizável é: PT (ou Lula), colocou pretos em faculdades, e não (só) para fazer faxina”

Pois bem, esses mesmos amigos, muitos linguistas, políticos que admiro e jornalistas preferiram esse formato de texto tão racista quanto o original. Porque creem que devolve o mérito de COLOCAR PRETO na universidade, para estudar ou para fazer faxina (o que aparece como um lugar natural para o negro, tanto que não causa desconforto tal como “DÉCADA”).

E depois de a palavra “DÉCADA” ser amplamente criticada a Folha corrige o título, passando a informar que “Negros estão na faculdade, e não (só) para fazer faxina”.

Poderia eu falar sobre voz ativa e passiva. Poderia fazer uma análise morfossintática ou só morfológica mesmo, dessa “pérola” jornalística racista. Mas não pretendo. Pretendo que a desequilibração, tão importante no processo de aprendizagem, se dê partindo do que não te incomoda. Talvez assim você perceba o cerne do que torna o racismo tão estrutural.

Primeiro esclareço que as medidas afirmativas, tão bem elencadas pelo Dep. Paulo Pimenta hoje em sua página, não são “medidas empurrativas”, não basta que existam para mudar uma estrutura. Cá estamos para provar.

As medidas afirmativas implementadas pelos governos petistas não facilitaram a entrada de negros em espaços até então exclusivamente ocupados por brancos. Elas diminuíram as dificuldades de acesso.

E para um bom leitor isso é de total importância.

Outra questão relevante é que o PT não COLOCOU negro na universidade, NEM para estudar, NEM para fazer faxina.

Negros não são incapazes. Somos inteligentes, competentes, articulados e atuantes. Talvez você tenha visto romances e novelas demais, essas em que o branco salvador é o responsável por toda conquista negra; toda conquista antiescravista ou antirracista. Mais uma vez você crê na nossa incapacidade frente à gigantesca benevolência intrínseca à branquitude.

Companheiro, você é apenas racista. Mas não sofra. Apenas cure!

Você de ontem pra cá assumiu o blackface do meme que diz que basta se tornar um tição para entrar na faculdade sem esforço. Você assumiu que meu lugar é o da faxina.

Mas preciso dizer que você, afoito defensor partidário, acha bacana dizer que fomos colocados para fazer faxina, porquanto o “só” entre parênteses assume sentido de “também”. E não, creia, o PT não colocou preto em universidade para fazer faxina. Esse lugar nos foi dado quando o sistema estruturou um projeto de marginalização da esmagadora maioria da população, ao instituir uma abolição da escravatura sem amparo social. Criando as barreiras que mais de um século depois o PT ajudou a mitigar.

O lugar da faxina nos foi imposto quando nenhum negro foi indenizado por sequestro e tortura; quando nenhum recebeu cota de terra; quando leis foram escritas para evitar que negros fossem empregados remuneradamente; quando foram proibidos de frequentar a escola; quando nos foram negados direitos à propriedade de terras e comércio; quando nos colocaram na rua com a mendicância, o roubo e a prostituição como únicas saídas à subsistência.

Acho apavorante que você, amigo de esquerda, não perceba, que o PT, nem a DÉCADA, nem o LULA ou a DILMA deveriam estar naquele título. Sobretudo porque aquela manchete em um país minimamente alfabetizado sequer deveria existir. E que qualquer correção é pífia e ainda mais ofensiva.

Você não entende? Esse problema o PT infelizmente não resolveu.

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5 comentários

  1. Esquerda? Qual esquerda? “Mais um esforço”. A todo momento, escreve-se “eu”, “eu”, “eu”… quando, em seguida, escreve “nós”, contrapõe-se com estereótipos, odiosos.
    Não se trata de política, nem de militância, onde a educação, o esclarecimento, é o mote. Nem é um debate. Longe disso. Trata-se de apenas um acerto de contas. Se isto for militância, esse apontar dedo na cara – bem ao gosto da moralidade de direita, pasmem – melhor guardar bandeira e ir pra casa. Terrível superego. Não precisamos de mais policiais.
    Teríamos que colocar no bojo a nova militância, middle class, de liberalismo de esquerda, made in USA, em nossas paragens, com diferenças históricas em termos de conflito racial, mas aplainados o suficiente para envenenar também a militância, ora social-democrata, ora marxista (embora alguns não tenham visto a classe trabalhadora, termo fora de moda), da molecada esperta vegana, ou tatuada, ou black power. Ou tudo junto.
    “Nós (eu) somos (sou) capazes (capaz).” Daqui a pouco entramos na meritocracia. Ai de você se for branco pobre: seu recurso ou é a luta de classes fora de moda ou cair nesse jogo sujo dos que apontam o dedo na cara e ser abraçado pela direita por puro ressentimento. Recado dado.
    Mas não é apenas isso. O jugo histórico se transforma em carta na manga. “Veja o que vocês fizeram conosco”. Já não se materializa em política, mas em uma dívida que qualquer um, se for identificado enquanto tal, terá que pagar. O “nós” em relação aos “outros”, reforça os estereótipos, de si e do outro. É quando o fato concreto, fonte da teoria, se coloca contra a teoria. São os negros mais brancos que brancos (não confundir com o Fanon, caro leitor). Mulheres estudantes de arquitetura da USP fazendo troça de um trabalhador pois este trabalhador discutiu com um amigo da classe delas que estava apoiando a mochila nas costas do trabalhador pra tirar o seu smartphone dado pelos pais. Sejamos justos, então, que não se passe pano pra ninguém.
    Ainda bem, surgem aqui e ali, grupos que, mantendo a boa dialética, observam esses fenômenos e se precavendo contra os acertos de contas cheios de mistificações.

  2. Melhor seria ter ficado como sempre…lugar de negro é na faxina? É isso? Dizer q negros foram colocados em universidade não para limpar não tá legal? Sério pra longe de ideologias, é mto mimimi….a pseudo esquerda que toda a direita ama, precisa só parar de cumprir essa função espúria.
    Década uma nova….era petista, engulam isso!

  3. Concordo com a autora quanto às raizes históricas da imensa desigualdade da sociedade, negros ficando com a parte desfavorecida. Mas a acusação indiscriminada a todos os brancos( desculpe, foi assim que me senti) é injusta e, como diz um comentarista acima, ajuda a jogar boa parte da classe média nos braços da direita mais abjeta, como aquela que nós “governa”.

  4. Lembro do dono desse blog num artigo na Folha de S. Paulo a festejar as cotas nas Universidades. Contudo, quando o tema se “voltou” para a USP, ele logo sacou um: “na USP, não. Lá só por competência!”. As críticas acima mostram o quão eficiente tem sido o processo de racismo estrutural e institucional. Mesmo os ditos esclarecidos, muitos dos quais hoje se intitulam antirracistas, se recusam a abrir mão e um notório racista, eugenista, nazista e antissemita como Lobato. Os epítetos empilhados aqui não são acusações ou ofensas ao famoso escritor, mas a forma como ele orgulhosamente se apresentava em sua literatura, em seus discursos, em suas análises e em seus livros! Não, não era o “espírito do tempo”. Ele era apenas uma pessoa ruim como diversos pares que promoveram os fundamentos do racismo institucional e a criminalização de um povo. No mundo real e adulto, não existe muita diferença entre Lobatos e os que acreditam que pobre e preto, no Brasil, devem ser eternos vassalos de “bondades” garantidas pela “esquerda boazinha” ou pelas “princesas isabel redivivas”. É fácil falar de meritocracia ou outra baboseira quando se tem o privilégio branco e as redes construídas no patrimonialismo. Enfim, segue o jogo. Quem não entendeu nada desde 1534, não há de entender agora, né!?
    Parabéns, Cristiane Alves. Belíssimo texto. Como vemos, o ódio racial é ainda mais agudo quando a “ofensa” parte de uma mulher!

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